A defesa do Banestes público e estadual foi um dos temas que pautaram o debate entre os candidatos a governador do Espírito Santo na noite dessa segunda-feira (21) nos estúdios da TV Vitória/Record. Foram convidados para o debate os três candidatos mais bem colocados nas pesquisas eleitorais: Ricardo Ferraço (MDB), Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Helder Salomão (PT). Ainda no primeiro bloco, o candidato do PT perguntou a Pazolini por que ele não assinou o termo de compromisso em defesa do Banestes público e estadual. No dia 22 de agosto, durante o Congresso em Defesa do Banestes, o Sindicato dos Bancários/ES instou os candidatos ao governo a assinarem o termo. Dos cinco postulantes ao Palácio Anchieta, apenas Pazolini não assinou o termo. Helder, Ferraço, Rafael Demuner (UP) e Bruno Barcelos (Missão) assinaram o documento. No debate, Pazolini justificou que o documento era “insuficiente e não traz questões fundamentais”.
O ex-prefeito de Vitória tentou explicar o que seriam as tais “questões fundamentais”. Ele afirmou que um dos motivos era “a questão ética”. Na evasiva, Pazolini afirmou que a atual gestão (se referindo a Renato Casagrande, que era o governador até abril deste ano, e Ferraço) “nomeou um presidente que foi preso pela Polícia Federal dias depois da posse”.
Ele se referia a Vasco Cunha Gonçalves, preso em janeiro de 2019 pela PF um dia após a posse na operação batizada Circus Maximus, que investigava um esquema de pagamento de propinas e desvio de recursos em fundos de pensão. Os crimes relacionados a Vasco não tinham relação com o Banestes, mas ao período em que foi presidente do BRB.
Pazolini afirmou que o termo proposto pelo Sindicato teria que trazer questões de compliance, transparência e controle social. Em seguida, Pazolini entrou no tema das bets, pontuou que milhares de famílias estavam endividadas no Brasil em função dos jogos online e acusou a atual gestão estadual de encaminhar um projeto de lei para a Assembleia Legislativa para expandir a atuação das bets no Espírito Santo. O candidato fazia menção ao projeto que viabilizou a criação da loteria estadual no Espírito Santo (Banestes Loteria, nova subsidiária do banco). O PL foi aprovado pela Assembleia em dezembro de 2023 e convertido na Lei Complementar nº 1.069/2023. De fato, a Banestes Loterias prevê as operações das chamadas bets.
O ex-prefeito justificou ainda que não houve diálogo com os candidatos sobre o termo de compromisso. “É preciso que o documento seja apresentado e que haja um espaço de diálogo para que nós tenhamos compromisso com a nomeação da diretoria do Banestes. Passamos vergonha no cenário nacional”, disse novamente se referindo à prisão de Vasco Cunha. E completou: “Isso não estava no documento”.
Na réplica, Helder foi direto: “A verdade é que o senhor se recusou a assinar o termo de compromisso. Suas justificativas não me convenceram e eu creio que também não convenceram o povo capixaba”, cravou o candidato do PT.
Pazolini não convenceu
O coordenador-geral do Sindicato, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), disse que as justificativas de Pazolini apresentadas no debate também não o convenceram. Ele lembrou que o Comitê em Defesa do Banestes Público e Estadual, que reúne diversas entidades da sociedade civil, cuja coordenação é do Sindicato, repete a prática há várias eleições. Já se tornou uma tradição. Já tivemos candidatos que se recusaram a assinar simplesmente porque não queriam se comprometer com a manutenção do Banestes público e estadual, mas nunca um candidato ou candidata questionou o teor do documento para se recusar a assinar. Concordo com o candidato Helder, Pazolini não quis assinar o termo e agora, para não ser visto negativamente pelos eleitores como o candidato que não quer defender o banco dos capixabas, arrumou uma desculpa rasteira que não para de pé”, criticou o dirigente.
Carlão acrescentou que o termo contempla pontos importantes para garantir a manutenção do Banestes público e estadual, como não abrir mão dos 92,37% das ações que o governo detém ou o compromisso do governador eleito, ainda no primeiro trimestre de mandato, enviar à Assembleia Legislativa Proposta de Emenda à Constituição (PEC) determinando que uma eventual venda do Banestes e de suas subsidiárias será mediante à consulta pública (plebiscito) à população. “Em linhas gerais, o termo é muito bem amarrado. Acho que foi justamente por isso que Pazolini se recusou a assinar”.
Sobre a queixa de Pazolini da falta de diálogo para debater o documento, Carlão argumentou que os cinco candidatos foram convidados para participar do Congresso, que debateu a importância dos bancos públicos estaduais. “Pazolini não compareceu ao Congresso, não apresentou nenhuma justificativa e tampouco fez qualquer questionamento ao Comitê sobre o teor do documento. Se ele de fato tivesse interesse em assinar, teria buscado o diálogo. O termo de compromisso é uma ação suprapartidária e balizado por princípios democráticos. Acho que é isso que assustou o candidato dos Republicanos”.
O dirigente do Sindibancários afirmou ainda que Pazolini é uma ameaça à manutenção do Banestes público e estadual. “A sociedade capixaba e especialmente os banestianos e banestinas precisam ficar atentos a esse posicionamento do candidato. As evasivas de Pazolini no debate confirmaram que ele não é um aliado do Banestes, mas uma ameaça real ao banco”, enfatizou Carlão.
Pazolini vendeu a folha de pagamento para o Bradesco
Ainda na réplica, Helder acusou Pazolini de ter vendido a folha de pagamento dos servidores da prefeitura de Vitória para um banco privado. O candidato do PT afirmou que a venda da folha mostra como o adversário pretende governar o Estado. “O Banestes precisa muito das parcerias com os municípios, e o senhor, como prefeito de Vitória, deu um mau exemplo [ao vender a folha de pagamento]. Quando fui prefeito de Cariacica durante oito anos, também fui procurado para vender a folha. E olha que Cariacica era uma cidade que não tinha dinheiro. Era tentador vender a folha. Mas mantive o compromisso de manter a folha com o Banestes. Já o senhor, quando teve oportunidade, vendeu”, provocou Helder.
Sobre a polêmica da venda da folha de pagamento, logo no início do seu primeiro mandato, em 2021, Pazolini decidiu fazer um leilão para entregar a folha dos servidores municipais para um banco privado. O Bradesco, após apresentar um lance de R$ 39,1 milhões, saiu vitorioso do leilão e passou a deter as contas dos mais de 18 mil servidores (ativos e aposentados) por cinco anos. O contrato venceu este ano. Em novo leilão, desta vez foi o Santander que levou a folha de pagamento da prefeitura de Vitória por R$ 46 milhões.
Antes de Pazolini decidir leiloar a folha de pagamento, seu antecessor, Luciano Rezende, mantinha a folha da prefeitura com os bancos públicos. O servidor podia optar entre Banestes, Caixa ou Banco do Brasil. Antes da folha ser entregue ao Bradesco, 47% dos servidores municipais tinham suas contas no Banestes, 30% no Banco do Brasil e 23% na Caixa.









