
Abertura 36º CNFBB | Foto: Contraf
A exemplo do Conecef, o 36º Congresso Nacional dos Funcionários e das Funcionárias do Banco do Brasil (CNFBB) também foi aberto nesta quarta-feira (17) com a leitura do manifesto “Tolerância zero para casos de violência e assédio”. O documento destacou que todas as pessoas têm o direito de tratamento digno, respeitoso e justo, a viver uma vida livre de violência e assédio, sem distinção de idade, gênero, sexo, orientação e identidade sexual, deficiência, religião ou origem étnica. A dirigente do Sindicato dos Bancários/ES Bethania Emerick afirmou que a leitura do manifesto faz parte do comprometimento das entidades sindicais com a construção de um mundo melhor para todos e todas. Os delegados e as delegadas realizaram a votação do regimento interno do 36º CNFBB, que obteve aprovação de 98,92%.
Mas as coincidências entre os dois congressos não pararam por aí. Se no Conecef um dos eixos centrais do debate foi refletir sobre o papel social dos bancos públicos, os funcionários e funcionárias do BB também travaram a mesma discussão. A partir do tema “Conjuntura e o papel do BB como banco público”, o economista e ex-técnico do Dieese Jorge Gouvêia fez uma ampla análise sobre as instituições responsáveis pela regulamentação do Sistema Financeiro Nacional (SFN) e a necessidade de se discutir um novo modelo regulatório para um SFN a serviço do desenvolvimento econômico que favoreça toda a sociedade.
O economista afirmou que falta representatividade de setores da sociedade no Conselho Monetário Nacional (CMN). Gouvêia disse que desde o Plano Real o CMN se tornou burocrático e fechado, sem participação social e sob discreto controle legislativo. Ele diz que este formato favorece a imposição do oligopólio dos grandes grupos financeiros que operam no país, deixando à margem as políticas de interesse coletivo da sociedade. O economista também criticou a autonomia do Banco Central sobre a política monetária do país. “Como podemos, por exemplo, pensar na industrialização do Brasil com uma taxa básica de juros de 15% ao ano [exatamente, 14,25%]? Além de impedir o desempenho do setor produtivo, a manutenção da Selic elevada é um bônus para os rentistas.”
Papel público do BB
O economista traçou uma linha do tempo para mostrar quando o BB passou a se afastar da sua função social de banco público alinhada ao desenvolvimento sustentável e à inclusão social e produtiva da população e passou a se comportar como um banco de mercado preocupado exclusivamente com os resultados. Gouvêia afirmou que a partir de 2016, com o impeachment de Dilma e sob o governo Temer, o BB sofreu uma mudança de concepção, passando a se identificar como um “banco de mercado com espírito público”. Traduzindo a nomenclatura enviesada, a busca por resultados passou a ser a prioridade do banco. Na avaliação de Gouvêia, essa foi a mudança que resultou, sobretudo a partir de 2018, na exclusão de segmentos considerados menos rentáveis. Em outras palavras, o banco ajustou sua política para atender cada vez mais aos interesses dos acionistas e menos às demandas da população.
Outros desdobramentos dessa política de mercado se refletem, segundo o economista, no fechamento de agências e de postos de trabalho. De junho de 2016 a março de 2026, a rede física do BB encolheu em quase 1.500 agências, de 5.428 para 3.942.
Junto com o encolhimento da rede também foram fechados postos de trabalho. No mesmo período, houve redução de 24.996 postos de trabalho (-22,8%), ao mesmo tempo em que o número de clientes por funcionário subiu 83,7%, e o número de clientes por agência quase dobrou, com aumento de 95,3%.
A mesa que debateu o papel público do BB esteve sob a mediação do coordenador da Fetec Centro-Norte Rodrigo Brito. No fechamento da mesa, depois de ouvir atentamente a fala de Gouvêia, Rodrigo deixou uma reflexão inquietante para os participantes: “Não adianta sentar em uma mesa de negociação sem saber disso tudo, sem conhecer essa história. É necessário debater esses dados. Sem isso, todos os nossos esforços de negociação e organização das bases não serão eficientes”.
O dirigente do Sindicato dos Bancários/ES Igor Chagas foi um dos que saíram do auditório com a reflexão do papel público do BB fervilhando na cabeça. Igor sublinhou a fala final de Rodrigo, que alertou que é fundamental levar essa discussão para a mesa de negociações na campanha salarial deste ano.
Igor destacou o documento que inspirou a fala de Gouvêia, elaborado pelo Comitê em Defesa do BB. O documento de 2022, recentemente revisado, chegou a ser entregue à equipe de transição do governo Lula logo após as eleições, mas não houve aproveitamento do conteúdo ou encaminhamentos a partir do estudo. O documento, entre outros apontamentos, afirma Igor, apresenta uma proposta de reformulação estratégica para o BB, defendendo o resgate de sua função social e de seu papel como indutor do desenvolvimento econômico e sustentável do país. O texto questiona a atual lógica privada da instituição e sugere mudanças estruturais alinhadas a um cenário de transição política e social.
“Em sua fala, Gouvêia fez atualizações deste documento, o que o coloca na ordem do dia para ser discutido na mesa de negociações”. O dirigente do Sindicato dos Bancários/ES destacou alguns pontos do documento. Ele salientou que há um conflito flagrante de interesses no BB. “O banco tem priorizado uma racionalidade empresarial focada em rentabilidade muitas vezes superior à dos bancos privados. Não por acaso, vimos nos últimos anos o BB disputando a liderança do lucro palmo a palmo com o Itaú, deixando para trás Santander e Bradesco.”
Igor criticou o distanciamento da função pública do banco. Segundo o dirigente, essa postura reduz a estrutura do banco e deixa em segundo plano sua atuação como agente financeiro público e estratégico para o desenvolvimento socioeconômico do país.
Tema bastante debatido tanto no Conecef como no CNFBB, o documento também aponta a necessidade de regulamentação das atividades do sistema financeiro nacional. “Construir institucionalidades capazes de fazer valer o ‘Direito à Inclusão Financeira’ e a ‘Função Social do Crédito’ (os velhos problemas); enfrentar os riscos e impactos (e oportunidades) sobre o SFN oriundos das ‘Inovações de TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação)’ e das ‘Mudanças Climáticas’ (os novos problemas-desafios); e aproveitar os espaços (re)abertos para projetos nacionais e regionais (produtivos e financeiros) de desenvolvimento como possibilidades de desdobramentos das novas geopolíticas e economia política verde”, diz um trecho do estudo.









