A 36ª edição do Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal (Conecef) teve um formato bastante peculiar este ano. O sempre acalorado debate presencial foi substituído pelas telas de computadores e celulares, inaugurando o Conecef virtual, mudança imposta pela pandemia do novo coronavírus. Mesmo à distância, cerca de 250 delegados definiram neste sábado, 11, as estratégias de luta e a pauta de reivindicações específica para a Campanha Nacional 2020.

As discussões se orientaram em três eixos: Defesa da Vida (democracia; empresas públicas; Bancos Públicos; defesa da Caixa 100% Pública); Saúde (saúde e condições de trabalho; Saúde Caixa; Funcef) e Direitos (CCT e ACT; Contratações). A pauta aprovada no 36º Conecef ratificou a manutenção dos direitos, apontou novas reivindicações e discutiu temas como o fim do teto para o Saúde Caixa, defesa das empresas públicas e da Caixa 100% pública.

Foram debatidas também três divergências. Uma delas analisou a “Renovação do atual ACT com mais conquistas pelo período de dois anos e com a inclusão de garantias para o projeto remoto e para o trabalho remoto”. A diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, em sua defesa pela rejeição da proposta, destacou que não se deve estabelecer a duração do acordo, a priori, antes do processo negocial. “É luta que sustenta o processo negocial. Não cabe ao Conecef definir a duração do acordo. Essa é uma prerrogativa das assembleias de base a partir de uma proposta resultante do processo de negociação. Dependendo das diretrizes da proposta do acordo é que as assembleias irão avaliar a duração do acordo que lhes convêm”, explicou Rita.

A também diretora do Sindicato, Lizandre Borges, acrescentou que cravar os dois anos agora limita as negociações. “Somos a favor da manutenção das cláusulas porque defendemos nossos direitos, assim como somos a favor das reivindicações porque não teria sentido lutar sem ter no horizonte novas conquistas. Mas antecipar os dois anos agora engessa esse processo de negociação que, aliás, deve ser um dos mais duros dos últimos tempos”, avaliou Lizandre. Essa conclusão de quão difícil será o processo negocial foi praticamente consensual entre os mais de 250 delgados que participaram do Conecef. Sobre a proposta, a maioria acabou votando a favor.

Houve também divergência sobre o “fim do teto para o Saúde Caixa” ou a “ampliação do teto estatutário de gastos”. Na votação, prevaleceu a proposta pelo “fim do teto” defendida pelo Sindicato (Fetraf RJ-ES) e outras federações.

Home Office

A partir do eixo Direitos, o teletrabalho ou home office foi um tema recorrente nas assembleias e congressos estaduais e regionais. Para Lizandre, o trabalho remoto já é uma realidade para os bancos, que já devem ter uma proposta desenhada para o home office. “Esse tema que está na ordem do dia. A pandemia acelerou um projeto que os bancos previam implementar em três ou quatro anos. Mas, na minha opinião, o tema não foi discutido no Conecef com a profundidade que merece. Era preciso levantar em detalhes como o trabalho remoto está afetando a vida dos empregados da Caixa em todos os aspectos: saúde, dinâmica familiar, gastos extras, rotinas de trabalho etc. Não houve espaço adequado para essa e outras discussões importantes, como por exemplo a situação das Pessoas com Deficiência (PCDs) na Caixa”, sublinhou Lizandre.

A dirigente reconheceu que o ambiente virtual pode ter contribuído para um debate menos produtivo, mas ponderou que a dinâmica do debate, independentemente de ele ser virtual ou ter enfrentado problemas técnicos, não abriu o espaço adequado para as discussões. “Por exemplo, o adoecimento causado pela pandemia é outro tema que mereceria uma discussão mais detida, mas novamente o formato do Conecef não proporcionou esse espaço mais amplo de debate”, lamentou.

Teses

Logo no início do Conecef os representantes das diferentes correntes apresentaram suas teses, seis no total. Rita Lima, pela Intersindical, destacou o contexto em que ocorre a Campanha Nacional deste ano. Ela disse que as crises sanitária, econômica e política têm provocado consequências sociais gravíssimas, sobretudo para os segmentos mais vulneráveis da população.

A dirigente criticou a política genocida do governo Bolsonaro e lamentou as mais de 70 mil vidas que perdidas para a covid-19. Ela alertou que esse número pode ganhar proporções ainda mais alarmantes com a retomada precoce da atividade econômica. Rita destacou ainda a importância do Sistema Único de Saúde no enfrentamento da pandemia. “Se não fosse o SUS, a situação seria muito pior”.

Rita Lima destacou que é preciso cassar a chapa Bolsonaro-Mourão e convocar novas eleições. “Ambos defendem o mesmo projeto. É preciso intensificar a luta em defesa da vida e dos direitos. Unificar as forças democráticas do campo da esquerda para derrotar essa politica neofascista e antipopular”.

No recorte relacionada à Campanha Nacional, Rita Lima afirmou que o ACT 2018 focou no eixo “nenhum direito a menos”, mas ponderou que a escolha significou abrir mão de testar a força de mobilização e a capacidade de luta da categoria. “Acabamos assinando um acordo que ataca direitos ao colocar em risco o Saúde Caixa. Na Campanha deste ano precisamos corrigir esse terrível erro e colocar o Saúde Caixa para todos, o fim do teto e nenhum recuo com relação ao custeio no centro da nossa luta”, assinalou.

A unidade, enfatizou a dirigente, é princípio fundamental para fortalecer a luta e derrotar os oponentes. “Campanha Nacional Unificada, mesa única e CCT. Para isso acontecer é preciso mobilizar os empregados e…”, advertiu Rita, que foi cortada abruptamente antes de concluir o raciocínio pelo “sistema” automático que cronometrava o tempo de fala.

“Particularmente, não gostei do aspecto organizacional do debate. Esses cortes abruptos foram terríveis e recorrentes. Faltou aquele velho e bom ‘companheiro, companheira, você tem só mais um minuto para concluir’. E a pessoa faz aquela súplica quase chorosa por mais derradeiros 30 segundinhos. É desse calor humano que a gente sentiu falta”, disse em tom nostálgico Lizandre.

O primeiro Conecef virtual limitou o número de participantes a 280 delegados. “Eu tinha outra expectativa. Justamente por ser virtual, não contava que a organização impusesse limite de inscrições”, observou Lizandre.

Rita Lima completou: “Lamentamos muito que a participação dos aposentados tenha sido pequena. A tecnologia deveria ter ampliado e não restringido a participação. Os aposentados foram excluídos das discussões de temas que os afetam diretamente, como a Saúde Caixa, Funcef, a defesa da Caixa e da vida. O Sindicato deixa registrado que se posiciona contra essa decisão da organização de excluir ou restringir a participação dos aposentados no 36º Conecef”, sublinhou Rita Lima.

Restrito ao limite de cinco ativos e um aposentados, o Sindicato dos Bancários/ES foi representado por Rita Lima, Lizandre Borges, Renata Garcia, Jackeline Scopel, Sétimo Araújo e Vinícius Moreira da Silva (suplente), que substituiu Igor Bongiovani (titular). Os representantes do Sindicato foram eleitos no Congresso Estadual dos Empregados da Caixa, realizado no último dia 26.