
Na próxima terça-feira, 26, às 18 horas, no auditório do Sindicato dos Bancários, a escritora e educadora Elda Alvarenga fará lançamento seguido de debate do livro “Professoras Primárias: profissionalização e feminização do magistério capixaba (1845-1920)”. O evento tem o apoio do Sindicato dos Bancários.
A obra, publicada pela Editora Cousa, com apoio do Funcultura, via SECULT, é uma adaptação da tese de doutorado de Elda Alvarenga defendida na Ufes em 2018. No centro do debate estão a inserção das mulheres no magistério público e a feminização da profissão, a partir da análise histórica do período 1845 a 1920 no Espírito Santo. O livro traz como eixos de análise a expansão do acesso à escolarização, as reformas na instrução pública e a atuação da Escola Normal nesse processo.
Segundo a autora, inicialmente exercido exclusivamente por homens, o magistério abre as portas para as mulheres de forma a atender a um padrão moral da época, que não permitia aos professores do sexo masculino dar aulas para meninas. Logo, a presença das mulheres se faz necessária também em classes mistas, devido à carência de professores.
“A exigência moral da época acabou abrindo espaço para as mulheres. Os salários já eram baixos e a profissão precarizada. Com a abertura de postos de trabalho no comércio e na indústria no Espírito Santo, os homens vão migrando para esses setores”, afirma Elda Alvarenga.
A ocupação da sala de aula pelas mulheres é reforçada pelo discurso que vai sendo construído paulatinamente de que elas estão mais aptas para a profissão, relacionando o magistério com a maternidade e o cuidado com o outro.
Esse discurso tem reflexos na construção social da profissão até os dias atuais. “A grande concentração de mulheres é na educação infantil. As professoras são chamadas de tias; é como as mulheres tivessem nascido para ensinar. Já no ensino superior, a maioria é de homens”, afirma Elda, lembrando que isso traz embutidas diferenças salariais e de condições de trabalho.
Na sua avaliação, a abertura de espaço para as mulheres no magistério tem como fator positivo a inserção feminina no mercado de trabalho público. “Não era essa a intenção, mas as professoras souberam utilizar o mundo público do trabalho, aproveitaram as brechas, e hoje as mulheres ocupam o mercado em outras profissões”.
O lado negativo da forma como a inserção no magistério aconteceu é que foi incorporada a lógica da profissão relacionada à maternidade, reforçando o papel que é imposto à mulher na sociedade capitalista. “Espera-se que o amor e dedicação às crianças compensem baixos salários e as condições precários de trabalho. A professora fazer greve, portanto, é considerado socialmente um absurdo. O cuidado deve vir em primeiro lugar”, destaca a pesquisadora.
O desdobramento disso é que o magistério fica numa posição inferior no mercado de trabalho, sendo relacionado à percepção distorcida que a sociedade tem da mulher no âmbito público.
Já para os homens, a consequência, na sua avaliação, é mais dificuldade para exercer a profissão. “A sociedade acha ruim um homem na educação infantil, por exemplo. Estamos retornando ao discurso ideológico dos anos 1800. Mas nós somos profissionais!”, enfatiza.

