Conferência: aumento real de salário, PLR e metas são destaques da minuta

22/06/2026 19:00

A minuta aprovada na 28º Conferência Nacional das Bancárias e Bancários traz 133 artigos. Nesta terça (23) em assembleia a minuta será submetida a todas as bases estaduais, inclusive à do ES

No início da tarde desse domingo (21), lideranças sindicais e delegados de todo o país, reunidas na 28º Conferência Nacional das Bancárias e Bancários, aprovaram (97%) a minuta de reivindicações da categoria referente à campanha salarial deste ano. Dos 133 artigos que compõem o documento, os destaques vão para o aumento real de salário, PLR e metas. A regulamentação do sistema financeiro brasileiro é um eixo político da campanha. Esses eixos foram justamente os que geraram mais debates e discussões durante a parte final da conferência, quando são votados os destaques.

Carlos Pereira de Araújo (Carlão), coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES – entidade associada à Intersindical – Central da Classe Trabalhadora, afirmou que em função da centralidade desses temas, a discussão foi proveitosa para o debate. “Apresentamos destaques para esses pontos com o propósito de fomentar o debate”, explicou.

Sobre o reajuste salarial, o Sindicato defendeu o INPC (Índice Nacional de Preço ao Consumidor) mais 10% de aumento real. Na minuta aprovada, porém, o índice ficou em 5%. “Se vamos partir deste patamar, não podemos aceitar nada abaixo disso. É chover no molhado falar do lucro e da rentabilidade dos bancos. O reajuste de 5% não repõe as perdas da categoria. Longe disso. Por isso, 5% é o mínimo aceitável”, enfatizou Carlão.

Em relação à Participação nos Lucros e Resultados, o Sindicato dos Bancários defendeu a PLR linear. Carlão afirmou que todo trabalho bancário é coletivo, e a PLR linear seria o modelo mais justo para dividir os lucros e resultados entre os bancários e bancárias. Prevaleceu, no entanto, por maioria, a manutenção do modelo atual, que prevê que apenas 2,2% do lucro líquido dos bancos sejam pagos linearmente até um teto limite.

A delegação do Sindicato dos Bancários também defendeu o fim das metas na conferência. O dirigente Fabrício Coelho atribuiu o adoecimento epidêmico da categoria bancária às metas. Ele destacou que as metas geram um ambiente de competição entre os bancários em detrimento do trabalho coletivo, como se o bancário fosse sócio-empreendedor do banco. “A categoria está sendo dilacerada pelas metas.

Na votação, porém, a redação do texto aprovado na minuta propõe o combate às metas abusivas e não exatamente a sua extinção. “As empresas se obrigam a garantir a participação de todos os seus trabalhadores na estipulação de metas e respectivos mecanismos de aferição, estabelecendo-se que elas serão obrigatoriamente de caráter coletivo e definidas por departamentos/agências, sendo que as metas deverão considerar o trabalho efetivamente realizado e não seus resultados”, propõe o artigo.

Saúde do trabalhador e condições de trabalho
Além das pautas consignadas na minuta, Carlão destacou outros dois eixos políticos da campanha salarial: a regulamentação do sistema financeiro e a saúde do trabalhador e as condições de trabalho, que está na minuta, mas a partir de um recorte mais técnico. O dirigente afirmou que o adoecimento, especialmente o mental, é um tema central para a categoria.

Os dados levantados pela consulta nacional da categoria, afirma Carlão, confirmam a centralidade do tema saúde do trabalhador. Carlão recorda que uma das questões perguntou quais impactos a cobrança excessiva por metas causam à saúde. “67% dos bancários responderam ter uma preocupação constante com o trabalho; 59% cansaço e fadiga e 42% crises de ansiedade e pânico. Essas são algumas consequências das metas para a saúde do bancário e da bancária. Esses índices, advertiu Carlão, são ainda mais agudos nos bancos privados”.

O dirigente também chamou atenção para o fato de 40% admitirem que tomam medicamentos controlados (ansiolíticos, depressivos e estimulantes). Outro dado perturbador do levantamento aponta que mais de 72% consideram que o ambiente de trabalho do banco causa impactos negativos à saúde mental dos bancários e bancárias.

Sistema financeiro

A estatização do sistema financeiro, que não entra na minuta, foi outro ponto defendido pelo Sindicato dos Bancários. Carlão criticou o oligopólio formado pelos grandes bancos e a subserviência do Banco Central às regras protecionistas impostas pelo setor financeiro. O dirigente afirmou que a farra do lucro sem limites é uma jabuticaba produzida pelo sistema financeiro brasileiro. “Os bancos brasileiros apresentam, historicamente, uma rentabilidade significativamente maior que a dos bancos estrangeiros, liderando o retorno financeiro global há mais de 16 anos. O Brasil é o paraíso dos bancos”.

Segundo Carlão, enquanto a rentabilidade sobre o patrimônio líquido (ROE) das instituições que operam no Brasil oscila entre 15% e 21%, a média dos bancos norte-americanos e europeus dificilmente ultrapassa a faixa de 8% a 11%. Em termos de impacto macroeconômico, os bancos no Brasil extraem cerca de 1,5% de todo o PIB do país em lucro, enquanto nos Estados Unidos essa proporção é de 0,6% e, na Europa, de apenas 0,5%. “Insistimos neste ponto porque não podemos aceitar que os bancos continuem nesta ciranda financeira que enriquece um pequeno número de acionistas privilegiados em detrimento de financiar um projeto de desenvolvimento para o país capaz de reduzir as desigualdades sociais”. Carlão citou a palestra do economista José Kobori, que falou no segundo dia da Conferência. “Kobori explicou como funciona o sistema financeiro chinês, que é estatizado, e consegue de fato promover o desenvolvimento socioeconômico do país. O dado incontestável é que o governo Chinês tirou 800 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos. Isso não seria possível se o sistema financeiro fosse privado. Nosso sistema faz o contrário, aumenta a pobreza da população com endividamento a juros escorchantes”, criticou.

Carlão ponderou que a proposta aprovada não deixa de ser um avanço ao propor a regulamentação do sistema financeiro. “Este é um eixo político da campanha, que não entra na CCT, mas é uma pauta importantíssima que precisa ser amplamente discutida pela sociedade”.