No último dia 10 de dezembro, em audiência pública na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, só faltou jurar de pés juntos que o Banco do Brasil estava fora do pacote de privatizações do governo Bolosnaro. “Esse assunto está encerrado. O presidente é contra”, sublinhou Novaes, tentando pôr ponto final à polêmica.
“Os fatos estão mostrando que as juras de Novaes, reproduzindo a posição de Bolsonaro, são falaciosas. Na prática, o banco está sendo desmontado. A venda da maior gestora de investimento do país é a prova irrefutável de que o BB já está sendo privatizado”, afirmou o diretor do Sindicato dos Bancários/ES e empregado do BB, Dérik Bezerra. O dirigente sindical se refere aos últimos movimentos da direção do banco para privatizar a BB-DTVM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.), que lidera o segmento de fundos de investimentos de terceiros no país, com R$ 1,1 trilhão em ativos. A expectativa do governo é privatizar a DTVM até o final de junho deste ano.
Reconhecida por agências internacionais como uma das melhores gestoras de fundos de renda fixa, logo que o banco iniciou as sondagens com os potenciais investidores para privatizar a BB-DTVM, o interesse do mercado foi imediato. Ao todo, 51 empresas, todas estrangeiras, se apresentaram para a sociedade. Novaes já admitiu que o futuro sócio deve ficar com 50% mais uma das ações da joint venture a ser criada, ou seja, o parceiro estrangeiro passaria a dar as cartas na maior gestora de fundo de investimentos do Brasil.
“Se essa venda for concretizada, o BB perde um dos seus principais ativos. Cada pedaço do BB que é privatizado distancia o banco do seu propósito público, que é fomentar o desenvolvimento socioeconômicos do país”, criticou Dérik.
ANABB denúncia venda da BB-DTVM ao TCU
A Associação Nacional de Funcionários do Banco do Brasil (ANABB) enviou ofício ao Tribunal de Contas da União (TCU) no último dia 24 denunciando a intenção do governo de privatizar a BB-DTVM. No documento, a ANABB pede que o TCU analise a “legalidade e a legitimidade dos atos de gestão do Banco do Brasil no que diz respeito à privatização da BB-DTVM. Tais medidas, à revelia do Congresso Nacional, têm profundo impacto na vida do país”, registra o ofício.
A ANABB destaca também que a BB-DTVM é a maior gestora de fundo de investimentos do país, com participação em 22,8% do segmento. Lembra ainda que o BB alimentou o caixa da União, sem considerar o recolhimento de impostos, com R$ 33 bilhões nos últimos 12 anos. “Apenas com o lucro de 2018, mais de R$ 5 bilhões foram distribuídos para acionistas e investidores, sendo R$ 2,7 bilhões para o Tesouro”. A ANABB alerta ainda que é preciso evitar decisões que possam representar no futuro a perda de dividendos para o Tesouro Nacional.
FH tentou vender a BB-DTVM
Não é a primeira vez que a onda privatista tenta pôr a BB-DTVM na vitrine. Em 1998, o governo Fernando Henrique chegou a modelar um plano de privatização dos bancos públicos que incluía BB, Caixa e BNDES. A exemplo do atual governo, FH também pretendia adotar a estratégia do desmonte gradativo dos bancos, como Bolsonaro vem fazendo com a Caixa e Banco do Brasil.
A privatização dos bancos públicos federais acabou sendo frustrada. No caso do BB, o fundo de investimentos, um dos primeiros da lista, permaneceu sob a gestão do banco público. “As justificativas para privatizar ativos lucrativos vêm sempre envolta no discurso da ineficiência pública, o que é uma grande falácia. Sobre a tentativa de da BB-DTVM, os números desconstroem essa narrativa privatista de que a gestão pública é ineficiente, que voltou com força com Bolsonaro e Paulo Guedes [ministro da Economia]”, apontou o diretor sindical.
Dérik recorda que a BB-DTVM, em 1998, quando estava prestes a ser privatizado por FH, já era a líder no segmento com R$ 31 bilhões de ativos. “Pouco mais de 20 anos depois, a DTVM faz a gestão de ativos na ordem de R$ 1,1 trilhão. Se tivesse sido vendido lá atrás, algum banco privado estaria comemorando até hoje a compra”, diz Dérik.
(Arte capa: Thiago Akioka)








