O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, em função da idade, 74 anos, faz parte do chamado grupo de risco – pessoas mais suscetíveis ao contágio e estatisticamente à morte em decorrência da Covid-19 -, mas pelo tom das suas declarações, não parece. Ele é um dos integrantes da tropa de choque do presidente Bolsonaro, que passou a defender inadvertidamente o fim do isolamento social e a retomada imediata da atividade econômica. Na última semana, Novaes fez ao menos três ataques à quarentena, fiel à estratégia orquestrada por Bolsonaro.

Nesta terça-feira, 31, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o presidente do BB fez novas críticas ao isolamento horizontal. Segundo Novaes, “a ciência médica é tão ou mais imprecisa que a ciência econômica” e no momento a ciência econômica indica que permanecer em isolamento pode provocar efeitos piores que o da própria pandemia.

A diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Evelyn Flores, criticou a fala de Novaes. “Vivemos um cenário de insegurança e incertezas, enfrentando uma realidade que não é nova, mas que soa mais dura neste momento. Definitivamente, os banqueiros não estão preocupados com as vidas das pessoas. Basta olharmos para o resultado das negociações com a Fenaban, desde o início da pandemia. Praticamente não houve avanços dos bancos no sentido de adotarem medidas para proteger a vida dos bancários”, afirma Evelyn. Ela acrescenta que em meio a essa tragédia, o presidente de uma das maiores empresas públicas do país demonstra não se importar com a vida das pessoas. “Pior, faz questão de afrontar os empregados do banco e a população em geral, deixando claro que, para ele, o lucro está acima das vidas”, afirma Evelyn.

Afinado ao discurso de Bolsonaro, que adota a narrativa negacionista dos efeitos catastróficos da pandemia sobre as vidas humanas, Novaes tem usado politicamente o cargo para atacar governadores e prefeitos que passaram a adotar o isolamento social como a medida mais efetiva para conter a propagação do coronavírus, como preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS). Contrariado com a iniciativa dos governantes, Novaes disse que não há pacote de medidas econômicas capaz de corrigir uma “depressão provocada por decretos”. “Nada será suficiente se governadores e prefeitos insistirem em prolongar o lockdown [isolamento total]”.

“É estarrecedor que o presidente do BB normalize as mortes dos 201 brasileiros (dados do Ministério de Saúde atualizados em 31/03/2020) que já perderam suas vidas para a Covid-19 e dos milhares que, infelizmente, ainda podem fazer parte das estatísticas de óbito da pandemia no Brasil. Não podemos aceitar que Novaes priorize a economia em detrimento das vidas”, completou a dirigente sindical.

Torcida pelo contágio
Na segunda-feira, 30, Rubem Novaes afirmou que torce para que a Covid-19 contamine “o quanto antes” os 70% da população que serão atingidos pelo coronavírus para que a economia possa ser retomada mais rapidamente. Novaes saiu em defesa da “tese” do presidente Bolsonaro, que defende a quebra da quarentena e a retomada imediata da economia. Por esse pensamento, a contaminação em massa da população com menos de 60 anos garantiria a imunização precoce. Somente idosos e pessoas com quadros de doenças pré-existentes, o chamado grupo de risco, ficariam socialmente isolados. A “tese”, porém, é refutada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela maioria esmagadora da comunidade científica nacional e internacional, que indica isolamento social como a medida mais efetiva para reduzir a propagação da Covid-19 (Veja matéria do biólogo e pesquisador Átila Iamarino).

Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal carioca O Globo, que repercutiu as declarações do presidente do BB, Novaes ainda faz um apelo: “Deixe essa gente trabalhar!”.

Na última quinta-feira, 26, Rubem Novaes já havia feito outra declaração pra lá de polêmica. Mais uma vez, para demonstrar fidelidade a Bolsonaro. Ele defendeu o fim do isolamento social, preconizado pela OMS.

A mensagem do presidente do BB, que circulou em um grupo de WhatsApp, dizia que “a vida não tem valor infinito”. “Muita bobagem é feita e dita, inclusive por economistas, por julgarem que a vida tem valor infinito. O vírus tem que ser balanceado com a atividade econômica”, afirmou Novaes.