Presidente do Banco Central prefere salvar economia a vidas

16/04/2020 22:11

Em live com executivos da XP Investimentos, Roberto Campos Neto distorceu dados para tentar impor sua tese de que reduzir mortes por Covid-19 é pior para a economia

Para o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, o isolamento social aprofunda a recessão. O presidente do BC é neto de Roberto Campos. Logo após o golpe militar, em 1964, Roberto Campos foi nomeado ministro do Planejamento pelo presidente Castelo Branco. Aliás, o BC que hoje o neto comanda, foi criado por ele. Avô e neto também se alinham no pensamento ultraliberal. Campos Neto mostrou que leva a sério essa visão ultraliberal extremista na live no último dia 4 com executivos da XP Investimentos.

Campos Neto parece ter surpreendidos os próprios executivos da XP, quando levantou a tese de que quando mais cedo vierem os novos casos e as mortes por Covid-19, melhor seria para a economia. Para o presidente do BC, o mais importante é que o setor industrial continue produzindo e vendendo. Mesmo que a quebra do isolamento social provoque um colapso no sistema de saúde.

Campos Neto tentou construir sua tese interpretando, à sua maneira, dados do Centro de Pesquisas Econômicas de Genebra (abaixo), extraído do livro dos economistas Richard Baldwin e Beatrice Weder di Mauro.
Basicamente, os dados comparam as curvas de novos casos de Covid-19 num cenário com e sem isolamento, e os impactos para a recessão econômica considerando essas mesmas variáveis. De acordo com o site The Intercept Brasil, que repercutiu a live da XP, os autores defendem que a recessão causada pela quarentena é uma “medida de saúde pública necessária” e que perder vidas para preservar a economia não deve sequer ser uma opção considerada pelos líderes mundiais, ou seja, um entendimento contrário à tese de Campos Neto.

Na linha de Novaes
As declarações Campos Neto vão ao encontro das do presidente do Banco do Brasil. Rubem Novaes também tem feitos declarações públicas contra o isolamento social e retomada imediata da economia. Ele afirmou à imprensa “que torce para que a Covid-19 contamine o quanto antes” os 70% da população que serão atingidos pelo coronavírus para que a economia possa ser retomada mais rapidamente.

Novaes, como Campos Neto, está afinado ao discurso do presidente Bolsonaro, que tem defendido a quebra da quarentena para salvar a economia. Para Novaes, a contaminação em massa da população com menos de 60 anos garantiria a imunização precoce. Somente idosos e pessoas com quadros de doenças pré-existentes, o chamado grupo de risco, ficariam socialmente isolados. A tese, porém, é refutada pela OMS e pela maioria esmagadora da comunidade científica nacional e internacional, que indica isolamento social como a medida mais efetiva para reduzir a propagação da Covid-19.
(Foto capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil)