Os gerentes gerais da Caixa Econômica, pressionados a reduzirem as filas infindáveis para o pagamento do auxílio emergencial e outros benefícios sociais, literalmente, vêm sendo obrigados a madrugar nas agências, sob pena de perda de função. A orientação é que os gerentes gerais cheguem às 7h, façam a triagem da fila e permitam a ocupação de 50% dos assentos das agências com clientes.

Não bastassem tantas exigências, os empregados ainda devem tirar várias fotos durante o dia e enviá-las à Superintendência Executiva de Varejo (SEV) para mostrar que não há filas nas portas das agências. O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, de quem partem as imposições, “atropela” a legislação trabalhista ao determinar que os empregados cheguem mais cedo e atendam até o último cliente, de preferência, voluntariamente.

Coagidos ou voluntários?

As denúncias de irregularidades contra os empregados da Caixa que têm ocorrido em todo o país também estão sendo registradas no Espírito Santo. O Sindicato dos Bancários tem recebido informações de empregados que estariam sendo coagidos a trabalhar presencialmente, quando deveriam estar em home office. “A informação que nos chega é que o superior hierárquico pergunta se o empregado se inscreveu como voluntário. Constrangido com o ‘questionamento’, muitos acabam cedendo à pressão e se apresentam ‘voluntariamente’ ao trabalho presencial na semana do revezamento do home office”, explica a diretora do Sindicato Lizandre Borges.

Segundo ela, o Sindicato recebeu informação da Superintendência Regional no Espírito Santo, na última terça-feira, 05, que cerca de 60 empregados teriam se apresentado para o trabalho voluntário. “Estimamos que desses voluntários, uma boa parte, sejam gerentes. Muitos acabam se apresentando temendo perder a função”, diz a dirigente.

Lizandre adverte que o empregado, na condição de voluntário, em caso de um incidente ou mesmo um acidente pode ter dificuldade para reivindicar a cobertura da legislação trabalhista. “Geralmente ele cumpre a função de voluntário sem registrar o ponto, situação que poderia se complicar no momento de pleitear, por exemplo, uma licença por acidente de trabalho ao INSS. As horas extras devidas nessas jornadas homéricas também não são pagas. Não podemos esquecer que os empregados da Caixa, além de estarem muito mais expostos ao contágio do novo coronavírus, têm, em alguns casos, sofrido até agressões físicas na porta das agências. O usuário que está desesperado em busca do benefício não sabe que as filas são culpa da falta de planejamento e da desorganização da presidência da Caixa. Infelizmente, esse descontentamento acaba estourando no empregado que está na linha de frente”, lamenta a dirigente.

Caixa não ouve entidades

As entidades que representam os bancários da Caixa reivindicam desde o início da pandemia do novo coronavírus melhores condições de trabalho para preservar a saúde e a vida dos empregados e da população que procura o banco. A também diretora do Sindicato, Rita Lima, afirma que foram apresentadas pelas entidades diversas alternativas para aliviar as filas e aglomerações nas agências, mas que o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, não deu ouvido às propostas.

“Poderiam ter descentralizado o pagamento do auxílio emergencial, recorrendo a bancos públicos. Aqui no Espírito Santo o Banestes tem uma agência em cada um dos 78 municípios”, exemplifica Rita. Ela acrescenta que a Caixa falhou com o aplicativo; em não orientar devidamente a população através de campanhas sobre o pagamento do benefício, além de fracassar no atendimento telefônico. A dirigente critica ainda a falta de organização da Caixa por ter deixado de fazer parcerias com os Centros de Referência em Assistência Social (Crass) e com as prefeituras, que poderiam auxiliar no cadastro e orientação aos usuários com dificuldade de acesso aos recursos tecnológicos.

“A verdade é essa: nada funcionou direito. Faltaram planejamento e organização; sobraram prepotência e incompetência por parte da presidência da Caixa”, assevera Rita, que completa: “O resultado é esta necropolítica do governo Bolsonaro que rifa vidas humanas que padecem nas filas em busca de um socorro financeiro. As aglomerações nas agências da Caixa são um total desrespeito deste governo com os trabalhadores que estão pagando o benefício e com os que necessitam receber, porque eles também são trabalhadores e merecem ser tratados com dignidade. O benefício não é favor do governo. É direito do trabalhador”, desabafa Rita.