Os bancos brasileiros não sabem o que é um resultado ruim há muito tempo: ou eles têm lucros extraordinários ou no mínimo muito bons; 2019 foi um desses anos em que os bancos quebraram recordes de lucro. O Banco do Brasil foi um deles, registrou lucro de R$ 18,16 bilhões no ano passado – crescimento de 41,2% em relação a 2018. Bastou, porém, sair o resultado do 1º trimestre de 2020 para os bancos começarem a se queixar dos impactos da pandemia do novo coronavírus sobre seus resultados. “A narrativa é oportuna para os bancos justificarem as políticas intransigentes que têm sido adotadas contra os empregados”, critica Evelyn Flores, diretora do Sindicato dos Bancários/ES. No caso do BB, ela aponta as férias compulsórias e o banco de horas negativo como medidas despropositadas impostas pelo banco.
O noticiário da imprensa chamou a atenção para queda de 20% no lucro do BB no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2019. Evelyn afirma que é preciso jogar luz sobre os números para mostrar que não houve queda, como vem sendo repercutido pela imprensa. “Depende muito por qual ângulo você avalia os dados”. A dirigente explica que nos últimos três primeiros trimestres (2017, 2018 e 2019) o lucro médio do BB foi de R$ 3,080 bilhões. “Portanto, os R$ 3,395 bilhões apurados no 1º trimestre de 2020 representam não uma queda, mas um aumento de 10% em relação à média. Onde houve queda?”, questiona Evelyn.
Goretti Barone, também diretora do Sindicato completa: “A pandemia tem provocado perdas de empregos formais e paralisado fortemente a atividade informal, além de ter gerado prejuízos às micro, pequenas e médias empresas, inclusive com fechamento de muitas delas, mas os bancos vão bem obrigado. O Banco do Brasil não pode se queixar de um lucro bilionário de R$ 3,395 bilhões em um único trimestre”, pondera.
Outros resultados positivos
Além do lucro acima da média dos últimos três primeiros trimestre, outros números indicam resultados positivos em 2020. As receitas obtidas com tarifas bancárias aumentaram 4 % no ano, chegando a R$ 7 bilhões no trimestre encerrado em março.
O BB fechou o primeiro trimestre com R$ 725,1 bilhões em sua carteira de crédito ampliada (empréstimos, financiamentos, títulos, avais e garantias) – um crescimento de 6,5% no comparativo a dezembro e de 5,8% ante a março do ano passado.
O Banco do Brasil também apurou bons resultados em relação à carteira de pessoas físicas, aumento de 8,6% em um ano, para R$ 217,2 bilhões. Em relação a dezembro, o portfólio cresceu 1,5%. Outros produtos como consignado, crédito pessoal e renegociações foram as linhas de maior destaque.
As operações com pessoas jurídicas registraram R$ 221,9 bilhões no fim de março, alta de 12,4% no comparativo com dezembro e de 5,9% num intervalo de 12 meses. A maior alta foi com a carteira de grandes empresas, que cresceu 16,6% em relação a dezembro, para R$ 103 bilhões.
Evelyn Flores chama atenção para os indicadores positivos. Ela cita ainda a expansão da base de clientes de varejo e a maior oferta de canais digitais do banco, que ajudaram a impulsionar em 3,7% as rendas de conta corrente, para R$ 1,9 bilhão. “Esse e outros indicativos mostram que os empregados continuam sofrendo pressão para cumprir metas e trazer resultados para o banco. Apesar dos números positivos, o BB insiste em tomar as medidas contra os empregados. Não havia justificativa para mexer nas férias dos empregados, que é um direito consagrado”, critica Evelyn.
Férias compulsórias
De maneira unilateral e autoritária, desde o dia 13 de abril, o Banco do Brasil passou a colocar compulsoriamente em férias empregados e empregadas do banco. O BB recorreu à MP 927 do presidente Bolsonaro para passar a arbitrar sobre um direito historicamente inalienável do trabalhador.
A medida do BB é interpretada pelo Sindicato dos Bancários/ES como uma truculência contra o bancário, que já vem enfrentando enorme estresse por desempenhar uma atividade profissional que o deixa todos os dias vulnerável à pandemia do novo coronavírus.
As férias compulsórias estão atingindo principalmente os empregados que se autodeclararam do grupo de risco da covid-19 – ou por terem alguma comorbidade ou por coabitarem com pessoas desse grupo -, independentemente de estarem ou não em trabalho remoto (home office). Mas a medida também não tem poupado os que estão trabalhando presencialmente.








