Quatro dias após a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretar pandemia do novo coronavírus, manifestantes de direita ocuparam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para apoiar o governo Bolsonaro. As manifestações daquele domingo, 15, replicadas em outras capitais do país, pediam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), intervenção militar e a reedição do AI-5. Àquela altura, a ameaça à democracia era iminente. De outro lado, a população brasileira sabia muito pouco sobre a pandemia, negada por Bolsonaro e seus aliados. A primeira morte por covid-19 só seria anunciada 48 horas depois do ato pró-Bolsonaro.
Dois meses e meio depois do primeiro ato em meio à pandemia, as faixas e cartazes dos bolsonaristas expressam basicamente os mesmos pedidos, já os números da doença mudaram bastante. São mais de meio milhão de casos de covid e os óbitos já beiram 29 mil. Assim como a curva da covid-19, a temperatura das manifestações antidemocráticas também não parou de subir de março para cá. Cada vez mais radicais, os grupos extremistas pró-Bolsonaro têm incorporado nos atos presenciais e virtuais símbolos reconhecidamente neonazistas e fascistas.
Para o diretor do Sindicato e membro do Comando Nacional Carlos Pereira de Araújo (Carlão), os apoiadores de Bolsonaro estão passando de todos os limites. “Entre os aliados de Bolsonaro, há grupos extremistas inspirados em movimentos neonazistas e fascistas. Isso nada tem a ver com liberdade de expressão, como tentam justificar o presidente e seus aliados. Estamos falando de grupos criminosos, que atacam a democracia em afronta à Constituição federal. As pessoas que estão por trás dessa fábrica de fake news e financiando esses protestos antidemocráticos precisam ser penalmente responsabilizadas.”, enfatiza Carlão.
“300”
Nesse sábado, 30, o protesto dos “300”, em frente ao Supremo, repercutiu na imprensa e nas mídias sociais não pelo número de participantes, que não passava de 30, mas pelo simbolismo do ato, que teria sido inspirado na Ku Klux Kan (KKK) – organização fundada no final do século XIX nos Estados Unidos como subproduto da Guerra Civil Americana (1861-1865) para perseguir e assassinar negros recém-libertos.
Tendo à frente a extremista Sara Fernanda Giromini, conhecida como Sara Winter, alvo do STF no inquérito que investiga as fake news, os manifestantes que participavam do protesto dos “300” usavam máscaras (não para se prevenir do coronavírus) e carregavam tochas, espelhando os atos dos supremacistas brancos da KKK.
No domingo, 31, houve uma nova manifestação antidemocracia em frente ao Palácio da Alvorada, com direito a sobrevoo de helicóptero e montaria em cavalo da PM de Brasília. O presidente, após descer do helicóptero, literalmente se jogou nos braços dos populares, contrariando as normas de distanciamento e de uso de máscara, que é obrigatório em Brasília.
Sempre com a presença de Bolsonaro, domingo virou dia oficial de atos em apoio ao presidente e contra a democracia. À medida que o embate do presidente com as instituições se acirra, os apoiadores de Bolsonaro têm se comportado de forma mais agressiva, ameaçando abertamente membros do Congresso e Supremo.
Mas se os atos dominicais pareciam campo absoluto dos apoiadores do presidente, o de ontem (31) quebrou a escrita. Bolsonaristas se surpreenderam com a presença de manifestantes antifascistas nas ruas, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na capital paulista, o ato puxado pelas torcidas organizadas dos quatro principais times de futebol (Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras) transcorriam pacificamente, até que provocações do lado bolsonarista deflagraram um conflito que motivou a intervenção da Polícia Militar. A PM paulista, mostrando que tem lado nos protestos, poupou os apoiadores de Bolsonaro e recorreu à violência para reprimir os manifestantes antifascistas.
No Rio também houve enfrentamento entre os grupos contra e pró-governo. Também organizados pelas torcidas dos clubes cariocas, os atos antifascistas foram reprimidos. A PM se mostrou partidária dos manifestantes bolsonaristas e tratou com violência os defensores da democracia.
“Esse movimento deflagrado pelas torcidas organizadas contra o fascismo é muito importante neste momento em que a democracia está sob ameaça. Esse movimento tende a crescer e nós estaremos juntos, porque essa pauta em defesa da democracia e contra o fascismo também é nossa.”, afirma Carlão.
Símbolos subliminares
Os ataques à democracia também estão na mira do Supremo. As investigações querem confirmar se os casos das fake news e as manifestações antidemocráticas estão relacionados. Empresários, políticos, youtubers e apoiadores de Bolsonaro estão sob investigação por suspeita de estarem financiando as milícias virtuais e os protestos de rua contra a democracia.
O dirigente sindical também destaca que algumas mensagens subliminares em apologia ao nazismo e fascismo têm partido do próprio presidente e dos seus aliados. Além do ato dos “300”, Carlão mencionou a live da última quinta-feira, 28, em que Bolsonaro e o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, tomam um copo de leite ao final do vídeo. “Os ataques à democracia e às instituições por parte do presidente, dos seus filhos e aliados têm sido recorrentes. É inevitável associar a mensagem do copo de leite aos supremacistas brancos norte-americanos [Alt Right]. Bolsonaro pode até tentar argumentar que tomar leite faz parte do desafio lançado pelo Ministério da Agricultura para estimular o consumo de leite. Mas o contexto não ajuda a justificar essa narrativa. Há um ataque franco à democracia no país que parte do presidente e de seus apoiadores. Isso é fato. Sem contar que um ato simbólico como esse na mesma semana em que um homem negro foi brutalmente assassinado por um policial branco dá margem para essa interpretação. Bolsonaro flerta com o fascismo”, sublinha.
Carlão acrescentou ainda que Bolsonaro e seus aliados estão tentando resgatar o legado de figuras execráveis como Hitler e Mussolini. “Pensávamos que essa passagem trágica da história já havia sido superada pela humanidade. Bolsonaro surge como porta-voz do fascismo, mas a grande maioria do povo brasileiro repudia esse retrocesso. Vamos tomar todos os cuidados com a pandemia, usar máscaras, manter o distanciamento, mas temos que fortalecer o movimento em defesa da democracia puxado pelas torcidas organizadas. Essa luta também é nossa. Não podemos deixar eclodir o ovo da serpente fascista”, adverte Carlão.
“Vidas negras importam”
Os protestos que ocorrem há mais de uma semana nos Estados Unidos contra a morte de George Floyd, assassinado por um policial branco, em Minneapolis, causam reflexos no Brasil. Nesse domingo também houve um ato antirracista no Rio, em frente ao Palácio da Guanabara, sede do governo. Os manifestantes pediam um basta à violência da PM fluminense, que já matou 606 pessoas de janeiro a abril deste ano. Os números do Instituto de Segurança Pública apontam que mesmo com as medidas de isolamento social, as mortes provocadas por agentes de segurança do Estado aumentaram nos últimos meses. Só em abril foram registradas 177 mortes contra 124 do mesmo mês de 2019, um aumento de 42,7%.
Com cartazes “Vidas negras importam”, os manifestantes lembraram os casos de negros mortos pela polícia do Rio, como o último que tirou a vida do adolescente João Pedro. Eles pediam o fim das operações policiais violentas nas comunidades cariocas. A organização do ato orientou os participantes a usarem máscaras e a manterem o distanciamento social. Apesar de organizado e pacífico, o protesto também foi reprimido violentamente pela polícia, que dispersou os manifestantes, na base da força, dos arredores do Palácio da Guanabara.












