Respeitando à risca as regras de distanciamento social, uso de máscaras e número controlado de manifestantes, representantes de sindicatos, centrais sindicais, partidos políticos e movimentos sociais ocuparam as escadarias do Palácio Anchieta na manhã desta terça-feira, 09, em protesto à decisão do Governo do Estado de afrouxar as medidas de isolamento social no momento em que a curva do novo coronavírus se mostra em plena ascensão. As organizações integram o Fórum em Defesa dos Direitos dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Capixabas, articulado com a finalidade de lutar pelos direitos sociais durante a pandemia.
Dados atualizados até essa segunda-feira, 08, apontam que o Espírito Santo registrou 871 mortes por covid-19 e 20.659 casos. No Brasil, as mortes já passam de 37 mil e o número de casos supera 700 mil.
As faixas e cartazes dos manifestantes criticavam a política genocida do presidente Bolsonaro e apontavam simetria com a gestão da crise de saúde do governador do Espírito Santo. “Casagrande, assim como Bolsonaro, de maneira covarde, fez a opção de salvar as grandes empresas e deixar as vidas dos capixabas à deriva. Seguindo o exemplo do presidente, ele também fez a opção pelas elites empresariais e ignorou as micros e pequenas empresas, que ficaram abandonadas à própria sorte. Nosso pleito é que o governador priorize as vidas e não a economia”, enfatizou Carlos Pereira de Araújo (Carlão), representante do Sindicato dos Bancários/ES.
Exibindo um cartaz que chamava a atenção para as mortes de negros por covid no ES, que representam mais da metade dos óbitos, Moacir Alves (foto ao lado), do Círculo Palmarino, afirmou que o Governo do Estado em vez de cuidar das vidas dos mais vulneráveis no enfrentamento da pandemia, adota uma política seletiva que favorece as elites e oprime os mais pobres. “Essa política faz a opção por matar os negros. Vamos continuar denunciando o racismo estrutural no Espírito Santo e no Brasil”, destacou Moacir.
Para André Ferreira, do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), o ato foi importante para marcar o repúdio dos movimentos sociais à reabertura prematura do comércio. “O governador decidiu afrouxar o isolamento e pôr as vidas em risco. Essa decisão é contraditória. Ele liberou a abertura de shoppings, academias e do comércio em geral e agora quer jogar a responsabilidade pelo aumento dos casos e mortes nas costas da população. Não é justo”. André destacou ainda a preocupação com o colapso do sistema de saúde, que começa a ficar crítico com a falta de vagas, sobretudo de UTI. “Os casos estão aumentando todos os dias e o comércio voltando a funcionar normalmente. Não faz sentido”, condenou.
“É melhor perder um ano letivo do que mais vidas. É necessário o lockdown”, analisou Carolina Francisco (foto ao lado), do Coletivo Resistência e Luta da Educação, descartando a retomada das aulas presenciais na rede pública de ensino. Ela criticou as políticas de educação do Governo do Estado para a Educação durante a pandemia. “O governo já sinalizou que vai manter a Educação a Distância (EAD) mesmo depois da pandemia. Não estão considerando que ao menos 30% da população não têm acesso à internet, a equipamentos ou mesmo a condições adequadas de moradia para estudar na modalidade EAD”. Carolina sublinhou ainda os altos números de casos de covid e mortes no Brasil e no Espírito Santo. “A decisão de reabrir o comércio é equivocada. No início da pandemia achávamos que o governador manteria o isolamento, mas logo depois vimos que não. Casagrande sucumbiu à pressão dos empresários e decidiu abrir tudo. Os resultados dessa escolha estão sendo catastróficos para a população capixaba”, lamentou.
No ato suprapartidário, representantes do Psol e PCB também marcaram presença. Toni Cabano lembrou que o Psol apresentou, no início da pandemia, um plano ao Governo do Estado para o enfrentamento da covid, mas o governador, segundo ele, não se interessou em discutir as propostas do partido. Cabano destacou a importância do fortalecimento do SUS. “Um dos pontos da nossa proposta defende que os leitos de UTI e enfermaria, do sistema público e privado, sejam centralizados no Estado. A fila única garantiria a igualdade no atendimento a todos e a todas, independentemente de classe social ou raça. Sem a centralização da gestão das vagas na mão do Estado, sabemos que as mortes por covid são seletivas: os menos favorecidos são os que mais morrem. É fato”, criticou o representante do Psol.
“O momento é de dor, de solidariedade a essas mais de 800 famílias que perderam seus entes queridos para a covid. Mas o momento também é de indignação à decisão do governo de ter escolhido reabrir o comércio em vez de salvar vidas. Tudo para manter o lucro dos empresários à custa de mortes. Esse conta tem de ser cobrada de Casagrande e Bolsonaro. O governador está tentando transferir a responsabilidade pelas mortes à população. Não tem como não se indignar”, protestou Vander Meireles, que estava no ato representando o PCB.
Na avaliação do representante do Coletivo Negro Minervino Oliveira, João Vitor, o povo negro está sendo a principal vítima da doença. “A covid trouxe à tona a desigualdade racial. Sabemos que os negros correm mais risco de ficar sem atendimento no sistema de saúde entrando em colapso. Estamos vendo a doença avançar velozmente pela periferia. A escolha de Casagrande de relaxar o isolamento social terá um preço alto, que será pago com as vidas do povo negro”, afirmou.
Representando o Fórum de Mulheres do Espírito Santo (Fomes), Evelyn Flores, compartilhou sua preocupação com o aumento de casos de violência doméstica contra as mulheres durante a pandemia. Ela também destacou o crescente número de vítimas da covid no país e no Estado e também criticou a opção de Bolsonaro e Casagrande por abandonarem as vidas para salvar a economia. “Essa é uma política genocida. Essa matança tem nome, cor e endereço”, afirmou Evelyn se referindo aos mais vulneráveis, principais vítimas da covid-19.
Após o ato, os organizadores do protesto protocolaram no Palácio da Fonte Grande, sede administrativa do Governo do Estado, um manifesto em repúdio ao afrouxamento das medidas de isolamento anexado a um conjunto de reivindicações que, entre outros pleitos, pede a quarentena total (lockdown) nos municípios da Grande Vitória e do interior do Estado com alta incidência do coronavírus.










