Bancários e Bancárias do Banco do Brasil se reuniram nesta quinta-feira, 02, em Congresso Estadual realizado pela primeira vez de forma virtual em função da pandemia. O evento é preparatório para a Campanha Nacional dos bancários e para as negociações específicas com o Banco do Brasil.
Entre os eixos de reivindicação prioritários neste ano, os bancários do BB aprovaram a defesa da Cassi e do modelo solidário; defesa e sustentabilidade da Previ; medidas de proteção ao coronavírus com protocolos mais seguros; suspensão das metas até o fim do estado de calamidade pública; fim do assédio moral e do GDP e da defesa do Banco do Brasil e das empresas públicas. Também foram definidos eixos políticos que cobram o Fora Bolsonaro e Mourão e a defesa da saúde pública e das liberdades democráticas. O Congresso discutiu ainda um conjunto de reivindicações relacionadas às condições de trabalho durante pandemia, que serão definidas em plenária a ser convocada pelo Sindicato.
A diretora Goretti Barone, que apresentou a tese política que será levada pelos bancários capixabas às instâncias deliberativas do funcionalismo do BB, falou sobre o contexto em que se dará a Campanha deste ano.
“Vivemos uma crise econômica e política agravada pela crise sanitária. É um momento de ameaças ao emprego, aos direitos trabalhistas e à democracia, com um governo de viés fascista apoiado pelas milícias e com uma base de apoio autoritária. Esse cenário nos impõe desafios novos a cada dia, e precisamos unificar as forças democráticas e populares no sentido de construir nossa resistência. Nossa última Campanha Nacional privilegiou a negociação em detrimento da luta, e é uma prática que precisamos romper para arrancar vitórias neste ano. Vamos para a mesa unificada, mas precisamos estar mobilizados para defender a vida acima do lucro e os nossos direitos”, destacou Goretti.
A definição da pauta da categoria foi precedida de dois debates centrais para os trabalhadores do BB: “O modelo Home office e seus impactos na organização do trabalho”, que teve a colaboração da técnica do Dieese Bárbara Vallejos, e “O Banco do Brasil e seu papel como banco público”, com a convidada Cristiana Garbinatto, representante da Federação dos Bancários do Rio Grande do Sul.
Home office
Na sua exposição, Vallejos destacou a importância adquirida pelo teletrabalho em tempos de pandemia e como isso afeta os trabalhadores. Segundo ela, em função dos riscos colocados pela crise de saúde, o home office acaba sendo objeto de desejo de muitos empregados, mas é preciso reconhecer os seus limites e impactos para os trabalhadores, sobretudo a médio e longo prazo.
“O home office Já aparecia na reforma Trabalhista, em que muitos setores empresariais foram ouvidos, mas a pandemia fez com que ele fosse implementado de forma muito mais rápida e intensa do que o previsto. Neste momento inicial existe certa euforia com o teletrabalho, mas a deterioração é lenta, por isso a avaliação das condições de trabalho precisa ser constante. Há uma pretensa flexibilidade sobre a jornada, mas à medida que as pressões aumentam, o desgaste é maior e aparecem sintomas de adoecimento que muitas vezes não são reconhecidos como decorrentes do trabalho. Além disso, é um modelo que penaliza o trabalhador pela saúde e segurança no trabalho”.
A pesquisadora aponta que o trabalho remoto é apresentado pelo banco como um prêmio para o empregado, considerando a redução do tempo de deslocamento, a possibilidade de se alimentar melhor e uma maior autonomia. No entanto, na prática, o que acontece é a concentração de várias demandas num único empregado, além de uma transferência de custos para o trabalhador. “Há uma dificuldade de controlar a jornada, as pessoas usam equipamentos próprios, muitas vezes inadequados, e o trabalhador ainda precisa conciliar a atividade de trabalho com outras tarefas domésticas. Também há um aumento nas contas de energia, internet, água, que são todas custeadas pelo empregado”.
Segundo Vallejos, o trabalho remoto pode levar à redução dos postos de gestão, o que também contribui para a sobrecarga. “É muito conveniente mandar as pessoas pra casa sem precisar que alguém esteja ajudando a coordenar aquele trabalho. Você abre espaço para redução de postos de gestão e sobrecarrega o trabalhador, que precisa ter controle completo sobre todo o seu processo de trabalho”, explica.
A quebra do convívio social no ambiente de trabalho também pode trazer impactos. “Durante muito tempo as doenças ocupacionais que mais acometiam a categoria eram as Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT), mas após a reestruturação produtiva, cresceram os casos de doenças psicológicas, chamadas de “doenças da solidão”, que estão ligadas ao isolamento. No ambiente bancário, muitos empregados passam por situações que não podem ser compartilhadas com os colegas em função da competitividade imposta. Mas no trabalho presencial você ainda vê as pessoas, conhece, compartilha o café, conversa. O teletrabalho aumenta esse sentimento de isolamento e de penalização no trabalho. Se você está em casa, é mais difícil identificar esses sintomas e compreendê-los”.
Vallejos acrescenta ainda um outro risco ligado ao teletrabalho no Banco do Brasil, que é perspectiva de privatização do banco pelo atual governo. “Ninguém quer ter um banco com uma estrutura muito grande. Nesse sentido, a tendência de ampliar o home office aponta para um enxugamento do banco para que ele fique mais interessante aos investidores privados. E o que o banco pretende é justamente manter em patamares elevados os trabalhadores em home office no pós-pandemia. Por isso esse será um tema prioritário para a Campanha Nacional, para garantir que os trabalhadores não tenham um retrocesso na qualidade de vida que eles têm hoje”.
A importância do BB público
O debate sobre os riscos de privatização do Banco do Brasil e sua importância pública foram complementados pela bancária Cristiana Garbinatto, representante da Federação dos Bancários do Rio Grande do Sul.
Segundo ela, o processo de privatização do BB já foi colocado em curso com a redução da participação pública do banco e a venda de ativos, mas a sinalização do governo é de privatização completa do Banco do Brasil, medida que precisa contar com ampla resistência da categoria.
“Infelizmente a participação do governo do capital social do banco vem diminuindo. Temos pouco mais de 50% das ações nas mãos do governo, e muitas partes lucrativas estão ameaçadas, como a BB Seguridade e a BB Cartões. Temos resistido para que o BB não seja entregue e esse será um desafio central nesse período”.
A política de gestão do Banco do Brasil também foi criticada por Cristiana, especialmente durante a pandemia. “Ter um banco atuando com base no interesse público é essencial para toda a população, e a pandemia deixou isso mais evidente, tendo a Caixa como protagonista do pagamento dos auxílios emergenciais. Só agora o Banco do Brasil liberou linhas de crédito especiais para pequenas e médias empresas, que são responsáveis por cerca de 50% dos empregos no país. Quantos foram prejudicados pela ausência desse crédito nesse período de crise? A pandemia trouxe o reconhecimento de que precisamos de empresas públicas e precisamos que elas funcionem, que cumpram seu papel para o desenvolvimento socioeconômico”, salientou.
Segundo a dirigente, os empregados são a principal frente de resistência contra a privatização do BB. “Nós temos um filé que todo mundo quer. Nossa luta nessa Campanha Salarial será inglória pela defesa do banco público e da vida, e quem pode fazer essa resistência somos nós, mostrando o valor do Banco do Brasil para a sociedade”.
A importância social do BB pôde ser confirmada por dados apresentados pelo Dieese durante o Congresso.
Entre os anos 2000 e 2019, o BB rendeu R$ 55 Bilhões em dividendos para o governo, como acionista majoritário. Em comparação com os dividendos gerados por todas as demais empresas públicas do país no mesmo período, que somam R$ 366,7 bilhões, o BB representa sozinho 15% do arrecadado.
Além do Banco do Brasil ser uma empresa sólida do ponto do ponto de vista econômico, os dados também mostram sua participação para a democratização do crédito e financiamento de áreas produtivas. O BB é responsável por 19,7% das operações de crédito nacionais e 66,8% de todo o financiamento rural do país. No Espírito Santo, 91,4% do financiamento rural é feito pelo Banco do Brasil. Em relação às operações de crédito totais no Estado, 30,4% é de responsabilidade do BB.
Delegados ao Congresso Nacional dos Funcionários do BB
Durante o Congresso Estadual, foram eleitos os delegados e as delegadas que representarão os bancários capixabas no Congresso Nacional dos Funcionários do BB, que será realizado nos dias 10 e 12 de julho, por videoconferência. São eles: Dérik Bezerra, Evelyn Flores, Goretti Barone e Igor Chagas. Como suplentes, foram indicados Glória Dias e Thiago Duda.
Moção de repúdio
O Congresso também repudiou a política de cobrança de metas do BB, que tem desconsiderado “as restrições de locomoção de clientes e funcionários, a diminuição da força de trabalho nas agências, a necessidade de atendimento de outros tipos de demandas prioritárias dos clientes, a falta de estrutura ergonômica, física e tecnológica dos funcionários em home office, dentre outros”. Leia na íntegra a moção aprovada.









