Com o início da pandemia da covid-19, em março deste ano, milhares de mulheres viram suas vidas virarem de cabeça para baixo. Muitas com emprego formal e que conseguiram manter o vínculo empregatício foram empurradas para o home office. Agora, tentam equilibrar a vida profissional com a nova rotina doméstica. Tentam. Essa é a realidade de milhares de bancárias, de bancos públicos e privados.
Se antes o trajeto até o banco separava muito bem a vida profissional da pessoal, agora tudo está no mesmo ambiente. A mesa de jantar virou a bancada de trabalho. Tarefas como cozinhar, lavar roupa, limpar a casa e cuidar dos filhos se misturam às do trabalho, como relatórios e metas a cumprir.
Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lindalva Firme, “o aumento da sobrecarga de trabalho sentido pelas mulheres na crise sanitária guarda relação com a forma como o home office entrou na vida dessas trabalhadoras, mas também é reflexo da cultura machista que vivemos, que naturaliza como responsabilidade feminina, por exemplo, o trabalho doméstico e de cuidado”.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicam, em média, 8,1 horas semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas. São cerca de 18,5 horas semanais que elas dedicam aos serviços domésticos, contra 10,4 horas dedicadas por eles. Com a pandemia da covid-19, essa carga horária ficou ainda maior. Sem o aparato escolar e apoio nulo ou restrito dos familiares devido ao isolamento social, os afazeres domésticos e cuidados com os filhos tornarem-se ainda mais pesados para as mulheres.
“Estou sem a pessoa que me ajuda e tenho que cuidar de todas as tarefas da casa, além de ter que fazer as atividades escolares com a minha filha”, conta a bancária do Banco do Brasil, Lúcia*. Mãe do pequeno Heitor, de dois anos, a empregada da Caixa Martha Teodoro vive uma situação semelhante. Após ter contraído a covid-19, Martha passou a trabalhar remotamente em casa.
“Na nossa sociedade o machismo é tão impregnado que tudo que diz respeito à mulher é romantizado, e o home office também é. Eles acreditam que temos a capacidade de dar conta de tudo. Esquecem que a mulher que trabalha tem também essas e outras tarefas domésticas. Não estamos livres de outras tarefas por estar de home office. A gente já é dona de casa antes de ser trabalhadora”.
Vida profissional x vida pessoal
A ideia de vida mansa “vendida” pelos defensores do home office, como empresários e banqueiros, cai por terra na pandemia. Conciliar a vida pessoal com a profissional no mesmo ambiente exige muito malabarismo das trabalhadoras.
“No home office, trazemos para dentro de casa uma responsabilidade difícil de administrar. No caso do serviço bancário, tratamos de processo delicados, nos quais não podemos errar, que demandam atenção total. Levamos essa responsabilidade para dentro de casa. Temos esse peso, de ter que dar conta de mais uma tarefa no ambiente familiar. Não é nada romântico”, complementa.
Lúcia* também passa por esse desafio. “Uso meu computador, minha internet, meu telefone, todas as despesas são minhas. As mensagens no whatsapp não param, do início ao fim do dia. Eles mandam orientações para as tarefas fora do meu horário de trabalho. Isso já te coloca uma carga de trabalho e cria expectativa antes mesmo de começar o expediente. Quando começo a trabalhar, já estou com aquilo tudo na cabeça há tempos. Não são raras às vezes também que fico sem almoçar”, conta.
Bancária há dez anos, Soraya** fala sobre a dificuldade de separar lazer e trabalho. “Estar em home office, com a rotina de casa, com as cobranças que continuam é um verdadeiro dilema. Tivemos um período em que as cobranças diminuíram, mas agora as cobranças voltaram, com outros nomes. Ocupo um cargo de gestão, e tenho mais responsabilidade. É difícil dissociar o trabalho do lazer, e isso é potencializado com a imperativa necessidade de isolamento social. Precisamos estar empenhados em debater e pensar sobre isso”, defende Soraya.
Adoecimento e perda de direitos
A reforma trabalhista abriu brechas para a implantação de outras modalidades de trabalho, dentre elas o teletrabalho. No entanto, essa nova forma de trabalhar vem acompanhada de perda de direitos, sobrecarga de trabalho, ausência de condições ideias de trabalho e maior possibilidade de adoecimento físico e mental.
“O home office é uma preocupação do movimento sindical anterior à pandemia, por todo retrocesso na garantia de direitos que ele representa. Os bancos já sinalizavam a implantação desse modelo e com pandemia isso acabou se concretizando de maneira muito rápida, por uma questão de prevenção ao novo coronavírus. Os trabalhadores, no entanto, se viram jogados dentro dessa nova forma de trabalho sem muita regulamentação legal, sem capacitação para trabalhar nessa modalidade, sem os equipamentos necessários e arcando com todas as despesas. O trabalho, então, invadiu o ambiente privado de uma forma muito agressiva”, destaca a diretora do Sindibancários/ES Lizandre Borges.
Pincipalmente para as mulheres, o trabalho remoto pode ser causa de adoecimento físico e psicológico. “A mulher chega em casa, no ambiente dela, tendo que se dividir entre as tarefas domésticas e as obrigações do trabalho. A estrutura da casa não permite que se separe efetivamente ambiente de trabalho e ambiente doméstico. Muitas também se sentem culpadas por um lado porque não conseguem produzir e, por outro, por não conseguirem dar atenção necessária aos filhos. Isso tudo vira a rotina da casa de cabeça para baixo, causa um impacto na vida dessas mulheres e pode levar ao adoecimento mental”, complementa Lizandre.
A bancária Martha sentiu a pressão dessa nova realidade. “Em casa não temos hora para começar e terminar de trabalhar. O telefone toca no final de semana. Por conta disso, não sei quantas horas trabalho por semana. No início não foi nada romântico, por vários dias tive crise de choro, foi bem angustiante. Ainda bem que temos uma agência unida, temos buscado ajuda médica, tento fazer exercício físico. E o Sindicato me deu muito apoio”, relata.
Cuide-se!
O home office é um dos principais pontos de debate da Campanha Nacional dos Bancários deste ano. O movimento sindical defende que sua implantação seja restrita à pandemia. Mas, enquanto ainda é necessário trabalhar remotamente, todos os trabalhadores, em especial as mulheres, devem se cuidar. Ser rigoroso no cumprimento da jornada de trabalho, fazer os intervalos para descanso e alimentação são alguns dos cuidados necessários.
“É importante procurar reproduzir a rotina que tinha antes no ambiente bancário. Não podemos nos esquecer também que nós temos um acordo coletivo que garante nossa jornada de seis horas e proíbe que o gestor envie mensagens para o telefone particular fora do horário do expediente. Não podemos perder também a consciência de que somos um coletivo de trabalhadores e as medidas abusivas como cobrança de metas e burla da jornada de trabalho devem ser denunciadas ao Sindicato. E ao menor sinal de adoecimento, físico ou mental, é preciso parar e procurar ajuda médica”, orienta Lizandre.
A Secretaria de Saúde do Sindibancários/ES atende por meio dos telefones (27) 9 9961-4185 ou 3331-9980.
* e ** Nomes fictícios


