Mesmo em meio à maior crise sanitária mundial dos últimos 100 anos, os bancos brasileiros vão muito bem, obrigado! O Bradesco apurou no 2º trimestre deste ano lucro líquido de R$ 3,506 bilhões. O Santander fechou o mesmo período com lucro de R$ 2.025,6. Resultados para acionista nenhum botar defeito. Ambos os bancos, entretanto, com o intuito de se colocarem como vítimas da pandemia, fizeram questão de sublinhar que os lucros representam perdas se comparados aos resultados de 2019.
O diretor da Fetraf RJ|ES e representante do Espírito Santo na Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Santander, Cláudio Merçon (Cacau), afirma que o resultado do banco espanhol é excelente. Mas o dirigente diz que o Santander vai querer destacar que o resultado é 40% menor se comparado ao mesmo período de 2019, transmitindo a falsa ideia de que o banco teve prejuízo. “Banco pode até lucrar menos, mas prejuízo, não”.
De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o Santander obteve um Lucro Líquido Gerencial de R$ 5,989 bilhões no 1º semestre, com queda de 15,9% em relação ao mesmo período de 2018, e de 44,6% em relação ao trimestre imediatamente anterior. O banco também divulgou o lucro líquido excluindo o efeito da provisão extraordinária que seria de R$ 7,749 milhões e, nesse caso, a alta seria de 8,8% em doze meses e 1,1% no trimestre.
Prevendo possíveis perdas com a inadimplência gerada pela crise no novo coronavírus, afirma Cacau, o banco reforçou a provisão para devedores duvidosos (PDD), o que representou um aumentou de 111% em relação ao mesmo período de 2019. “A análise do Dieese aponta que o lucro do Santander Brasil respondeu por 32% do lucro global do banco espanhol, mas é justamente no Brasil que estão demitindo. Com resultados tão expressivos, o banco não pode falar em perdas, prejuízo e tampouco demissões”, contesta Cacau.
Bradesco
O Bradesco registrou lucro líquido no 2º trimestre superior ao do Santander: R$ 3,506 bilhões. A exemplo do Santander, o Bradesco também mais do que dobrou as despesas com provisões prevendo perdas com inadimplência (PDD) em operações de crédito, que chegaram a R$ 8,890 bilhões, alta de 147% em relação ao segundo trimestre de 2019 (R$ 3,487 bilhões).
O diretor do Sindicato dos Bancários/ES, Fabrício Coelho, afirma que a legislação brasileira sempre foi muita permissiva com os bancos. “Com esses provisionamentos, os bancos reduzem o lucro líquido, mas continuam ganhando do mesmo jeito. Reduzem os impostos sobre o lucro apurado e esse dinheiro provisionado é subtraído da PLR dos empregados. A vantagem é sempre dos bancos, que de forma oportunista se aproveitam agora da pandemia para lucrar para ganhar mais. Com ou sem crise, com ou sem pandemia, os bancos vão sempre lucrar”, critica Fabrício.
Ele destaca que o Bradesco faz o comparativo com 2019, apontando queda nos lucros, para tentar convencer a sociedade de que os bancos também estão sofrendo com os efeitos da crise. “Os bancos sempre ganham e muito, mas 2019 foi um ano de recordes astronômicos. O lucro líquido dos bancos bateu a casa dos R$ 118 bilhões. Esse resultado significa que em oito anos os bancos brasileiros praticamente dobraram seus lucros, que em 2011 alcançou R$ 62,5 bilhões. Qualquer resultado em 2020 dificilmente vai superar 2019. Só o Bradesco apurou lucro líquido de R$ 22,5 bilhões no ano passado, o maior de sua história”, assinala Fabrício (veja gráfico abaixo).

O dirigente afirma que o Bradesco, assim como os demais bancos brasileiros, vai tentar usar a crise para justificar mais ataques contra os direitos dos empregados. Ao comentar os resultados do 2º trimestre, o presidente do Bradesco, Octávio de Lazari, já avisou que vai fechar mais de 400 agências ainda este ano. “Ele está garantindo que, por enquanto, não haverá cortes de funcionários. Mas quando vemos essa ganância obsessiva pelo lucro em plena pandemia não podemos confiar que não haverá demissões. Temos que seguir atentos para defender nossos direitos e empregos”, afirma Fabrício.
Cacau alerta que no Santander as demissões já são uma realidade. O dirigente da Fetraf RJ|ES diz que mesmo somando um lucro bilionário de R$ 6 bilhões no 1º semestre deste ano, o banco dispensou cerca de 1.000 bancários desde o início da pandemia no Brasil. “O Santander simplesmente atropelou o acordo sacramentado com o movimento sindical no início da pandemia e demitiu quase mil bancários e bancárias. Enquanto os bancos insistirem em pôr o lucro à frente das vidas teremos essas injustiças”, lamenta Cacau.








