Em agosto, durante cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, deixou fluir seu lado canastrão para incorporar o personagem do “chefe humano”. “Tenho uma dívida eterna com os funcionários da Caixa”, disse se referindo ao esforço dos empregados que pagavam o auxílio emergencial em meio à pandemia. Em seguida, ainda com a voz embargada, completou: “Sinto um enorme orgulho desta família. Cada pessoa que a gente perde, são poucas, eu sinto como uma pessoa da família”.
Quem ainda tinha alguma dúvida, agora tem certeza que tudo não passava de uma encenação de quinta. “O verdadeiro Pedro Guimarães não tem nada de humano. Ao contrário, é um sujeito perverso, sem empatia alguma com os empregados da Caixa”, diz a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges.
A dirigente recupera a fala oportunista e falsa de Guimarães para criticar a intransigência da direção da Caixa com relação às promoções referentes a 2020. “Que família desejaria um patriarca perverso como Pedro Guimarães”.
A Caixa recusou nessa terça-feira, 22, a proposta da Comissão de Empregados que estabelecia a distribuição linear de um delta a todos os empregados que cumprissem os critérios objetivos de avaliação, como frequência, valendo 20 pontos; curso da UCC que é cobrado no “eixo estilo” da Gestão de Desempenho de Pessoas (GDP), valendo 20 pontos (podendo ser realizado até 28/02/2021); pontuação extra: 5 pontos para quem tiver o PCMSO válido em 31/12/2020; pontuação extra: ações de autodesenvolvimento, com 2 pontos por curso registrado no currículo (a pontuação extra teria limite de 10 pontos); e avaliação de competências da GDP, valendo 20 pontos.
“Essa proposta, que já é alternativa, foi ajustada pela CEE com elementos da GDP, mas mesmo assim a Caixa a recusou e se manteve irredutível na imposição de uma proposta arbitrária, na qual o GDP é o único parâmetro de avaliação por mérito”, critica Lizandre.
Por sua vez, os representantes dos empregados na Comissão Paritária da Promoção por Mérito recusaram a proposta da Caixa sobre a implementação da GDP como critério absoluto para avaliação da Promoção por Mérito referente ao ano de 2020.
Na primeira proposta, apresentada na reunião do dia 16 de dezembro, a Comissão propôs a distribuição linear de um delta (promoção por progressão na carreira) para todos os empregados não enquadrados nos impedimentos previstos pelo RH 176 (os impedimentos são ter menos de 180 dias de efetivo exercício, mais que 3 faltas não justificadas, ter recebido censura ética, penalidade de suspensão ou de advertência, caso tenha recebido outra há menos de 5 anos). A Caixa, porém, recusou a proposta e indicou que os representantes dos trabalhadores apresentassem uma proposta alternativa, também recusada pela Caixa na reunião dessa terça-feira, 22.
Sem reconhecimento
A dirigente diz que é até difícil achar uma explicação para intransigência da Caixa. Lizandre afirma que o os brasileiros, especialmente os que procuraram a Caixa para receber os benefícios emergenciais, reconhecem o esforço e dedicação dos empregados durante esses quase 10 meses de pandemia. “Esses empregados estiveram frente a frente com o vírus para garantir que os segmentos mais vulneráveis da população tivessem acesso aos benefícios. Essa dedicação vai além do profissionalismo. É uma demonstração de humanidade, de empatia com o outro. Esses bancários e bancárias estão todos os dias arriscando suas vidas. Não é exagero. A exposição ao vírus é real e o risco de contágio iminente. Os números da pandemia estão aí para quem quiser ver. Na linha de frente, muitos adoeceram e alguns morreram. Mas, infelizmente, toda essa dedicação não é reconhecida pela direção do banco. Ao contrário, a Caixa impõe critérios draconianos de avaliação que penalizam o empregado”.
É importante lembrar que a promoção por mérito está prevista no Acordo Coletivo 2020/2022. “A Caixa realizará sistemática de promoção por mérito em 2021, referente ao ano base 2020, dos empregados ativos em 31.12.2020 […], conforme regras negociadas com as Entidades Representativas dos Empregados”, diz a cláusula 51 do documento.
Benesses ao topo da pirâmide
À procura de explicações para mais este golpe contra os empregados, a informação que circula nos bastidores é de que a Caixa quer reduzir direitos para garantir bônus para o alto escalão da pirâmide. A preocupação da CEE/Caixa é que a insistência da direção do banco, para reduzir custos retirando direito dos empregados, tenha o objetivo de garantir o bônus da presidência, vice-presidências e alta administração da empresa estatal.
De acordo com o jornal Estadão, os bônus de executivos podem ser cortados se a despesa não cair em R$ 1 bi em 2021. Um levantamento divulgado pelo Ministério da Economia em novembro deste ano aponta que gestores de empresas estatais têm remunerações que alcançam R$ 2,9 milhões ao ano. O presidente da Caixa tem um honorário fixo de mais de R$ 56 mil. Ainda segundo a publicação do jornal Estadão, os executivos que ocupam cargos de vice-presidentes e nas diretorias da Caixa podem receber até seis salários em bônus anual.
“Por mais perversa que possa parecer, esse tipo de atitude é totalmente compatível com o perfil do Governo Bolsonaro. Desde o início deste Governo, a política neoliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, tem imposto um verdadeiro massacre à classe trabalhadora e ao povo brasileiro de maneira geral, sobretudo aos mais pobres. Com o fim do pagamento do auxílio emergencial, mais de 17 milhões de brasileiros e brasileiros devem voltar para a miséria em janeiro. Essa tem sido a tônica do Governo Bolsonaro: massacrar o povo brasileiro”, desabafa Lizandre.
O dado citado pelo dirigente é do pesquisador do Ibre/FGV Vinícius Botelho. Segundo ele, desde setembro, quando o presidente Jair Bolsonaro reduziu pela metade o valor do auxílio emergencial, o número de brasileiros na linha da extrema pobreza aumentou instantaneamente para sete milhões. Esse percentual representava 18,3% da população. Em janeiro, ainda segundo o estudo, o corte da extrema pobreza deve atingir 26,2% dos brasileiros.
Sem diálogo
Desde o fim da Campanha Nacional dos Bancários de 2020, em agosto deste ano, os representantes dos trabalhadores tentam se reunir com a Caixa para discutir as formas de avaliação dos empregados, que serão levadas em consideração para receberem o delta em 2021. Com os sucessivos cancelamentos e adiamentos por parte da Caixa e, agora, a intransigência em relação ao GDP, a CEE/Caixa teme que o impasse provocado pelo banco comprometa o pagamento da promoção aos empregados. A CEE deve levar a questão para a Mesa Permanente para tentar retomar as discussões com a Caixa.








