2020<br>“Covid-21”: taxas de óbitos, novos casos e internação em alta projetam ano novo caótico para o ES

28/12/2020 11:35

Retrospectiva 2020: A conta das aglomerações de fim de ano deve chegar na primeira quinzena de janeiro, com o aumento de novos casos e, consequentemente, de mais mortes

O Brasil chega ao final de 2020 com as curvas da covid-19 em ascensão e com perspectivas catastróficas para o início de 2021. A vacina, que já é uma realidade em alguns países, no Brasil, ainda é só um arremedo. Um mero registro no plano de vacinação mal-ajambrado do Governo Federal, que segue numa posição negacionista em relação à pandemia, promovendo uma política genocida que já tirou as vidas de mais de 190 mil brasileiros e brasileiras.

Com as curvas da doença em franca ascensão, a expectativa é de que as festas de fim de ano sejam a pá de cal que faltava para cobrir esta grande cova na qual se transformou o Brasil de Jair Bolsonaro. Essa conta das aglomerações das confraternizações de fim de ano deve chegar na primeira quinzena de janeiro, com o aumento de novos casos e, consequentemente, de mais mortes.

A diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges vê com preocupação o novo crescimento do vírus no Espírito Santo. A dirigente afirma que os números têm aumentado assustadoramente de outubro para cá. A média de sete dias de casos novos passou de 2 mil (dados atualizados em 22/12, www.covid.mapsbiomas.org.br ,veja gráfico abaixo). Ela lembra que no pico da primeira onda, no início de julho, essa média estava em torno de 1,4 mil casos. “Os óbitos também voltaram a subir, estamos com média de 26 mortes na média de sete dias. Nos 20 primeiros dias de dezembro tivemos 438 mortes. Se mantivermos essa média, chegaremos ao final de dezembro com 658 óbitos. Em relação a novembro, representa um aumento de 45%; e a outubro, de 125%. É uma escalada alarmante. Como estaremos em janeiro?”, questiona Lizandre.

A expectativa é de que as festividades de fim de ano impulsionem para cima as curvas de novos casos da covid no país e no Estado. A professora da Ufes, Ethel Maciel, enfermeira e pós-doutora em Epidemiologia pela Johns Hopkins University (EUA), vê com apreensão as confraternizações de fim de ano e projeta um aumento de casos na primeira quinzena de janeiro no Espírito Santo, cerca de 14 dias após as comemorações.

Clique aqui e leia a entrevista completa com a epidemiologista Ethel Maciel

“Vai ser o caos. As projeções para janeiro são preocupantes. Acho que as autoridades deveriam intensificar as campanhas em veículos de massa como rádio e TV, alertando sobre os riscos de transmissão da doença. Mas estamos vendo justamente o contrário. O Presidente da República sem máscara, aglomerações promovidas pelas próprias autoridades públicas. Isso passa uma sensação de relaxamento à população. Assim fica difícil para você convencer as pessoas de que a situação é grave. O momento é de redobrar os cuidados. Não podemos esquecer que a pandemia está em ascensão”, adverte a professora.

Bolsonaro, sem máscara, provoca aglomeração em praia do Guarujá, litoral de SP (Reprodução)

Mais testes

De acordo com dados do Ministério da Saúde (www.covid.saude.gov.br), o Brasil tem média de 3.445 casos de covid por 100 mil habitantes. Na Região Sudeste, o Espírito Santo tem 5.692 casos/100 mil habitantes, contra 3.014 de São Paulo; 2.351 de Minas Gerais e 2.356 do Rio de Janeiro. Ainda, no comparativo com os estados da Região Sudeste, o Espírito Santo registra coeficiente de mortalidade de 118 óbitos/100 mil – o quinto mais alto do país. Os números suscitam questionar se o Governo do Estado vem falhando na gestão da pandemia.

A professora Ethel Maciel classifica a situação do Espírito Santo como grave. Segundo a epidemiologista, o Governo do Estado deveria tomar medidas mais rígidas em relação às medidas de flexibilização.

Ethel Maciel pondera, no entanto, que essas comparações entre estados devem ser feitas com cautela. Ela diz que uma das causas para o Espírito Santo ter um alto número de casos por 100 mil habitantes se explica pelo alto índice de testagem. “O Espírito Santo sempre fez mais testes em relação aos outros estados. Sabemos que houve e ainda há muitas subnotificações. Mas quando você testa mais, vai ter um maior número de casos”.

Com relação aos óbitos, a professora afirma que uma boa vigilância sanitária também pode identificar mais mortes em decorrência do vírus. “Numa pandemia, quem procura mais, vai achar mais casos, porque há muitos”. A epidemiologista complementa que a interpretação mais precisa de todos esses dados, porém, deverá ser feita posteriormente, a partir da análise detalhada desse conjunto de dados.

Doença se alastra entre bancários

O crescimento geral da doença no Espírito Santo se reflete também na categoria bancária. Lizandre, que está à frente da Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato, diz que vem recebendo mais relatos de casos de covid entre a categoria nos últimos meses. “A pandemia não acabou. A vacina já existe, mas ainda não chegou aqui. É preciso ser rigoroso com os protocolos sanitários e com as medidas de prevenção. É um cuidado necessário conosco, com a nossa família e com todos que trabalham no banco ou utilizam o serviço bancário”.

A dirigente acrescenta que, no caso dos bancos, os protocolos de distanciamento, uso obrigatório de máscaras, disponibilização permanente de álcool gel ou afastamento de empregados contaminados ou com suspeita não estão sendo cumpridos com rigor. Com a taxa de retransmissão da doença aumentando em todo Estado, ao negligenciar os protocolos sanitários, o resultado é o aumento instantâneo de casos na categoria.

Caixa-forte

Lizandre explica que as características arquitetônicas de uma agência bancária favorecem a propagação do vírus. “Uma agência é como uma caixa-forte. Elas são projetadas para proteger o patrimônio e não para proporcionar o conforto e o bem-estar a empregados e clientes. Não há ventilação natural por um motivo simples: não há janelas. Ambientes fechados que dependem de um sistema de ar-condicionado, como algumas pesquisas já alertaram, favorecem a disseminação do vírus”, adverte.

A professora Ethel Maciel também aponta as agências bancárias como locais que favorecem a transmissão do vírus. “As agências bancárias são locais fechados, com um sistema de ar-condicionado central que impede a ventilação natural. Esse ambiente, com certeza, facilita a transmissão do vírus”.

Cultura de negar a doença

Mas a epidemiologista faz uma reflexão sobre a cultura do trabalhador brasileiro de negar a doença, o que, segundo ela, está sendo desastroso numa pandemia. De acordo com a epidemiologista, sempre houve pessoas no ambiente de trabalho que se queixavam de colegas que iam trabalhar mesmo com sintomas gripais, por exemplo.

“Infelizmente, essa é uma situação que não havíamos pensado antes, que só fomos pensar agora na pandemia. A verdade é que nos habituamos a trabalhar doentes. Nunca ficamos em casa porque estamos com uma dor na garganta ou em estado febril. Só que no caso da pandemia, esses sintomas são indicativos para você ficar em casa, mas o trabalhador tem dificuldade de negociar essa situação com empregador que, muitas vezes, questiona: ‘Ah, mas você está só com uma dor de garganta, será que é motivo para você ficar em casa?’ Mas é justamente nesse momento, quando esses primeiros sintomas aparecem, que você está transmitindo mais intensamente a doença”. Numa pandemia, até que se prove o contrário, tudo pode ser covid-19”, alerta.

Covid: doença do trabalho

Como parte das ações relacionadas à pandemia, o Sindicato está apoiando a pesquisa “COVID-19 como uma doença relacionada ao trabalho”. O estudo é parte de projeto homônimo promovido pela Associação de Saúde Ambiental e Sustentabilidade (ASAS) com o objetivo de jogar luz na relação entre a atividade profissional e o adoecimento pela covid-19.

O bancário pode participar respondendo a um formulário, cujas informações ficarão sob sigilo. O projeto resultará na produção de um dossiê sobre a doença nas diversas atividades de trabalho, reunindo informações e percepções de pessoas que trabalharam fora de seu domicílio ou na companhia de colegas durante a pandemia.