2020<br>Covid solta: epidemiologista Ethel Maciel prevê janeiro caótico pós festas de fim de ano

28/12/2020 11:07

Retrospectiva 2020: Nesta entrevista, a professora explica por que a curva da covid-19 no ES deu uma guinada para cima nos últimos três meses. Às vésperas das festas de fim de ano, com as iminentes aglomerações, ela decreta: “Vai ser o caos"

Foto: Fernando Madeira

Nesta entrevista, a enfermeira e professora da Ufes, Ethel Maciel, pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University), explica por que a curva da covid-19 no Espírito Santo deu uma guinada para cima nos últimos três meses. Às vésperas das festas de fim de ano, que devem ser marcadas por aglomerações e relaxamento das medidas sanitárias, a professora decreta: “Vai ser o caos”, referindo-se a quadro da covid em janeiro no Estado e no país.

A pesquisadora também critica o Mapa de Risco do Governo do Estado e diz que houve mudanças nos critérios, que eram mais rígidos no início da pandemia. Ela também observa que os governantes das três esferas (federal, estadual e municipal) falharam em não fazer campanhas educativas que alertem e eduquem a população sobre os riscos da doença.

A professora também avalia o aumento dos casos na categoria bancária e adverte que as agências são ambientes que favorecem a disseminação do vírus. Ethel Maciel afirma que há uma cultura do trabalhador brasileiro em continuar trabalhando mesmo doente. “A verdade é que nos habituamos a trabalhar doentes. O trabalhador não fica em casa porque está com uma dor na garganta ou em estado febril. De outro lado, o empregador também tem resistência em liberar o trabalhador sem exigir um atestado”. Ela diz que na pandemia essa situação se complica muito e leva ao aumento de casos.

Correio Bancário: Os dados são inequívocos: há um crescimento da doença no Espírito Santo e em todo o Brasil nos últimos três meses. De acordo com o covid.mapsbiomas.org, com base nos dados atualizados no dia 15 de dezembro, a média de sete dias registrou 1.913 novos casos. No pico da doença, em julho, esse número esteve na casa de 1.500 casos no Espírito Santo. Quais são as causas desse aumento?

Professora Ethel Maciel: Esse crescimento está relacionado com o aumento das interações. As pessoas passaram a interagir mais no dia a dia. Por exemplo, você pega o ônibus e tem interações com as pessoas; no trabalho, a mesma coisa. O número de interações cresceu muito a partir de setembro e há alguns fatores que explicam esse aumento. Em setembro, tivemos uma determinação do Governo do Estado para que pelo menos 50% dos servidores retornassem ao trabalho presencial; houve também o retorno das aulas presenciais em faculdades particulares e escolas públicas e privadas. Contribuiu também para o aumento das interações o feriado prolongado de 7 de setembro. Entre o final de setembro e outubro, tivemos ainda mais interações em função das campanhas eleitorais.

No intervalo de duas semanas de cada um desses eventos, essas interações aparecem nos dados de aumento da doença. A aglomeração que ocorre hoje vai ter reflexo nas curvas da doença daqui a 14 dias. As pessoas passaram a se aglomerar como se não houvesse um vírus solto. Muitos deixaram de usar a máscaras, abandonaram as medidas preventivas e não mantiveram o distanciamento social. Em setembro, como disse, já havia uma aceleração da doença, que vai se intensificando nos meses de outubro, novembro e dezembro Creio também que as pessoas não entenderam o Mapa de Risco verde. Muitos criaram a percepção de que o verde significava tudo livre, tudo normal, um “pode tudo”. Acho também que essa comunicação do Mapa de Risco não foi muito bem feita pelo Governo do Estado. O aumento de casos que vivemos agora é reflexo de tudo isso.

CB: De acordo com dados do Ministério da Saúde, quando comparamos o número de casos do Espírito Santo com outros estados, na proporção por 100 mil habitantes, temos cerca de 5,5 mil casos/100 mil. A média nacional é de 3,3 mil; Minas e Rio de Janeiro têm média de 2,3 mil e São Paulo 2,9 mil. Em relação aos óbitos, o Espírito Santo tem 118/100 mil, ficando atrás apenas de São Paulo na Região Sudeste, com 141/100 mil. Por que os números do Espírito Santo são tão elevados. A gestão da pandemia está sendo mal conduzida pelo Governo?

Professora Ethel Maciel: Uma das causas para o grande número de casos se explica pelo fato de o Espírito Santo testar mais em relação aos outros estados. Sabemos que houve e ainda há muitas subnotificações. Entretanto, quando você testa mais, vai ter um maior número de casos. Com relação às mortes, uma boa vigilância sanitária também pode identificar mais óbitos em decorrência do vírus. Numa pandemia, quem procura mais, vai achar mais casos porque há muitos.

Mas é importante registrar que a leitura mais precisa desses dados só conseguiremos fazer mais à frente, quando analisarmos esses dados com mais critérios, com mais detalhamento, para fazermos uma avaliação mais precisa.

Ainda com relação aos óbitos, temos uma técnica de epidemiologia que se chama excesso de mortes. Essa técnica consiste em analisar os anos anteriores e observar, por exemplo, quantas pessoas morreram por infarto. A tendência é que se mantenha um número semelhante nessa série histórica. Quando estamos em uma pandemia, pode ocorrer um aumento de 30, 40 ou 50% em um desses casos e é preciso desconfiar e investigar o motivo desse aumento. O que levou o aumento desses óbitos pode ter sido o próprio vírus. Mas todos esses dados só poderemos avaliar depois. Neste momento, é prematuro fazer uma avaliação da gestão da pandemia no Espírito Santo.

CB: Outro dado que chama atenção com relação à gestão da pandemia é o Mapa de Risco. Ao comparar dados de junho e julho, quando houve o pico da doença, com os atuais, fica patente que o quadro da pandemia neste momento é tão grave agora quanto ao da primeira onda. Sinceramente, não consigo entender os critérios usados pelo Governo do Estado para construir a matriz de risco. Se compararmos as variáveis de junho e julho com as atuais, o Mapa de Risco estaria hoje predominantemente vermelho, ou seja, em risco alto, mas não é isso que vemos.

Professora Ethel Maciel: Na verdade, o Mapa de Risco começou com uma matriz mais restritiva e que com o tempo foi sofrendo mudanças. Eu acho que nesse momento deveríamos estar com muito mais municípios no vermelho [risco alto]. Mesmo porque, a taxa de ocupação dos leitos do sistema de saúde está muito elevada tanto na Grande Vitória como no interior. E, neste momento, isso acontece ao mesmo tempo. A nossa taxa de retransmissão [Rt] também está muito alta. No interior, por exemplo, a taxa está em 1.7 [Rt de 1,7 significa que 100 pessoas infectados podem transmitir a doença para outras 170 pessoas], que é uma taxa muito próxima daquela do final de mês de junho.

Diferentemente daquele pico que nós tivermos em maio junho, com a primeira onda mais aguda concentrada na Grande Vitória, neste momento, a onda chegou ao mesmo tempo no interior. Por isso observamos agora o aumento das taxas de ocupação dos leitos no interior e na Região Metropolitana da Grande Vitória.

CB: A partir das suas explicações fica ainda mais claro que a matriz de risco perdeu seus critérios pelo caminho…

Professora Ethel Maciel: Realmente é difícil explicar e entender o que houve. Eu tenho algumas discordâncias [sobre Mapa de Risco]. Do jeito que o Mapa de Risco está neste momento, não reflete o critério de subida dos casos. O atual Mapa de Risco segue um critério que reflete mais uma descida e estabilidade da curva. É preciso rever esses critérios. Acho que seria necessário adotar critérios mais rígidos. Claramente estamos em uma ascensão muito perigosa da doença.

CB: As festas de fim de ano podem aumentar a transmissão da doença e esses novos casos devem explodir na primeira quinzena de janeiro. É essa a sua expectativa?

Professora Ethel Maciel: Vai ser o caos. As projeções para janeiro são preocupantes. Acho que as autoridades deveriam intensificar as campanhas em veículos de massa, como rádio e TV, alertando sobre os riscos de transmissão da doença. O Presidente da República sem máscara, aglomerações promovidas pelas próprias autoridades públicas. Isso passa um relaxamento à população. Assim fica difícil para você convencer as pessoas de que a situação é grave. O momento é de redobrar os cuidados. Não podemos esquecer que a pandemia está em ascensão.

É preciso que as autoridades façam campanhas sérias para que as pessoas compreendam a gravidade do momento. Temos que ter um combate à onda desinformação. Não estamos vendo propagandas dos governos Federal, estaduais e municipais, alertando as pessoas para a importância de lavar as mãos, usar a máscara e evitar aglomerações. Não há campanhas educativas nesse sentido.

CB: Esta nova onda também tem se refletido na categoria bancária com o aumento de casos. Sabemos que as agências bancárias são ambientes planejados para proteger o patrimônio, o que propícia a transmissão do vírus. Como a senhora avalia esse aumento de casos na categoria bancária?

Pofessora Ethel Maciel: As agências bancárias são locais fechados, com um sistema de ar-condicionado central que impede a ventilação natural. Esse ambiente, com certeza, facilita a transmissão do vírus.

Temos pessoas no ambiente de trabalho reclamando de colegas que vão trabalhar com sintomas de gripe. Infelizmente, essa é uma situação que não havíamos pensado antes, que só fomos pensar agora na pandemia. A verdade é que nos habituamos a trabalhar doentes. Nunca ficamos em casa porque estamos com uma dor na garganta ou em estado febril. Só que no caso da pandemia, esses sintomas são indicativos para você ficar em casa, mas o trabalhador tem dificuldade de negociar essa situação com empregador que, muitas vezes, questiona: ‘Ah, mas você está só com uma dor de garganta, será que é motivo para você ficar em casa?’ Mas é justamente nesse momento, quando esses primeiros sintomas aparecem, que você está transmitindo mais a doença.

Culturalmente o trabalhador brasileiro nunca deixa de trabalhar porque está doente. Mesmo numa pandemia a pessoa tem mais dificuldade para ter essa consciência. Repito, ao perceber esses sintomas iniciais o trabalhador deveria ficar em isolamento para evitar o contágio. Infelizmente essa situação ainda está muito distante da nossa cultura de trabalho. Não é que o trabalhador é mal intencionado. É porque muitas vezes ele tem dificuldade para incorporar essa nova norma na pandemia. E na pandemia é assim, se você acordou diferente do seu estado normal, você deve comunicar imediatamente o seu empregador, fazer o isolamento e o teste. Numa pandemia, até que se prove o contrário, tudo pode ser covid-19.

CB: Qual é a sua expectativa com relação a vacina? O Espírito Santo está preparado, tem uma boa estrutura vacinal?

Professora Ethel Maciel: De acordo com o que estamos acompanhando, Pfizer e Moderna já conseguiram a aprovação. Estamos aguardando nos próximos dias a aprovação também da CoronaVac. Acho, particularmente, mais fácil incorporar a CoronaVac, que é produzida no Instituto Butantan [São Paulo]. Seria interessante se o Brasil fechasse o acordo também com a Moderna, que exige temperaturas mais adequadas à nossa cadeia de frios. Estou otimista. Minha expectativa é de que a vacinação comece no final de janeiro, início de fevereiro.

O Espírito Santo tem uma boa infraestrutura vacinal, equipes técnicas bem preparadas. Isso é muito positivo. Estamos realmente preparados e temos um processo qualificado, só falta chegar a vacina.