De janeiro de 2013 a outubro de 2020, os bancos fecharam 78.155 postos de trabalho no Brasil. Levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), com base nos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério da Economia, apontam que foram desligados 303,7 mil bancários e contratados 225,5 mil. No período analisado, o ano de 2016 registrou, entre contratações e desligamentos, o saldo mais negativo, com 20,6 mil postos de trabalho fechados.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, a técnica do Dieese Bárbara Vallejos afirmou que a crise financeira que impactou a economia brasileira entre 2014 e 2016 contribuiu para o aumento das demissões, mas ela aponta a inovação tecnológica e digital como principal fator para o encolhimento do setor bancário
Reforma trabalhista
O diretor do Sindicato dos Bancários/ES Fabrício Coelho reconhece que as inovações foram fundamentais para acelerar esse processo de digitalização dos serviços bancários, mas não considera que a raiz do encolhimento do setor se explique exclusivamente pelas mudanças tecnológicas.
Segundo Fabrício, a reforma trabalhista, que deflagrou de vez as terceirizações, permitiu que os bancos reduzissem o número de bancários. “Mesmo com os avanços tecnológicos, a demanda por produtos bancários como empréstimos e financiamento, por exemplo, se manteve em crescimento. Surgiram os correspondentes bancários, as lotéricas e outros serviços terceirizados pelo sistema financeiro que passaram a ser feitos por trabalhadores precarizados, contratados fora da convenção coletiva da categoria”.
O dirigente afirma que as inovações tecnológicas ajudaram a criar as condições para o fechamento de postos de trabalho, mas ele pondera que no Brasil ainda há uma parcela importante da população que ainda depende da mediação de um funcionário para acessar os serviços bancários.
“Basta olharmos para as filas que se formam diariamente nas lotéricas, que não são necessariamente de apostadores, no Banesfácil, Bradesco Expresso, nos Correios ou no Caixa Aqui. Há um número sempre crescente de pessoas fazendo empréstimo ou financiamentos em centenas de financeiras e correspondentes em municípios de todos os portes.” O dirigente completa: “Por isso as demissões não podem ser atribuídas exclusivamente às inovações tecnológicas”.
De acordo com o dirigente, os postos fechados no setor bancário se mantêm em expansão em segmentos menos organizados de trabalhadores, representados tanto por outros segmentos formais não bancários (como securitários e trabalhadores em cooperativas de crédito), como também por trabalhadores autônomos (agentes de seguros e de investimentos), além dos correspondentes bancários e trabalhadores em fintechs.
Fabrício acrescenta que esses empregados apresentam condições de trabalho bastante precarizadas e bem inferiores às da categoria bancária em termos de remuneração, jornada, representação sindical e formas de contratação, ainda que desempenhem tarefas semelhantes e estejam muitas vezes vinculados aos grandes bancos, que são, em muitos casos, os contratantes diretos e exercem controle ou participação acionária direta nessas empresas.
Demissões
O dirigente diz que os bancos privados, sobretudo os três gigantes, Itaú, Bradesco e Santander, são os responsáveis pela grande maioria dessas mais de 300 mil demissões no período de oito anos. Ele alerta que a reforma administrativa, se aprovada, vai permitir que os bancos públicos também empurrem para cima as estatísticas das demissões.
“Se os bancos públicos também pudessem demitir, esse saldo negativo de quase 80 mil postos de trabalho fechados, com certeza, seria muito maior. O fim da estabilidade e as demissões no setor público é uma das ameaças da reforma administrativa”.
Ele acrescenta que, mesmo não podendo demitir sem justificativa, os bancos públicos vêm encolhendo seus quadros nos últimos anos porque os concursos públicos foram paralisados. Fabrício cita o exemplo da Caixa. “Em 2014, a Caixa chegou a ter mais de 100 mil empregados, com esse último PDV ainda em curso, deve ficar com pouco mais de 78 mil funcionários. Um encolhimento de 22 mil empregados em seis anos”, aponta.
Cenário pessimista
No início da pandemia, em março, os bancos prometeram ao Comando Nacional dos Bancários que não demitiriam durante a pandemia. A promessa, no entanto, foi quebrada pelo Santander ainda em junho. Em seguida, foi a vez do Itaú demitir e, mais recentemente, do Bradesco, cujo presidente comparou as demissões ao “corte do mato alto”. Até outubro, o setor bancário registrou um saldo negativo de 8.086 vagas, sendo 13,7 mil contratados contra 21,8 mil desligados no período.
A técnica do Dieese Bárbara Vallejos estima que as demissões no setor devem continuar em 2021. Fabrício também acredita que as demissões não serão estancadas tão cedo. “A tendência é que os bancos continuem demitindo no próximo ano, mesmo com a pandemia matando mais de mil brasileiros todos os dias, com mais de 14 milhões de desempregados e 17 milhões descendo o fosso para a linha da pobreza com o fim do auxílio emergencial. O único propósito dos bancos é aumentar seus lucros, custe o que custar. Se as demissões podem ampliar as margens de lucro, tenha a certeza absoluta de que elas continuarão sem dó nem piedade. Não há empatia, não há solidariedade. Só há o lucro na frente dos banqueiros”.
Os cinco maiores bancos do país somavam cerca de 414,4 mil funcionários no terceiro trimestre deste ano —uma redução de 2,4% em relação a igual período de 2019, quando somavam 424,5 mil. Em 2019, o lucro dos cinco gigantes rompeu a casa dos R$ 107 bilhões – um recorde histórico. Este ano, mesmo com a pandemia, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander apuraram lucro líquido de R$ 53,383 bilhões nos nove primeiros meses do ano.
O resultado, de causar inveja às grandes empresas de outros setores da economia, poderia ser ainda maior se os bancos não aumentassem o provisionamento, prevendo o risco de créditos de liquidação duvidosa (as PDDs), o que não se confirmou até o momento. Na média dos cinco bancos, o crescimento das despesas com PDD foi de 44,7%.







