(Atualizada em 18/02/2021 às 16h06) Quem corre os olhos sobre as manchetes dos principais jornais do país, desatento à informação oculta nas entrelinhas, está propenso a crer que o Banco do Brasil amargou um resultado ruim em 2020. Não é pra menos. Estampa a manchete do G1: “Lucro do Banco do Brasil cai 30%…”; Uol: “BB vê lucro cair 22,2%…”; Valor: “Banco do Brasil tem queda de 20% no lucro…”; Seu Dinheiro carregou na tinta e aumentou o “tombo”: “Banco do Brasil tem queda de 30% no lucro…”.
Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Goretti Barone, há uma explícita intenção da chamada grande imprensa corporativa em transmitir à sociedade que o Banco do Brasil está sofrendo duramente os impactos da pandemia. “Depois é só esperar a opinião pública ligar os pontos e se solidarizar com o plano de reestruturação do banco, que está fechando agências e já demitiu mais de 5 mil funcionários. Se não tentarmos distorcer as notícias, os funcionários que estão num processo de enfrentamento com o banco, lutando para reverter a reestruturação, passam por vilões e os banqueiros ainda saem como vítimas”, afirma.
A dirigente aponta que os jornais, na hora de apresentar os resultados dos bancos referentes a 2020, tem procurado incluir os bancos na vala comum de outros setores que de fato foram afetados pela crise. “Ora, é mais do que sabido que os bancos sempre ganham, com ou sem crise. A questão reside no fato se eles vão lucrar mais ou muito mais”. Goretti assinala que o lucro de R$ 13,9 bilhões apurados em 2020 pelo BB, em plena pandemia, supera os resultados de 2017 (R$ 11,2 bilhões); 2018 (R$ 12,8 bilhões) e só é 22% inferior a 2019, que foi um ano completamente fora da curva.
“Vamos pôr os devidos parênteses em 2019 para lembrar que esse foi um ano em que todos os grandes bancos viram seus lucros irem às alturas. Nunca os banqueiros lucraram tanto como naquele ano. Não por coincidência, primeiro ano do Governo Bolsonaro e de seu pupilo Paulo Guedes, que comanda uma política econômica forjada na lógica ultraliberal em sua versão mais perversa. Bolsonaro e Guedes estão a serviço das elites financeiras deste país e dispostos a solapar direitos e garantias conquistados ao longa de décadas pela classe trabalhadora”, critica a dirigente.
“Mas, voltando aos números, o lucro médio do BB nos últimos quatro anos está na casa dos R$ 14 bilhões, ou seja, o resultado de 2020 é excelente para o banco se considerarmos que foi um ano de grande retração da economia em função da pandemia. Não existe crise alguma no BB”.
Colchão de R$ 8 bi
O Banco do Brasil foi o quarto grande banco a anunciar os resultados de 2020. Antes do BB, Bradesco, Itaú e Santander já haviam apresentados seus resultados, respectivamente, R$ 19,5 bilhões; R$ 18,9 bilhões e R$ 13,8. Em comum, além dos lucros astronômicos, os quatro gigantes também reservaram uma gordura de provisões esperando um calote que não veio em 2020. Ao contrário, os bancos registraram queda da inadimplência em relação a 2019.
No caso do BB, a maior parte da redução anual no lucro também decorreu da antecipação de R$ 8,1 bilhões em provisões feitas ao longo dos trimestres de 2020. “Os quatro grandes recorreram à mesma estratégia, pintaram um cenário extremamente pessimista para 2020 – mesmo sabendo o tempo todo que os bancos estavam blindados da crise – para reforçarem suas reservas com perdas com inadimplência (PDD). É interessante fazer o exercício e somar parte do que foi reservado no colchão ao lucro anunciado de R$ 13,9 bilhões. Para quanto esse lucro subiria? Talvez os mesmos R$ 18 bilhões apurados em 2019?”, questiona.
Segundo a dirigente, é importante esclarecer à sociedade que os bancos continuam com seus lucros nas alturas ao mesmo tempo em que atropelam direitos e conquistas da categoria bancária. Ela afirma que além dos lucros bilionários e das reservas exageradas, os quatro gigantes também têm em comum a perversidade com que tratam seus funcionários. Goretti destaca que até setembro de 2020 o BB contava com 92.106 funcionários. “Subtraindo os 5.533 demitidos agora com a reestruturação, esse número cai 86.573. Em 2021, o banco chegou a empregar mais de 114 mil funcionários. Perdemos quase 30 mil funcionários nos últimos oito anos”, aponta.
“Os quatro gigantes, como mostram os números, alheios à pandemia, demitiram em 2020 e fecharam agências em todo o país. De outro lado, eles têm a cada dia aumentando a cobrança por metas e retirado direitos dos trabalhadores. No caso do BB, estamos lutando para evitar o fechamento de agências, a perda da gratificação dos caixas e de outros funcionários que recebem comissão. Fizemos duas paralisações de 24 horas e o banco continua inflexível na mesa de negociação. Essa é a versão da história que os jornais não contam e a sociedade precisa conhecer”, finaliza Goretti.

