Trabalhadores formais que desempenham atividades essenciais e não podem ficar em home office durante a pandemia estão entre as vítimas preferenciais da covid-19 no Brasil. Um levantamento do instituto Lagon Data, publicado em reportagem do jornal El País, no início de abril, comparou as mortes de trabalhadores formais, de janeiro e fevereiro de 2020, portanto, antes da pandemia, com as de janeiro e fevereiro deste ano. Em algumas profissões o aumento de óbitos no comparativo entre os dois períodos foi superior a 60%. Caixas de supermercados, motoristas de ônibus e seguranças são algumas das atividades com altas taxas de letalidade (veja tabela abaixo).

O levantamento se baseou nos dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), que contabiliza mês a mês o motivo do encerramento dos contratos formais de trabalho, mortes é um deles. O Novo Caged não especifica, porém, as causas da morte. Por isso o estudo pondera que não é possível precisar se os “excessos de mortes”, no comparativo com 2020 (antes da pandemia), podem ser atribuídos exclusivamente à covid.


Na avaliação da epidemiologista e professora da Ufes, Ethel Maciel (foto acima), os profissionais que desempenham atividades essenciais estão mais vulneráveis ao vírus e por isso deveriam estar incluídos entre os grupos prioritários de vacinação. Mas nem todos os segmentos profissionais estão contemplados nas listas prioritários de vacinação.

Ela diz que o risco de infecção aumenta consideravelmente entre os profissionais que atuam em ambientes fechados. “O ideal seria que houvesse doses suficientes de vacina para todos os trabalhadores de serviços essenciais. Mas, infelizmente, ainda temos poucas doses de vacina”.

A professora diz que a definição de grupos prioritários tem fundamento científico em dois critérios-chave: pessoas que estão mais vulneráveis ao risco de infecção e adoecimento e as que estão sob maior risco de morte. Ela acrescenta ainda que é preciso garantir a estratégia coletiva, vacinando os grupos prioritários e dando ritmo à vacinação. Ethel pondera que hoje não há doses de vacina suficientes para dar escala a imunização. A professora aponta a falta de uma coordenação nacional como um dos principais entraves para o plano de vacinação funcionar como deveria no país.

Sem uma coordenação nacional, doses insuficientes e com o fornecimento instável, a vacinação em estados e municípios segue ritmos e critérios diferentes. No último dia 6, o Espírito Santo, por exemplo, começou a vacinar os profissionais das forças de segurança e salvamento. Esse mesmo grupo também começou a ser vacinados em outros estados. No Espírito Santo, o Governo do Estado explicou que as doses sairiam das reservas técnicas de vacina.

Mas os critérios mudam de um estado para outro ou de uma cidade para outra. Os municípios têm autonomia para seguir suas estratégias locais. O Ministério da Saúde estima que 77,27 milhões de pessoas façam parte dos chamados grupos prioritários, que também incluem portadores de comorbidades, que representam cerca de 17 milhões de pessoas. Esse grupo, que inclui pacientes com doenças renais, transplantados, obesos e pessoas com autismo e com síndrome de Down, está atrás apenas das pessoas com mais de 60 anos de idade, que compreendem 30,2 milhões de brasileiros (veja tabela abaixo).

Grupos de vacinação no ES

Pessoas de 60 a 64 anos
Trabalhadores da educação: Ato simbólico iniciou vacinação de profissionais das redes pública e privada, no dia 15. Nos municípios, estava previsto para começar na semana do dia 19. Capital ainda não divulgou data.

Forças de segurança: capital iniciou no dia 13 a vacinação de profissionais das forças de segurança e salvamento e Forças Armadas.

Bancários

Os profissionais que atuam nos chamados serviços essenciais – atividades que continuaram funcionando ininterruptamente durante toda a pandemia – são os mais expostos a contrair o vírus, como mostra o levantamento do Lagon Data. A diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges afirma que, não por acaso, essa tem sido uma pauta permanente com os bancos desde o início da pandemia.

“O cumprimento rigoroso dos protocolos sanitários é uma exigência recorrente nas mesas de negociação com os bancos. Sempre que notamos um relaxamento das medidas, cobramos mais rigor e ainda apresentamos sugestões para revisão dos protocolos. É importante lembrar que desde o começo da pandemia o Sindicato tem repetido em suas campanhas o lema ‘a vida vale mais que o lucro’. Nossa reivindicação é que a atividade bancária deveria ser paralisada enquanto a doença estiver fora de controle, como agora”.

Mas os bancos continuam funcionando normalmente. A luta dos sindicatos tem sido incluir a categoria bancária nos grupos prioritários. “Trabalhadores do transporte e da indústria foram incluídos nos grupos prioritários, mas os bancários não”. A dirigente diz ainda que o adoecimento na categoria, inclusive com casos de óbitos em todo o país, tem causado muita tensão entre bancários e bancárias. Ela ressalta que as agências bancárias têm uma arquitetura concebida para priorizar a segurança do patrimônio e não o bem-estar das pessoas.

“As agências são caixas de concreto sem nenhuma ventilação natural, ambiente que favorece a transmissão do vírus. Durante as horas em que passa na agência, o bancário geralmente fica em contato direto e indireto com dezenas ou mesmo centenas de pessoas. Podemos citar como exemplo os empregados da Caixa que pagaram o auxílio emergencial a mais de 67 milhões de brasileiros em 2020 e voltaram agora a ficar cara a cara com o vírus para pagar a segunda fase do benefício. Mas o contato com muitas pessoas numa mesma jornada de trabalho não é exclusividade dos empregados da Caixa, as aglomerações também acontecem em outros bancos públicos e privados. É um prolema geral que afeta toda a categoria bancária”, adverte Lizandre.

Ambiente fechado

A epidemiologista concorda que os bancários, por trabalharem em um local fechado e sem ventilação natural, ficam mais sujeitos ao vírus, assim como outros profissionais que desempenham suas atividades confinados. A professora afirma que, como ainda não há vacinas para imunizar os profissionais de todos os serviços essenciais, o mais sensato seria avaliar na lista de atividades quais são as mais vulneráveis do ponto de vista da transmissão.

Ethel Maciel cita como exemplo a decisão de priorizar a vacinação às chamadas forcas de segurança e salvamento, que incluem policiais e bombeiros entre outros profissionais. Ela reconhece que são atividades essenciais, mas que são desempenhadas geralmente ao ar livre, como menor risco de infecção quando comparada às atividades realizadas em ambientes fechados.

A professora diz que a decisão de priorizar as forças de salvamento e segurança acabam tendo conotação política e não científica, considerando que não há doses para vacinar todos os profissionais essenciais e que os locais fechados oferecem risco mais elevado de transmissão.

Medidas preventivas

O Espírito Santo vacinou até agora com a primeira dose 593.289 pessoas (19,2% da população adulta); outras 148.226 pessoas (4,8%) já tomaram a segundo dose da vacina. A epidemiologista Ethel Maciel insiste que a vacinação é a alternativa mais efetiva para controlar as curvas de novos casos e mortes e reduzir a pressão sobre o sistema de saúde, que desde o dia 18 de março, quando foram iniciadas as medidas de quarentena no Espírito Santo, continua com taxa acima de 90% de ocupação nas UTIs covid (dados atualizados em 19/04).

Considerando que a vacinação ainda está longe do ritmo ideal, a professora afirma que o país só vai atingir a imunidade coletiva quando a vacinação cobrir mais de 70% da população com duas doses. A professora recomenda que algumas medidas deveriam ser observadas especialmente para reduzir as transmissões entre os profissionais de serviços essenciais que trabalham em ambientes fechados, caso dos bancários.

Uso de máscara PFF2 – A epidemiologista adverte que o transporte público é um dos ambientes de alto risco de transmissão. Ela diz que seria preciso manter a ocupação dos ônibus com distanciamento social e tornar obrigatório o embarque dos passageiros com máscara PFF2. Ela diz que a máscara PFF2, comprovadamente mais eficaz para filtrar as variantes do vírus, deveria ser distribuída gratuitamente nos postos de saúde. Ethel recomenda o uso da PFF2 especialmente nos ambientes fechados.

Filtro Hepa – Segundo a professora da Ufes, países da Europa e também os Estados Unidos já estão utilizando o filtro de ar tipo Hepa que funcionam em conjunto com o sistema de ar condicionado. Ethel explica que esse tipo de filtro renova o ar a cada três minutos e alguns modelos filtram até 99,9% dos vírus e bactérias. Ela diz que esse sistema é o usado em hospitais e que também passou a ser usada em aviões. “Seria uma alternativa para instalar em empresas que funcionam em ambientes fechados”.

Protocolo de testagem – Adotação de um protocolo sistemático de testagem também é outra medida sugerida pela professora para reduzir as transmissões entre profissionais de serviços essenciais. Ethel afirma que essa testagem de funcionários pode ser feita por amostragem numa empresa de maneira preventiva. “Toda semana a empresa pode testar aleatoriamente um número de funcionários. Essa amostragem pode ser feita até por sorteio”.

Quarentena

No dia 18 de março, após o sistema de saúde entrar em colapso, com a taxa de ocupação da UTI acima de 90%, o governador Renato Casagrande anunciou as medidas de restrições às quais ele intitulou de “quarentena”. Como outros governadores e prefeitos que foram obrigados a adotar medidas restritivas em função do aumento das curvas de novos casos e óbitos e a saturação do sistema de saúde, o governador capixaba também evitou adotar medidas mais extremas como o lockdown.

“A posição do Sindicato é alinhada à ciência, por isso temos defendido o lockdown desde o início. Já ultrapassamos 8,6 mil mortes e os especialistas apontam que devemos encerrar abril na casa das 9 mil mortes acumuladas. O Sindicato defende de forma intransigente o lockdown porque acredita que somente com medidas mais efetivas seria possível reduzir o número de mortes, assim como defendemos um auxílio emergencial de R$ 600 para oferecer aos segmentos mais vulneráveis da população condições mínimas para que essas pessoas possam ficar em casa e se alimentar com alguma dignidade. Vacina já para todos e todas também é uma das nossas reivindicações”, lista Lizandre.

A epidemiologista diz que, de maneira geral, o lockdown, no sentido estrito da palavra, foi exceção no Brasil. Ethel afirma que a pandemia tomou uma conotação política e praticamente inviabilizou a adoção de medidas mais restritivas que seriam necessárias para conter as transmissões.

De acordo com a professora, estados e municípios monitoram os números da covid e a partir desses dados apertam ou flexibilizam as medidas, numa espécie de “efeito sanfona”, abrindo e fechando. Ela acredita que a gestão da pandemia vai seguir nesse modelo “sanfona”, com os gestores monitorando, abrindo e fechando o comércio e os serviços. “Lockdown virou um palavrão. No final das contas, praticamente não tivemos medidas de fechamento país afora”.

Projeções

A professora adverte que a tendência é que durante o mês de abril os casos novos de covid e mortes se mantenham em patamares elevados no Espírito Santo e nos demais estados. A epidemiologista insiste que esse cenário só vai se alterar com a ampliação da vacinação.

Até 18 de abril, de acordo com dados do GeoCovid, o Espírito Santo registrava média móvel de 72 óbitos. Num total de 8.673 óbitos acumulados. A média móvel de casos novos era de 1.818. A taxa de ocupação de leitos de UTI nesta segunda-feira, 19, estava em 91%.