A alta lucratividade dos bancos privados no Brasil não tem como contrapartida a concessão de crédito para o desenvolvimento regional. Muito pelo contrário. São os bancos públicos que fazem o papel de financiar os pequenos e médios investimentos e nas regiões mais distantes do país. Revelam esse cenário os dados apresentados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) durante a oficina Desigualdade social se combate com bancos públicos fortes, promovida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) no Fórum Social Mundial 2022, no formato on-line, nesta quinta-feira, 5.
Segundo informações do Banco Central de 2019, que se mantém nos últimos anos, a concentração do crédito é em São Paulo. Naquele estado são 95 bancos concedentes de crédito, sendo que os privados ofertam 81% do montante e os públicos 18%. Já no Acre, são apenas seis bancos concedentes de crédito, sendo que 95% dos valores emprestados vêm dos bancos públicos e somente 4,9% dos bancos privados. No Espírito Santo, doze bancos oferecem crédito, sendo que 92% do montante vêm de instituições públicas e 7,8% de privadas. Em todos os estados, com exceção de São Paulo, o crédito oferecido por bancos públicos fica acima de 65% do total.
Ainda com base nos dados do Banco Central de 2019, 46% das operações de crédito no Brasil foram realizadas por bancos públicos. 80,4% (R$ 608,8 bilhões) do crédito imobiliário e 71% do crédito rural também foram ofertados por essas instituições. Estão nos bancos públicos 62% das poupanças do país. O número de agências desses bancos soma 45,6% do total.
Altamente rentável
“Os bancos brasileiros são eficientes na gestão dos seus lucros. Mas esse sistema financeiro altamente rentável é altamente concentrado no Sudeste e não dá conta desse país continental”, afirma o técnico do Dieese e doutor em Economia Fernando Amorim Teixeira, citando matéria publicada no jornal Valor Econômico no dia 18 de abril que tem como manchete Dos dez bancos mais rentáveis do mundo, quatro são brasileiros. A notícia cita três privados, Santander, Itaú, e Bradesco, além do Banco do Brasil.
“Se a gente não tivesse Banco do Brasil, Caixa, BNDES [além dos estaduais], se não tivesse uma institucionalidade financeira pública, imagina o que iria acontecer no restante do país além de São Paulo…”, diz o técnico do Dieese.
Desafios
O economista destacou que alguns desafios estão colocados para o debate, especialmente neste ano eleitoral, quando se pensa o futuro da nação. Um deles é como lidar com o endividamento crescente das famílias brasileiras e empresas de menor porte. A partir do agravamento da crise econômica provocado pela pandemia da covid-19, o endividamento aumentou, sobretudo a busca do crédito para consumo de itens básicos, como compra de alimentos e pagamento de contas. “Essa não é a saída, pois coloca as famílias nas mãos do sistema financeiro”.
Outros desafios são lidar com a heterogeneidade e assimetrias regionais e setoriais e desigualdade sociais, assim como pensar nos riscos e oportunidades das novas tecnologias – as chamadas fintechs – e as novas formas de privatização por meio de fatiamento e venda de subsidiárias, buscando menor resistência e maior celeridade dos processos.

