A unidade da classe trabalhadora nas lutas por um projeto de Brasil que respeite e garanta dignidade e direitos aos povos originários, negras e negros, trabalhadores e minorias vítimas hoje da política econômica e social implantada no país foi a tônica na mesa de abertura do 7º Congresso Estadual dos Bancários e das Bancárias, realizada na noite desta sexta-feira, 13, no Hotel Praia Sol, em Nova Almeida, em Serra.
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A mesa reuniu representantes de entidades dos movimentos social e sindical. “Essa mesa nos inspira, e representa nossa ancestralidade resistente. Primeiro a resistência indígena, depois a negra, a sindical e popular. Essa resistência fala da necessidade de um país diferente, que respeite a nossa multiculturalidade e multirracialidade, que inclua, e não exclua, que apresente como promessa de vida as possibilidades de emprego, renda e segurança, tanto alimentar como física. Para que o povo brasileiro expresse sua grandiosidade como povo trabalhador. Nós vamos vencer, porque nós ousamos lutar”, afirmou a coordenadora geral do Sindicato, Rita Lima.
Ela lembrou que a data de 13 de maio, quando se inicia o congresso, é dia de denunciar as desigualdades sociais e raciais a que são submetidos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, especialmente os negros e as negras.
Representando o povo indígena, Paulo Tupinikin, coordenador da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), falou das lutas enfrentadas com apoio de entidades capixabas no processo de demarcação de terras no Espírito Santo. “Hoje, temos um governo que está rasgando a Carta Magna, assim como os tratados internacionais. É um prejuízo muito grande para a população indígena”, afirmou.
Paulo Tupinikin destacou que as terras indígenas estão sendo abertas para a exploração do garimpo, que não está sendo respeitada a “tradicionalidade” para o reconhecimento dos territórios conforme prevê a Constituição Federal, numa referência ao marco temporal – uma ação que deverá ser julgada no Supremo Tribunal Federal (STF) em junho, defende que povos indígenas só podem reivindicar terras onde já estavam no dia 5 de outubro de 1988. “Enquanto existir um único indígena em pé, estaremos em luta”, disse ele.
A presidente da CUT, Clemilde Cortes, afirmou que os trabalhadores têm um inimigo em comum, que é o governo Bolsonaro, que pratica uma política de “esgoto”. “Na pandemia vimos a retirada dos direitos. Essa construção de unidade que essa mesa representa é fundamental. A gente precisa acima de tudo buscar unidade e ter sentimento de pertencimento de classe. O principal é pensar num governo que pensa na manutenção dos empregos”.
Filipe Skiter, representante da CSP-Conlutas, ressaltou a profunda crise social que vivemos, lembrando da guerra na Europa onde países imperialistas atacam países dependentes. “No Brasil, mais de vinte milhões de brasileiros estão passando fome. Nós, que somos de categorias mais organizadas, temos que olhar para os demais trabalhadores com muita solidariedade, pensar como classe trabalhadora, da mesma forma como pensar a terceirização, a precarização, e outros aspectos da crise social”, afirmou. Ele destacou que “a luta de classes tem inimigo comum, que está nos bancos, nas grandes empresas” e chamou para a tarefa que está na ordem do dia: “O governo Bolsonaro precisa ser derrotado imediatamente, nas ruas, não precisa esperar até outubro”.
Para Idelmar Casagrande, diretor do Sindicato e representante da Intersindical, a unidade da classe trabalhadora para a construção de um projeto político para o Brasil que atenda aos anseios da classe trabalhadora é algo que ultrapassa o processo eleitoral. “Essa aliança é necessária para levar de volta ao esgoto essa política do governo Bolsonaro, e precisa continuar no pós-eleição em defesa dos reais interesses dos trabalhadores, que não serão contemplados nas eleições”, afirmou.
Movimentos sociais
O representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Heider Boza, afirmou que “o pleno direito dos atingidos não tem como acontecer na sociedade em que vivemos hoje, no capitalismo”. Em acordos por reparações em tragédias como a provocada pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG), em 2015 – considerado um dos maiores crimes ambientais do mundo -, os trabalhadores “estão sendo tratados como mercadoria”. “Está sendo feito um novo acordo, o terceiro, que envolve os estados Minas Gerais, Espírito Santo e o governo federal. Os atingidos estão sendo tratados como mercadoria”, afirmou, informando que os recursos a serem recebidos pelo governo serão destinados à duplicação da BR 262, que nem sequer passa nas comunidades atingidas. “O governo usa um direito à reparação que é dos atingidos, duplica a rodovia federal para depois privatizá-la”, denunciou.
Os dirigentes do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Leomar Lírio, do Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), Valdeni Fagundes, e a dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Renata Couto, falaram das suas lutas específicas, da necessidade da aliança camponesa e operária e do compromisso com os trabalhadores na luta de classes. Também foi destacada a política de criminalização dos movimentos sociais crescente no governo atual e a necessidade de derrotar Bolsonaro nas eleições.
Gilberto Campos, representante da Unidade Negra, destacou a trajetória histórica do Sindicato dos Bancários em parceria com entidades do movimento negro no enfrentamento a esse modelo de exclusão em detrimento da classe trabalhadora. “Os bancários têm a ver com esse debate. Os negros são os primeiros a serem repelidos nas agências. O negro é suspeito padrão quando chega à agência. O racismo institucional, que alimenta o racismo estrutural, precisa ser abolido”, afirmou.
O presidente da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro dos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Fetraf RJ/ES), Nilton Damião Esperança, ressaltou a importância do 7º Congresso após dois anos de pandemia. “Os bancos foram considerados serviços essenciais, mas nem a vacinação para os bancários foi garantida. O que fizeram com os funcionários da Caixa [que ficaram na linha de frente da pandemia, pagando benefícios sociais] foi algo covarde”, afirmou. Ele destacou a irresponsabilidade do governo Bolsonaro ao lidar com a pandemia, o que “trouxe a perda de muitos companheiros bancários” entre as milhares de vítimas da covid-19.
Coral indígena
A solenidade de abertura contou com a presença do Coral Guarani da Aldeia Nova Esperança, formado por crianças, adolescentes e jovens indígenas. Com instrumentos e usando pinturas dos povos originários, fizeram a apresentação de um canto que fala da criação da natureza.
“Deus criou a água, nascentes, tudo que é a nossa riqueza. Agora o homem branco está destruindo tudo. A gente já não sabe mais como caçar, achar a pesca. Esse canto fala disso”, afirmou Araywopy Mirim (ou Silvana Carvalho da Silva, seu nome em português). Ela é do Conselho para Crianças da Aldeia Nova Esperança.
Fotos: Sérgio Cardoso

