Os brasileiros enfrentam na atualidade um cenário de crise em dimensões social, política e sanitária, intensificadas por medidas erráticas do governo Bolsonaro, que deixa um rastro de destruição de tudo que foi conquistado pela classe trabalhadora ao longo do Século XX e de ameaças para futuras gerações. A avaliação é do professor Rogério Silva, do Instituto Federal de Educação da Bahia (IFBA), mestre em Ciências Sociais, que participou da mesa de conjuntura do 7º Congresso Estadual dos Bancários e das Bancárias, neste sábado, 14.

Na avaliação de Silva, o governo de Bolsonaro alia uma agenda neoliberal e o neofascismo, expresso em ataques às organizações de esquerda, controle dos corpos, ataques à ciência e à cultura, contra instituições liberais entre outras ações. Na economia, vai cumprindo uma agenda nos marcos dos interesses do grande capital, o que o garante no poder.

 

A situação de crise econômica atual deixa o Brasil no mesmo patamar de 2009. Em uma década (2011 a 2021), o crescimento médio anual tem sido menor de 1%. Rogério Silva destacou três situações econômicas que se alimentam nessa crise: a alta da inflação, queda na renda do trabalho e uma profunda concentração de renda e riqueza. Por outro lado, 1% da população do Brasil concentra 48,9 % da renda patrimonial.

Convergência

O processo de convergência dos interesses neoliberais e de um setor de ultradireita neofacista que resultou nesse governo surge, segundo o professor, “na esteira de uma crise da economia brasileira que está diretamente associada a uma crise estrutural do capitalismo, que se desenvolveu, especialmente, a partir de 2008”. Isso gerou, continua ele, “uma nova alternativa à direita para aprofundar as desigualdades sociais e manter a perspectiva de acumulação dos super ricos no Brasil”, acrescentando que “há recortes de classes profundos em todas as crises do capitalismo”.

Ele diz que não podemos falar de fascismo instalado no Brasil, mas de uma liderança, o presidente, com núcleo neofacista que busca avançar. “Esse projeto precisa ser derrotado não só para o futuro da democracia liberal, mas para a vida em geral. O que está em jogo, sob ameaça, são as condições de vida dos trabalhadores e as organizações sociais e populares”. Experiências fascistas, lembra o professor, beneficiaram historicamente o grande capital. Assim, Bolsonaro vai sempre investir para consolidar um regime autoritário, mas não reuniu forças política e social até então para efetivar esse regime.

Ataques a direitos

A ascensão do bolsonarismo tem motivações diversas. O conservadorismo histórico da sociedade brasileira, que flerta com ideias fascistas, é um dos aspectos. Porém, segundo o professor, é preciso ir fundo nas raízes sociais dessa ascensão, que está relacionada a “frustrações com as experiências dos governos do PT que abdicaram do programa democrático e popular e de reformas estruturais para optar por um programa tímido de distribuição de renda”.

O projeto petista era um pacto social com a burguesia para construir, paulatinamente, um estado de bem-estar social no país. “Isso não é possível, pois a burguesia instalada no Brasil não tem interesse em fazer grandes concessões para a maioria dos trabalhadores. Sempre que se fez necessário na nossa história, a burguesia abdicou da democracia liberal para alternativas mais autoritárias, inclusive para controlar o movimento operário, setores explorados e oprimidos”.

Os mecanismos de mobilidade social, ainda que tímidos, mas que beneficiaram milhões de brasileiros, foram bloqueados pelos limites do governo do PT. Para ir além, o governo petista, que buscava a conciliação de classes, teria que mexer nos interesses no capital monopolista, do agronegócio, do capital financeiro.

O giro à direita, no início do segundo mandato da eleição da presidente Dilma, corroeu a base de apoio petista, criando condições para que a burguesia avançasse na perspectiva do golpe. “A burguesia viu a fragilidade de uma alternativa popular de governo. Então houve um movimento de retomada da agenda histórica do desmonte da Constituição de 1988, que garantia direitos dos trabalhadores, e de avançar numa perspectiva mais ortodoxa”.

Os ataques a direitos sociais e trabalhistas, que vinham desde a década de 1990, foram aprofundados após o golpe institucional contra a ex-presidente Dilma Rousseff, com a reforma trabalhista do governo Michel Temer (que sucedeu Dilma) e acelerados ainda mais no governo Bolsonaro. Assim, Bolsonaro vai conseguindo manter sua base de apoio no Congresso Nacional a partir da compra do chamado Centrão, além da sustentação dada pelas Forças Armadas e pelo grande capital.  “É a tutela civil-militar-burguesa que mantém o governo, mas com as suas condicionantes”.

Na avaliação de Rogério Silva, os movimentos social e sindical precisam manter o processo de mobilização permanente e não pensar que a campanha eleitoral vai derrotar o bolsonarismo. “Se não tiver mobilização social, corremos risco de golpes institucionais e derrota eleitoral. É preciso movimento de massa, e que seja apresentada uma plataforma política, com amplo movimento contra as privatizações, defesa dos serviços públicos, no campo da saúde e da educação; colocar na agenda a auditoria da dívida pública, medidas imediatas de combate à fome numa perspectiva de distribuição de renda; defesa de territórios indígenas e quilombolas, além de um novo patamar de organização dos movimentos, de forma autônoma e independente”.

Fotos: Sérgio Cardoso

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