“AI-5 da Caixa”. Foi esse o termo que ganhou destaque nas redes sociais nesse fim de semana para repercutir a censura imposta pela Caixa aos sites que usarem palavras proibidas pela direção da instituição. As agências de publicidade que trabalham com a Caixa, segundo a reportagem do site Congresso em Foco, foram orientadas a punir os veículos que desrespeitarem a regra, abatendo valores a pagar, suspendendo a campanha publicitária ou aplicando outras sanções, não especificadas pelas agências.
Na lista proibida da Caixa aparecem os nomes de pessoas ligadas a movimentos em defesa das minorias, como o da ativista Marielle Franco; do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, que militavam em defesa das comunidades indígenas. Pedro Guimarães, assédio, golpe e ditadura também constam na lista dos 239 termos vetados pela instituição.
A chamada blocklist (lista de bloqueio) é comum nos meios publicitários para evitar que termos indesejáveis, como nazismo, por exemplo, sejam associados ao anunciante. Mas uma lista tão extensa e com viés político é incomum no meio publicitário. “Isso é censura prévia pura. A expressão ‘AI-5 da Caixa’ para ilustrar mais esse desatino envolvendo a instituição não é exagero. Pedro Guimarães deixou a presidência do banco, mas o legado da sua gestão ditatorial, autoritária e abusiva, espelhada no seu chefe Jair Bolsonaro, permanece na Caixa”, afirma a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges.
A dirigente recorda que o Ato Institucional 5, publicado no auge da ditadura, em 1968, impôs, entre outras medidas autoritárias, a censura prévia à imprensa. “A censura prévia é a forma mais brutal de cercear a liberdade de expressão. Muitas pessoas temem um golpe de Bolsonaro para a instalação de regime autocrático. O golpe ainda não foi consumado de fato, mas elementos típicos de uma autocracia já estão presentes no nosso dia a dia. A censura prévia da Caixa é mais um exemplo”, critica a dirigente.
Caixa tenta normalizar ato de censura
Em nota, a Caixa informou “que a medida mencionada é uma prática de mercado que visa tão somente a isenção e proteção da marca, preservando a imagem da instituição ao realizar sua inserção em conteúdos aderentes às estratégias mercadológica e negocial do banco e ao seu planejamento de marketing”.
“A lista abertamente veta nomes e palavras que remetem a signos ligados à esquerda. Ao mesmo tempo, inclui nomes e expressões do núcleo duro de Bolsonaro, como seus filhos, para blindá-los. Não é por acaso que encontramos na lista proibida Pedro Guimarães e assédio. Ora, como um veículo que faz jornalismo sério vai se comprometer a riscar essas duas palavras de suas páginas, com as investigações envolvendo o ex-presidente da Caixa revelando novos fatos a cada dia?”, questiona a coordenadora-geral do Sindicato, Rita Lima.
Redes sociais
O episódio de censura da Caixa foi repercutido nas redes sociais principalmente por pessoas públicas e políticos. O youtuber Felipe Neto, que teve o nome incluído na lista, reagiu indignado no Twitter. “Usar um banco público, que pertence a todos nós, para proibir agências e sites de citarem o nome de um reles youtuber que depende da sua imagem pra tudo. Vamos ver o que a justiça vai achar disso, família Bolsonaro”.
A deputada federal Fernanda Malchiona (PSOL) não está na lista, mas se manifestou nas redes sociais em solidariedade ao youtuber. “Absurda essa censura contra @felipeneto. Isso é ilegal, além de uma clara tentativa de suprimir as vozes democráticas pelo seus posicionamentos corretos em favor das liberdades democráticas. @felipeneto conta comigo para todas ações contra esse absurdo”.
O também deputado federal e advogado Alencar Santana (PT) disse que vai representar contra o ato de censura da Caixa. “Na segunda [01] vou representar contra a presidenta da Caixa @soudanimarques pelos ilícitos que a empresa cometeu ao impor censura e controle da imprensa através de contratos de publicidade, novo escândalo do governo Bolsonaro”, escreveu o parlamentar no post.
A coordenadora do Sindibancários diz que as autoridades precisam agir rapidamente e com rigor para derrubar a censura imposta pela Caixa. “O instrumento da censura, seja numa empresa pública ou privada, é inaceitável numa democracia. O episódio envolvendo a Caixa se torna ainda mais grave porque o governo Bolsonaro aparelha uma empresa pública com função social para reeditar um dos instrumentos mais abjetos dos anos de chumbo. Não bastasse o escândalo de assédio sexual envovendo Pedro Guimarães, o governo volta a manchar a imagem da Caixa com um ato abominável de censura. É preciso devolver a Caixa ao povo brasileiro, que sempre soube honrar a imagem da instituição”, enfatiza Rita Lima.
Confira a lista das palavras proibidas:


