
Ação solidária contra fome fez parte do Dia Nacional de Luta para cobrar da Fenaban a entrega da proposta geral à categoria (Foto: Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)
Antônio Jesus, 51 anos, vende há seis anos cocadas numa pequena barraca ao lado do Teatro Carlos Gomes, no Centro de Vitória. Ele diz que viu suas vendas despencarem nos últimos anos em função da pandemia e já não tem mais o mesmo padrão de vida de antes. “Cada dia está mais difícil pra gente botar comida na mesa. Não consigo comprar as mesmas coisas que comia há alguns anos. O dinheiro ficou ainda mais curto depois que fiz um empréstimo no Banco do Brasil. Estou com umas três ou quatro parcelas em atraso. Ou como ou pago dívida”, desabafou o pequeno comerciante, que minutos depois cruzaria a praça Costa Pereira para garantir o almoço do dia.

Antônio Jesus vende cocadas há seis anos da Costa Pereira. Ele se queixa que a situação ficou mais difícil nos últimos anos
Antônio foi uma das 300 pessoas que se alimentaram com a “quentinha” distribuída pelo Sindicato dos Bancários/ES nesta quinta-feira, 18. A ação do Sindicato faz parte do Dia Nacional de Luta para cobrar da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) a entrega da proposta geral à categoria. Durante ação solidária, o Sindicato criticou a política predatória dos bancos, que batem a cada trimestre novos recordes de lucro à custa do endividamento das famílias brasileiras, das altas tarifas bancárias cobradas dos seus clientes e da exploração dos bancários e das bancárias, que estão adoecendo em função de metas abusivas e desumanas.

Quentinhas começaram a ser entregues a partir da meio-dia para trabalhadores e pessoas em situação de rua da região central
“Os bancos seguem lucrando com ou sem crise econômica. Vimos agora na pandemia os bancos passarem imunes à crise sanitária mais grave dos últimos 100 anos. Eles passaram tão ao largo da crise, que viram seus lucros crescerem nos últimos anos. O Bradesco [fez referência apontando a agência da Jerônimo Monteiro], por exemplo, como outros grandes bancos brasileiros, acumula recordes de lucro, mas continua demitindo em massa seus funcionários e apertando o cumprimento de metas”, criticou o diretor do Sindicato Fabrício Coelho.

Aposentado após sofrer um acidente de trabalho, Zé Carlos disse que está cada vez mais difícil para viver com um salário mínimo
José Carlos Pereira, 67 anos, enquanto aguardava as refeições serem servidas, ouvia atento a fala do sindicalista apoiado a uma muleta. Zé Carlos, como prefere ser chamado, conta que se acidentou no trabalho há cerca de 20 anos. Ele exibe um documento do INSS de aposentadoria por invalidez que lhe garante um salário mínimo mensal. “Eu era motorista de caminhão. Mas naquela época tinha de dirigir e ajudar a descarregar. Acabei sofrendo um acidente de trabalho ao descarregar uma carga”. Ele se queixa que tudo subiu. “Está difícil para viver com um salário mínimo”, desabafou o aposentado.
Depois de garantir o seu marmitex, o bombeiro hidráulico aposentado, que se identificou como Ailton e disse ter 73 anos, também reclamou da carestia. “Não sei mais o que é comer carne. Leite? Até esqueci o gosto”. Repercutindo as falas dos diretores e das diretoras do Sindicato sobre os juros abusivos dos bancos, ele contou que caiu na cilada do empréstimo consignado. “Não recomendo consignado a ninguém. Estou há meses com a aposentadoria pequenininha assim, oh”, disse aproximando o polegar do indicador para representar o quão diminuta ficou sua renda por causa do empréstimo.

Ailton não recomenda empréstimo consignado para ninguém. “Comeu minha aposentadoria”, reclamou
Ailton não está sozinho quando o assunto é endividamento. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada no início de agosto, apontou que o endividamento das famílias brasileiras chegou a 78% em julho. Segundo o levantamento, o comprometimento da renda com dívidas está em 30,4% desde abril, mas 22% dos brasileiros estão em situação ainda mais crítica, com mais da metade da renda empenhada para o pagamento de dívidas. No início de agosto, o presidente Bolsonaro sancionou a lei que amplia para 45% o teto de desconto para empréstimo consignado de beneficiários do INSS, o que deve aumentar o endividamento dos aposentados.
Enquanto Ailton fazia seu relato, o diretor do Sindicato Carlos Pereira de Araújo (Carlão) soltava a voz em tom de indignação para criticar a falta de compromisso dos bancos com os problemas sociais do país. “Estamos distribuindo esses marmitex em solidariedade à fome que atinge milhões de brasileiros e brasileiras país afora. Aqui mesmo, diante de nossos olhos, têm várias pessoas em insegurança alimentar. São pessoas que vão comer agora essa ‘quentinha’, mas que não sabem quando voltarão a fazer uma nova refeição. Elas dependem de parte da população que se mostra solidária ao problema da fome no país que é o maior produtor de alimentos do mundo”, assinalou Carlão.
O dirigente destacou que não há nada mais urgente que a fome. Ele chamou a atenção para o fato de os bancos se manterem indiferentes a esse e a outros problemas sociais do país. Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil, continuou o sindicalista, registraram lucro de R$ 51 bilhões no primeiro semestre deste ano. Nos anos anteriores, no auge da pandemia, os grandes bancos brasileiros bateram suas próprias marcas históricas de lucro.

Carlão, ao fundo, afirma que os bancos enriquecem à custa do endividamento da população. “Eles lucram com a crise. Os bancos são sócios da inflação e cúmplices da miséria”
“Não por acaso, esses quatro gigantes estão entre os dez bancos mais rentáveis do mundo”, apontou Carlão, se referindo a um levantamento da Economática feito com base nos dados de 2021. Ele ainda completou: “Também não é por obra do acaso que o Brasil lidera isolado o ranking dos países com a maior taxa de juros. Os bancos são sócios da inflação e cúmplices da miséria”.
Categoria em campanha
Em meados de junho, o Comando Nacional dos Bancários, que representa a categoria na mesa de negociações com a Fenaban, entregou a minuta com as principais reivindicações da categoria. “Nesses dois meses de negociações, completados na segunda-feira, 15, já repassamos a minuta ponto por ponto com a Fenaban, mas questões centrais como o fim das metas abusivas, combate ao assédio moral e sexual, proteção dos empregos, aumento salarial real, reformulação da PLR e reajuste maior dos vales alimentação e refeição continuam em aberto: os bancos não dizem nem que sim, nem que não. Falando de forma direta, os bancos estão nos enrolando”, protestou Carlão, que também integra o Comando Nacional dos Bancários.
“Mesmo com lucro e rentabilidade nas alturas, os bancos regateiam para repor a inflação e conceder um aumento real à categoria. Não há justificativa plausível para o setor mais lucrativo do país negar nossas reivindicações. Se o impasse persistir, a categoria não descarta a possibilidade de recorrer a uma greve”, advertiu Carlão. O dirigente falou sobre a importância da categoria bancária se manter mobilizada nesta reta final da campanha. “Precisamos de todos e de todas. Estamos num momento decisivo. É hora de se engajar de vez na campanha e ajudar a pressionar os bancos”, reiterou o dirigente.
Antônio de Jesus, o vendedor de cocadas, antes de se despedir da reportagem, fez um pedido. “Tem como dar um marmitex pro rapaz que está tocando ali?”, perguntou apontando o músico em frente ao Carlos Gomes que tocava violão e cantava solitário à espera da solidariedade dos passantes. “Não esqueça dele não”, suplicou Jesus.
Confira as fotos da ação:

