A partir desta segunda-feira, 10, os beneficiários do Auxílio Brasil podem solicitar o empréstimo consignado vinculado ao programa de transferência de renda. Depois de aumentar o benefício de R$ 400 para R$ 600 no período eleitoral, Bolsonaro arma uma cilada eleitoreira para endividar os beneficiários do programa que usam o dinheiro basicamente para comprar alimentos. O beneficiário que solicitar o empréstimo vai comprometer até 40% do benefício pelos próximos dois anos.
A taxa média de juros de 3,5% ao mês ou 42% ao ano é quase o dobro da cobrada hoje para o empréstimo consignado a aposentados do INSS, que fica na casa de 2%. Numa simulação, o beneficiário do Auxílio Brasil que emprestar R$ 2.569 (valor máximo), pagará 24 parcelas de R$ 160. No final desse período, irá pagar R$ 3.840 ou R$ 1.271 só de juros. O teto da prestação de R$ 160 (40%) é calculado sobre o valor real do benefício, que é de R$ 400. Não há nenhuma previsão orçamentária para 2023 que garanta a parcela de R$ 600. É importante alertar, que se o beneficiário for cortado do programa por algum motivo, a dívida continua sendo cobrada pelo banco ou financeira até o fim do empréstimo.
O diretor do Sindicato dos Bancários/ES Ronan Teixeira afirma que o consignado do Auxílio Brasil é uma bomba relógio armada por Bolsonaro programada para explodir em 2023. “Quando explodir, vai deixar estilhaços para todos os lados. As pessoas que contratarem o empréstimo vão ficar endividadas por dois anos. Essa redução de R$ 160 vai pesar no orçamento dessas famílias, que terão mais dificuldade para se alimentar. Resultado, corremos o risco de ter milhões de pessoas descendo para o subsolo da pirâmide, onde já se encontram 33 milhões de brasileiros que passam fome”, alerta o dirigente.
Ronan diz que cobrar juros sobre um benefício social que é para combater sobretudo a fome é um contrassenso. “É uma violência cobrar juros de pessoas que estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica. “O programa que nasceu como Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil por Bolsonaro, foi concebido com o propósito de transferir renda aos mais pobres. Quando Bolsonaro cria o empréstimo, ele descaracteriza a finalidade do programa”, critica.
Votos dos mais pobres
As pesquisas eleitorais apontam que Lula tem a preferência do eleitorado com renda familiar de até dois salários mínimos. Ante a vantagem do adversário do PT, o Auxílio Brasil e o consignando vinculado ao programa têm o objetivo de melhorar a votação de Bolsonaro entre os mais vulneráveis. Os empréstimos do Auxílio Brasil somados aos consignados concedidos a aposentados e pensionistas, que teve seus limites ampliados, pelas contas do governo, poderiam despejar mais R$ 77 bilhões na economia nos meses eleitorais, aquecendo o consumo e dando à população a falsa sensação de que o país está reagindo à crise econômica.
Ronan pondera que talvez o valor injetado na economia não chegue ao montante projetado porque o consignado do Auxílio Brasil não saiu na velocidade que o governo pretendia, que era meados de agosto. Houve resistência dos grandes bancos, destaca o dirigente, em integrarem a lista das instituições dispostas a operar o crédito. “Exceção da Caixa, que foi usada pelo governo para puxar a fila, os grandes bancos se recusaram a operar a nova linha de crédito. Não é porque os grandes bancos não se interessaram pelos ganhos, mas eles também devem ter medido o prejuízo de imagem e acharam melhor ficar de fora. Como eu disse, cobrar juros de pessoas vulneráveis que dependem de um programa de transferência de renda para sobreviver chega a ser cruel”.
Na lista divulgada nesta segunda-feira das 12 instituições inicialmente credenciadas pelo governo para operar o consignado, uma delas chama atenção. A Zema Crédito, Financiamento e Investimento é da família do governador reeleito de Minas Gerais, Romeu Zema. Ele é herdeiro e ex-administrador da empresa de crédito. No segundo turno, Zema declarou apoio a Bolsonaro.

