O Santander está enviando uma carta aos participantes do Fundo Gerador de Benefício (FGB), que mais parece um ultimato. Na correspondência intimidatória, o banco dá três opções aos clientes: resgatar seus recursos, repactuar as condições de remuneração do plano ou levar o dinheiro para outro administrador. Os casos já chegaram à Superintendência de Seguros Privados (Susep), que proibiu o Santander de intimidar seus clientes que têm planos de previdência privada administrados pelo banco.
O jornal Correio Braziliense, por meio da coluna assinada pelo jornalista Vicente Nunes, chegou a publicar a carta enviada pelo banco a um de seus clientes que adquiriu o FGB. Na carta, o Santander alega que o plano de previdência vem sendo atualizado por taxas muito acima do mercado, e que os valores não são mais compatíveis com a atual realidade. O banco “culpa” a conjuntura econômica mundial e até mesmo o aumento da expectativa de vida, que estaria gerando impacto no cálculo do produto.
Santander não respeita clientes e funcionários
Cláudio Merçon (Cacau), diretor do Sindicato dos Bancários/ES e membro da Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Santander, afirma que o desrespeito aos clientes reflete a atual política do banco, que também se repete da porta para dentro com os bancários e as bancárias da instituição. “O banco não se preocupa com seus clientes e funcionários. Só interessa ao Santander o lucro”.
Ele diz que é importante que casos como esse se tornem públicos para que a sociedade tenha conhecimento das práticas nada éticas do banco. “Ora, o banco sabe que as operações financeiras são de risco. Agora, não tem o menor cabimento o banco tentar transferir para o consumidor o eventual prejuízo de um produto porque a conjuntura prevista não se confirmou. O risco faz parte do negócio”, afirma.
O dirigente acrescenta que o caso ganha contornos ainda mais graves porque entre os participantes do FGB há também funcionários e ex-empregados do Santander. Cacau lembra que funcionários do Banespa entraram no fundo de previdência ainda na época em que o banco paulista estava sendo comprado pelo Santander. “O banco simplesmente quer impor a clientes, funcionários e ex-funcionários que fizeram a escolha de um plano de previdência, à ocasião, vantajoso, que abram mão de parte do seus rendimentos para ajudar o banco a recuperar seu lucro sobre esse produto. Chega a ser surreal. Será que o banco aceitaria rever os contratos se os clientes estivessem levando prejuízo por conta da conjuntura econômica?”, questiona o dirigente.
Justiça
Não é de agora que o Santander vem tentando impor a repactuação dos contratos ou a saída dos clientes do plano. A seguradora Evidence, controlada pelo Santander e que administra o FGB desde 2015, incumbiu um escritório de advocacia terceirizado a entrar com uma intimação na Justiça para pedir a repactuação compulsória de um plano de previdência do tipo FGB do segurado ou seu resgate ou a migração para outro plano, todas opções financeiramente desfavoráveis ao cliente. Exatamente o que vem sendo pedido novamente pelo banco aos participantes do plano na carta atual.
“É importante frisar que a palavra prejuízo está fora do vocabulário dos bancos”. O Santander, destaca Cacau, registrou em 2021 lucro líquido de mais de R$ 16,3 bilhões, alta de 7% em relação a 2020. “Apesar dos lucros sucessivos, o Santander vem fechando agências, demitindo trabalhadores e ampliando a terceirização de setores do banco. Essa política do Santander vem adoecendo os funcionários e as funcionárias, que estão sempre com sobrecarga de trabalho, reduzindo salários e precarizando as condições de trabalho”, critica o dirigente.

