Em nome de oito entidades e da representante dos Empregados no Conselho de Administração da Caixa, Rita Serrano, o senador eleito Wellington Dias (PT-PI) entregou nessa segunda-feira, 19, ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva um documento com propostas para enfrentar o processo de desmonte da Caixa, iniciado com Temer e intensificado por Bolsonaro. A intenção do grupo de entidades é subsidiar a equipe de transição do novo governo responsável pela área econômica nos projetos relacionados à Caixa.

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“Entendemos que a Caixa pode ser um importante alicerce para a distribuição das políticas públicas, apoiando a redução da desigualdade e o crescimento e desenvolvimento econômico, mas precisa de um olhar cuidadoso em relação ao legado dos últimos seis”, apontam os signatários do documento – Fenae – Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa, Fenag – Federação Nacional das Associações dos Gestores da Caixa, Advocef – Associação Nacional dos Advogados da CAIXA, Aneac – Associação Nacional dos Engenheiros e Arquitetos da Caixa, AudiCaixa – Associação Nacional dos Auditores Internos da Caixa, SocialCaixa – Associação Nacional dos Empregados da Caixa no Trabalho Social, Contec – Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito e Contraf – Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro.

Na avaliação da coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, o documento ganha importância porque apresenta ações urgentes e necessárias para a Caixa retomar seu papel social de banco público indutor do desenvolvimento socioeconômico do país, ao mesmo tempo em que inclui os empregados e as empregadas da instituição no centro da proposta. “O documento é muito assertivo ao apontar que a próxima pessoa escolhida para assumir a presidência da Caixa precisa ter sensibilidade para reconstruir os laços afetivos que unem o corpo funcional e a missão social da Caixa. Uma pessoa disposta a dialogar com os empregados e entidades, que mantenha as portas sempre abertas para as representações. É dentro desse princípio de valorização do corpo funcional, que a volta da gestão de pessoas, como ficou registrado no documento, é ‘inegociável’. Nenhuma melhoria pode ser concebida na Caixa sem uma área ativa que cuide diretamente dos mais de 87.121 trabalhadores e trabalhadoras do banco”, assinala Rita Lima.

A dirigente lembra que um outro conjunto de propostas foi entregue a Lula no início de dezembro pela ex-presidente da Caixa Maria Fernanda Coelho, mas ela pondera que o documento anterior não foi construído de forma ampla com as entidades. “A proposta atual se torna mais legítima por congregar oito entidades representativas. Além disso, o documento dá amplo destaque ao escândalo de assédio sexual e moral envolvendo o ex-presidente Pedro Guimarães. É imperativo que qualquer proposta de reestruturação da Caixa aborde, obrigatoriamente, esse que foi um dos episódios mais sombrios da história de mais de 160 anos do banco”, sublinha. 

Ela chama a atenção para um trecho do documento que destaca as sequelas deixadas, principalmente nas mulheres da Caixa, pela gestão Pedro Guimarães. “Na Caixa, um grande problema é recuperar a autoestima do corpo funcional, em especial com relação às  mulheres. Entendemos que nesta [nova] gestão da Caixa não se pode admitir a permanência e muito menos o retorno de gestores e dirigentes que se utilizaram dos seus cargos e comissões para promover a destruição da empresa e gerar medo e o adoecimento dos seus empregados e empregadas, por ação ou omissão. Os assédios e constrangimentos sofridos são uma lição do que não se deve tolerar nunca mais. A empresa viveu um período de escalada do assédio moral em todos os níveis. Ganhamos as páginas dos jornais com os assédios sexuais vindos da alta cúpula da empresa. As mulheres ficaram marcadas profissionalmente e emocionalmente”.

Saúde financeira em risco
Inicialmente, o documento intitulado “Uma nova Caixa para um novo Brasil” traça uma linha histórica a partir do impeachment da presidente Dilma para desvelar o processo de desmonte da Caixa, com geração de resultados não operacionais decorrentes da venda de ativos, e quebra de sua sustentabilidade sob os governos Temer e  Bolsonaro. 

Do ponto de vista financeiro e econômico, destaca o documento, foram efetuadas operações de descapitalização, com devolução ao Tesouro Nacional de parte dos Instrumentos Híbridos de Capital e Dívida (IHCD), venda de ativos rentáveis e essenciais à atividade da empresa. Também houve a exclusão da empresa de processos competitivos para operação de loterias, redução em 50% das receitas da administração do FGTS, dentre outras operações que demonstram a clara intenção de inviabilizar e, em seguida, privatizar a empresa. Este processo inclusive acaba por reduzir o valor da empresa, alienando-a em um momento inadequado, com extrema volatilidade no preço dos ativos, para grupos econômicos de interesse específico.

Gestão da fake news
Rita Lima afirma que a indústria da fake news, marca registrada do governo Bolsonaro, também roubou a cena na gestão de Pedro Guimarães. A dirigente recorda que o discurso de posse do então presidente da Caixa foi pautado na mentira. “Ele chegou dizendo que a Caixa devia mais de R$ 40 bilhões à União. Pedro Guimarães usou essa fake news para tentar justificar a abertura de capital de subsidiárias do banco nas áreas de cartões, seguros, loterias e asset. Segundo ele, o dinheiro seria usado para a Caixa pagar a dívida com a União. Não existe dívida nenhuma. Na verdade, houve um aumento de patrimônio líquido do banco”, explica. 

Rita Lima se refere a seis aportes do Tesouro Nacional, entre 2007 e 2013, por meio de Instrumentos Híbridos de Capital e Dívida (IHCD), que é uma operação reconhecida pelo mercado e que também é feita por outras empresas, inclusive o Banco do Brasil. A União fez os aportes porque a Caixa carecia de capitalização para ampliar sua capacidade de concessão de crédito, sem desrespeitar o Acordo de Basiléia.

As propostas apresentadas ao novo governo sugerem que a Caixa poderá atuar numa agenda transformadora nos próximos anos, contribuindo para a retomada do crescimento e desenvolvimento econômico, bem como para a inclusão social e redução das desigualdades, atuando como principal braço do governo no processo de distribuição de políticas públicas, cumprindo seu papel de fomento como banco público, e ainda, financiando, por meio de seu Fundo de Responsabilidade Socioambiental, ações que envolvam cidadania, cultura e meio ambiente. 

“Queremos a Caixa de volta como a conhecemos antes dessa hecatombe chamada Bolsonaro. Um banco forte, sólido, indutor do desenvolvimento econômico e social do país. Um banco que esteja ao lado das micros e pequenas empresas, da agricultura familiar, financiando crédito para habitação, saneamento, infraestrutura. Uma Caixa robusta que possa se colocar como esteio no enfrentamento da pobreza como a maior operadora do programa de transferência de renda (Bolsa Família). É essa Caixa que queremos. O Sindicato dos Bancários, como integrante do movimento sindical, vai continuar acompanhando de perto os desdobramentos dos trabalhos da equipe de transição do novo governo e fazendo todo o esforço para que a Caixa retome sua vocação social. As mudanças prometidas pelo novo governo, principalmente as de enfrentamento às desigualdades sociais, passam obrigatoriamente pelo fortalecimento dos bancos públicos”, enfatiza Rita Lima.
(Foto capa: divulgação)