
Os aposentados e as aposentadas de todo o país são homenageados no dia 24 de janeiro. Este ano, em especial, nesta mesma data, a Previdência Social completa 100 anos. O ano de 1923 marca uma das mais importantes conquistas da classe trabalhadora. À época, era promulgada a Lei Eloy Chaves, que tornou os ferroviários, no setor privado, os precursores do direito a um pagamento mensal durante a velhice. A lei federal, considerada a origem da Previdência Social no Brasil, edificou as bases para o aprimoramento do sistema que hoje garante o pagamento do benefício a mais de 37 milhões de aposentados e pensionistas (dado do INSS de dezembro de 2022).
“A luta sempre fez parte da história das aposentadas e dos aposentados deste país. O centenário da Previdência foi uma dessas lutas grandiosas que a classe trabalhadora travou para garantir o benefício da aposentadoria. A aposentadoria uma hora chega, mas a luta não para. Nossos direitos e conquistas foram cruelmente atacados nesses últimos seis anos. Primeiro no governo Temer, com a reforma trabalhista, e, em seguida, com a reforma previdenciária, sob Bolsonaro. Nossa luta continua com a expectativa de que o governo Lula revogue as perdas impostas pelas duas reformas. Trabalhadores da ativa e aposentados precisam seguir lutando para que daqui a 100 anos outras gerações de trabalhadores possam desfrutar do benefício de uma aposentadoria digna”, afirma Rita Lima, coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES.
“Dádiva”

Bernadeth Martins
Depois de mais de três décadas dedicadas à Caixa, Bernadeth Martins avalia que a aposentadoria é um descanso para o bancário. “A aposentadoria é muita relativa para cada pessoa. Para mim foi muito boa. Acredito que para a maioria dos bancários é uma dádiva se aposentar”.
Bernadeth, que já foi diretora do Sindibancários, onde esteve à frente da Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho, diz que a carreira bancária é muito desgastante, e aponta o grande índice de adoecimento físico e mental dos bancários e das bancárias. “São recorrentes os casos de Ler/Dort [lesão por esforço repetitivo], muitos trabalhadores apresentam estresse por causa das cobranças e das rígidas regras impostas”, afirma a ex-bancária, que depois de se aposentar fez uma pós-graduação em Psicologia e hoje atua na área.
“Melhor coisa na vida do bancário”

Wana Rocha, aposentada do BB
A visão de aposentadoria de Wana Maria Rocha é semelhante à da colega Bernadeth. “A aposentadoria é a melhor coisa que pode acontecer na vida de um bancário. A gente sai da pressão do dia a dia, desacelera. Nossas prioridades mudam. Aproveitamos melhor o tempo com coisas que realmente gostamos de fazer”.
Depois de 32 anos trabalhando no Banco do Brasil, há oito anos aposentada, Wana diz que ocupa seu tempo com violão e alguns cursos online. Atualmente se dedica a “hablar” espanhol e se enveredar num curso livre de filosofia.
Wana compartilha mais uma vez da colega da Caixa ao afirmar que a aposentadoria é um processo muito pessoal. “Tem gente que vive para o trabalho. Não tem vida própria. Ai sente dificuldade ao se aposentar. Outras tiram [a aposentadoria] de letra”, diz entre risos.
Plano de saúde é gargalo
Depois de 31 anos dedicados ao Itaú, Márcio Horta das Chagas decidiu aceitar o Programa de Demissão Voluntária (PDV) que lhe foi proposto e abreviar sua história profissional com o banco. Há três anos aposentado, o ex-bancário da agência Itaú do Centro de Vitória diz que a grande dificuldade para o bancário aposentado é continuar pagando o plano de saúde. “Aceitei o PDV principalmente porque o banco garantiu o pagamento do plano de saúde por cinco anos, o que garante a cobertura para mim, minha filha e esposa. Ainda tenho mais dois anos de plano, mas depois pesará bastante no meu orçamento”, prevê. Ele acrescenta: “E olha que recebo aposentadoria do INSS e uma parte do plano de previdência do Itaú. Mas, mesmo assim, o plano de saúde irá consumir boa parte do benefício. Fico imaginando para quem só pode contar com a aposentadoria do INSS”, lamenta.
Na opinião do Márcio, os bancos deveriam ter uma condição especial para o aposentado. “O ideal seria que o banco concordasse em subsidiar o plano de saúde para os aposentados. Esse é hoje o maior gargalo no orçamento. Justamente na fase da vida em que estamos com a saúde mais vulnerável e precisamos de uma assistência médica de qualidade, fica difícil manter o plano. Muitos colegas bancários acabam deixando o plano de lado porque não conseguem incluí-lo no orçamento”, aponta.
“É preciso planejar a aposentadoria”
Arlete Pavezi Paulo, 69 anos, é do tempo em que bancária mulher se aposentava com 25 anos de contribuição. “Me aposentei após 23 anos de Banestes porque já tinha dois anos de contribuição antes de entrar no banco. Acabei me aposentando nova, com 44 anos. Foi a melhor coisa da minha vida. Fui mãe muito nova. Quando me aposentei, minhas filhas tinham quatro e oito anos. Pude curtir bastante minhas filhas. Passeamos e nos divertimos muito”, recorda.
Há 22 anos na Banespar, Arlete conta que tinha planos para se aposentar. “Acabei me dedicando à causa do aposentado. Essa atividade preenche meu tempo. A ociosidade pode levar o aposentado à depressão”, alerta. A ex-bancária do Banestes, atualmente na Diretoria de Ação Social da Banespar, representa a entidade nos conselhos municipais de Direitos Humanos, do Idoso e da Mulher. “Tenho uma vida bem agitada”, comemora.
Formada em direito desde 1980, Arlete diz que a militância na associação e o trabalho voluntário que desenvolve na igreja (leciona aulas de bordado) ocupam completamente seu tempo. “Acabei me envolvendo com essas atividades e não quis exercer a advocacia”.
“No Dia dos Aposentados, o Sindicato dos Bancários parabeniza esses trabalhadores e trabalhadoras, que também são representados pela entidade. Vamos seguir juntos e atentos para que possamos ampliar nossos direitos como aposentados e aposentadas. É importante nos mantermos firmes na defesa da Previdência Pública para que ela possa continuar sendo um direito de todos e todas”, enfatiza Rita Lima.
A coordenadora do Sindicato acrescenta que as conquistas e os direitos trabalhistas foram negados à classe trabalhadora durante o governo Bolsonaro, especialmente aos mais jovens, que ingressaram no mercado informal a partir de relações trabalhistas cada vez mais precarizadas. “Por isso nossa luta pelo restabelecimento dos direitos trabalhistas e pela manutenção de uma Previdência Pública forte e longeva são questões primordiais na pauta dos movimentos sindicais e da classe trabalhadora”, finaliza Rita Lima.

