
Hoje, 14 de março, faz cinco anos dos assassinatos da então vereadora do PSOL Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Muitas pessoas preferem contar dia após dia a morte de Marielle, para lembrar que faz 1.826 dias que o crime continua sem solução. A polícia do Rio de Janeiro ainda não descobriu quem encomendou a morte de Marielle ou tampouco sabe qual foi a motivação do crime. Desde o dia 14 de março de 2018, cinco delegados e três equipes diferentes de promotores estiveram à frente das investigações, que avançam a passos lentos. Até agora estão presos o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz, acusados pelas mortes – o primeiro por efetuar os disparos; o segundo por conduzir o veículo usado para cometer as execuções.
A diretora do Sindicato dos Bancários/ES Bethânia Emerick afirmou que, com a mudança do governo federal, há uma expectativa positiva de que o crime seja finalmente esclarecido e os mandantes julgados e punidos no rigor da lei. “Durante os últimos quatro anos a democracia foi diariamente atacada e as instituições ameaçadas. Conseguimos derrotar Bolsonaro e salvar a democracia. Estamos agora tentando reconstruir o país. Nesse cenário de terra arrasada legado por Bolsonaro, sabemos que esse processo de reconstrução tem inúmeras prioridades, mas temos a certeza de que uma das principais é identificar os mandantes deste crime. Como disse Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, elucidar o crime de Marielle é dever da democracia”, enfatizou a dirigente.
Nesta terça-feira, em sua conta pessoal no Twitter, Anielle manifestou o sentimento sobre os cinco anos da morte da irmã: “Hoje é o dia de reforçar nosso compromisso de estado por memória, justiça, verdade e reparação. Sigo lutando por você, Mari, e por todo corpo negro que já tombou. Saber quem mandou matar Marielle é um dever da democracia”, ressaltou.
Em outro post, Anielle acrescentou: “Meia década, Mari. Já se passaram 5 anos desde que nos tiraram você e Anderson. Cinco anos de saudade, de luta, de busca por justiça sobre um crime político, que ecoou mundo afora, de uma mulher negra, mãe, bissexual, defensora dos direitos humanos, que foi brutalmente assassinada com 5 tiros na cabeça saindo do seu exercício político”.
A ministra da Igualdade Racial ainda afirmou que já apresentou ao presidente Lula proposta de projeto de lei que institui o Dia Nacional Marielle Franco de Enfrentamento à Violência Política de Gênero e Raça. “É por ela, por minha família, mas também por todo o país. O dia de hoje é o dia que propusemos ser o Dia Nacional Marielle Franco”, postou Anielle. A proposta do projeto de lei tramita no Congresso Nacional.
“Luto em luta”
Em uma das declarações que deu à imprensa, Anielle destacou que o crime que tirou as vidas da irmã e de Aderson foi meticulosamente arquitetado. “A gente segue nessa luta, nessa batalha árdua, de transformar luto em luta, fazendo com que a voz da Mari ecoe e chegue em todos os lugares do mundo. Espero que a gente não precise de mais meia década de espera”.
Diversas organizações sociais também fizeram manifestações nas redes sociais para registrar os cinco anos dos assassinatos de Marielle e Anderson. A ONG Criola, que há 30 anos milita na defesa e promoção de direitos de mulheres negras cis e trans, fez um fio no Twitter em menção aos cinco anos da morte de Marielle para lembrar que o Estado brasileiro governa por meio do racismo patriarcal, e faz do corpo das mulheres negras os alvos preferenciais de controle, de violação e da punição. “Essa violência atinge corpos negros por meio das políticas da precariedade e vulnerabilidade; assassinatos; punição sistemática, apropriação e destruição do corpo e da saúde das mulheres negras”, escreveu a ONG.
Mais à frente, a ONG Criola relembrou os casos de outras mulheres negras assassindas. “Hoje lembramos de Marielle, assim como no dia 16 lembraremos dos 9 anos do assassinato de Cláudia Silva Ferreira, aos 38 anos, pela PM do Rio de Janeiro”. Em seguida completou: “Casos como os de Marielle e Cláudia mostram o quão violenta essa estrutura é para as mulheres negras, suas comunidades, famílias e mães. São as filhas e filhos das Sebastianas, das Marinetes, das Mônicas, das Ana Paulas, das Mirtes, das Luanas, das Yvonnes… e de tantos lugares como Costa Barros, Jacarezinho, Morro da Congonha…São famílias que continuam sendo punidas diariamente pela falta de respostas e Justiça. Juntamos nossas vozes àquelas que lutam por justiça, memória e reparação: quando a justiça brasileira irá solucionar esses casos?”.
“Eu sou porque nós somos”
A diretora do Instituto Marielle Franco, Lígia Batista, afirmou que o ciclo de impunidade que envolve o crime é um reflexo da dificuldade estrutural de acesso à Justiça por parte de familiares de mulheres negras e, em especial, defensoras de direitos humanos vítimas do Estado. A site Metrópoles, Lígia deu uma declaração semehante à de Anielle: “O assassinato de Marielle é um atentado à democracia e enquanto esse caso não tiver uma resolução, essa democracia fica em xeque. Ainda assim, não vamos nos calar e seguiremos em coro, somadas a tantas vozes ao redor do Brasil e do mundo, que fazem ecoar esse grito por justiça por Marielle e Anderson”.
Bethânia Emerick destacou o ponto da fala de Lígia que defende a mobilização permanente da sociedade na cobrança por Justiça. “É com união e luta que conquistaremos Justiça no caso Marielle e Anderson”. A dirigente recordou de uma fala da então vereadora Marielle, na Câmara do Rio de Janeiro, na ocasião do Dia de Luta das Mulheres, em 8 de março de 2017. “É preciso agir como se a revolução fosse possível. E só será possível com todos e todas. ‘Eu sou porque nós somos’”, disse Marielle citando a frase-mestra da filosofia de vida Ubuntu, que defende que o que cada um faz, ou que deixa de fazer, tem consequências na vida do coletivo. E completou a vereadora: “Do que nos leva e do que nos traz aqui como quinta vereadora mais votada”.
Foto montagem da capa é da ONG Black Women Radicals (@blkwomenradical), que registrou os cinco anos da morte de Marielle nas redes sociais

