No último dia 05, o Bradesco divulgou o resultado do banco referente ao 1º trimestre de 2023 (1T23). O lucro líquido de R$ 4,2 bilhões representa uma queda de 37,3% em comparação com o mesmo período de 2022. “Este é um resultado meramente transitório”, afirma o diretor do Sindicato dos Bancários/ES Fabrício Coelho. “É como se fosse uma queda para cima”. O dirigente explica que o banco está investindo na reestruturação do banco para colher esses resultados mais à frente. Ele acrescenta que a Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) também é enganosa.

A partir de 2017, lucro do Bradesco sempre esteve acima da casa dos R$ 19 bilhões
Segundo Fabrício, nos últimos anos o Bradesco vem fechando agências e postos de trabalho em todo o país. Em janeiro deste ano o Bradesco empregava 86.212 trabalhadores, com queda de 1.276 postos de trabalho em 12 meses e de 2.169 postos fechados em relação ao trimestre anterior. “Enquanto o número de funcionários despenca, o de clientes só aumenta”, aponta o também dirigente do Sindibancários/ES Iracélio Lomes.
O Bradesco ganhou 1,9 milhão de novos clientes apenas nos nove primeiros meses do ano passado , totalizando mais de 101 milhões de clientes. Iracélio diz que essa desproporção na relação cliente e funcionários recai nas costas do trabalhador, que fica sobrecarregado. “Na prática significa que o funcionário está sujeito a metas cada vez mais abusivas. Esse ambiente de pressão aumenta o adoecimento físico e psíquico do trabalhador. O banco, por sua vez, aumenta suas margens de lucro”. O dirigente destaca que neste momento o Bradesco está gastando com rescisões, mas, em breve, esse investimento irá retornar em lucros estratosféricos.
Periferia do ramo financeiro em ascensão
Dentro desse processo de reestruturação, Fabrício afirma que o Bradesco passou boa parte das operações que eram realizadas nas agências Bradesco para os chamados correspondentes bancários. De acordo com Fabrício, os postos de trabalho encolhem no setor bancário ao mesmo tempo em que aumentam na periferia do ramo financeiro. “Os correspondentes bancários recebem, em média, salários e benefícios quatro vezes menores em comparação com os bancários. Além disso, trabalham pelo menos 50% a mais que um bancário”, ressalta o dirigente.
Fabrício cita como exemplo desse arranjo de precarização do trabalho a situação do Espírito Santo. De acordo com ele, o Bradesco tem cerca de 700 funcionários no Estado. “Hoje os trabalhadores em correspondentes bancários no Bradesco Expresso já passam de 300. São trabalhadores em condições precárias de trabalho que fazem as operações inerentes à função de caixa e até comercialização de produtos e serviços do banco, como abertura de conta, cartão de crédito, entre outras transações. Não por acaso, continua o sindicalista, os caixas se tornaram um profissional em extinção nas agências do Bradesco. “Esse processo de reestruturação retornará em lucro muito em breve. É um investimento com retorno garantido”, insiste.
Valores superdimensionados
No segundo semestre de 2022, com a disputa eleitoral acirrada entre Lula e Bolsonaro, as incertezas políticas que pairavam sobre Brasília se estenderam para o mercado. Os bancos passaram a fazer previsões pessimistas para o último quadrante de 2022 e para este ano. Com a economia asfixiada pela taxa de juros de 13,75% imposta pelo Banco Central, os bancos aumentaram consideravelmente a Provisão para Devedores Duvidosos (PDD).
Desde o ano passado, com o tombo do grupo Americanas, cujo Bradesco era um dos principais credores, o banco já havia avisado que aumentaria a provisão para este ano. O Bradesco aumentou a PDD de 13% para 22%. Em valores são R$ 32,3 bilhões provisionados para este ano. Só no primeiro trimestre a PDD foi fixada em R$ 9,7 bilhões.
Iracélio adverte que essas provisões, geralmente superdimensionadas, são na verdade uma jogada dos bancos. “Os bancos se aproveitam do vácuo na legislação e arbitram os valores da PDD a seu bel-prazer. No Brasil, diferentemente da maioria dos países, não há uma legislação para regular essas provisões. Cada banco fixa o valor a partir do seu balanço financeiro, da dívida pública, incertezas do mercado, cenário político e outras variáveis. Essas provisões, muitas vezes exageradas, vão aparecer mais à frente e alterar o resultado do banco para cima. Em outras palavras, esse lucro anunciado no 1º trimestre de R$ 4,3 bilhões do Bradesco, que embute uma PDD de R$ 9,7 bilhões, aliado à reestruturação do banco, com demissões, fechamento de agências e transferências das operações para correspondentes bancários, devem aparecer em resultados futuros ainda mais expressivos”, afirma Iracélio.

