Lula observa identificação funcional de Rita Serrano durante cerimônia de posse da então presidenta, em Brasília (foto: Valer Campanato/Agência Brasil)A tragédia que estava sendo anunciada há meses, precisamente desde de julho, se confirmou. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu demitir a presidenta da Caixa Econômica Federal, Rita Serrano. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira (25) durante uma reunião no Palácio do Planalto. O cargo da agora ex-presidente da Caixa já tem dono. Assume o maior banco público da América Latina o ex-presidente da Funcef Carlos Antônio Vieira Fernandes, aliado de primeira hora do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). Nos bastidores de Brasília a notícia que circula é que Lira exigiu a Caixa de “porteira fechada”, ou seja, além do comando da instituição, ele exigiu as 12 vice-presidências para reparti-las com os partidos aliados do PP. 

“A saída de Rita Serrano é lastimável de todos os ângulos que analisamos. A lastimável, primeiramente, do ponto de vista da instituição e de seus empregados, uma vez que, nas mãos do Centrão, a Caixa passa a funcionar como um balcão de negociatas políticas eleitoreiras de Lira e de seus aliados. Afastando a instituição da sua vocação nata, que é promover o desenvolvimento socioeconômico do país, priorizando os segmentos mais vulneráveis da população”, afirma a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima. 

A Caixa, destaca Rita Lima, com Lira, passa a ficar novamente vulnerável à privatização. “O processo de vender a Caixa em fatias, iniciado pelo trio Bolsonaro, Paulo Guedes e Pedro Guimarães, pode ser retomado pelos aliados de Lira”. A dirigente afirma que a notícia também é trágica para o movimento sindical de maneira geral. “Lutamos muito sob o governo Bolsonaro para eleger Rita Serrano para o Conselho de Administração da Caixa. Ela fez um trabalho corajoso e de resistência ao governo Bolsonaro na representação dos empregados e das empregadas da Caixa no Conselho, sobretudo no escândalo de assédio sexual e moral protagonizado por Guimarães”. 

Rita Lima acrescenta que a demissão de Rita Serrano é um retrocesso também para o movimento feminista. “Ter uma mulher com o histórico de luta de Rita à frente da Caixa significava uma conquista monumental para nós, mulheres. Havia uma grande expectativa de que o governo Lula promovesse a presença de mais mulheres em cargos-chave da República. Infelizmente, vimos Ana Moser cair do Ministério dos Esportes para um fisiologista do PP. Outras mulheres, como a ministra da Saúde, Nísia Trindade, e Anielle Franco [ministra Igualdade Racial], para citar dois exemplos, também estiveram sob ataques cerrados das rapinas do Centrão”, aponta a dirigente.

Rita Lima destaca ainda os impactos políticos da decisão. “Sabemos que não está sendo nada fácil para Lula governar sob as rédeas curtas de Lira e do Centrão. Mas, a meu ver, tem algumas questões que são inegociáveis”. Rita Lima destaca que a Caixa é uma das instituições mais importantes do país do ponto de vista social. “A Caixa nasceu há 162 anos como aliada do povo brasileiros, sobretudo dos mais vulneráveis. Ao longo de sua quase bicentenária trajetória, a Caixa sempre assumiu o papel de agente de transformação social, pautando suas ações na inclusão e no combate à desigualdade. Acho que todos perceberam o papel vital da Caixa durante a pandemia, garantindo o pagamento do auxílio emergencial e outros benefícios à população”.

Nos quatro anos do pesadelo Bolsonaro, continua Rita Lima, vimos a tentativa do governo de desmantelar a Caixa e a usá-la como braço político”. O processo de desmonte da instituição, lembra Rita, teve seu ápice em 2021, com a venda da Caixa Seguridade – terceiro maior grupo segurador do país. “Esse foi o começo do fim que se anunciava, caso não tivéssemos evitados a reeleição de Bolsonaro. Com Lula eleito presidente, reacendeu a esperança de dias melhores para a Caixa e seus empregados. A escolha de Rita Serrano fortaleceu ainda mais essa esperança. Por isso é tão dolorida a demissão de Rita por tudo que a sua gestão representava para nós”, lamenta a dirigente.

Resistência e luta
A coordenadora do Sindibancários diz que é muito importante que o movimento sindical, as associações representativas e os empregados e as empregadas da Caixa se mantenham mobilizados em defesa da instituição. “Enfrentamos Bolsonaro, Guedes e Guimarães e agora vamos enfrentar o Lira e o Centrão. “Não vamos permitir que a Caixa seja usada como moeda de troca dessa política rasteira do Centrão. A Caixa tem uma reputação de 162 anos de serviços prestados à população brasileira e cabe a todos nós que a amamos mantê-la fiel à sua raiz: uma instituição forte, 100% pública, de natureza social e promotora da cidadania e do desenvolvimento do país”, finaliza Rita Lima.

Quem é Carlos Antônio Vieira Fernandes?
O economista Carlos Antônio Vieira Fernandes, aliado de Lira, é empregado de carreira da Caixa e já foi diretor da Funcef, fundo de pensão do banco, além de ter integrado a secretaria-executiva do Ministério da Integração Nacional em 2012, no governo Dilma, quando o PP comandava a pasta.

Mas o nome de Fernandes não foi escolhido ao acaso por Lira. Longe disso. No período que esteve à frente da Funcef, entre 2016 e 2019, o fundo funcionou como um balcão político para atender a aliados do PP. Na ocasião, o fundo acumulava um déficit de R$ 18 bilhões, mas essa não parecia ser a prioridade do executivo da Funcef. Fernandes vinha sendo alvo de críticas do movimento sindical e dos empregados da Caixa, que estavam insatisfeitos e preocupados com a gestão da Funcef. 

O uso político da Funcef e da Caixa, que também estava sob o comando do PP no governo Temer, chamou a atenção da imprensa. O blog do jornalista Vicente Nunes, do Correio Braziliense, repercutiu o fisiologismo do PP na Caixa e na Funcef. Diz um trecho da coluna escrita em 11 de janeiro de 2017: “Na Caixa, também comandada pelo PP, o quadro não é diferente. A sala de reuniões da diretoria se transformou em um grande restaurante para acomodar deputados e senadores do partido que procuram o presidente do banco, Gilberto Occhi”. 

Leia a nota do governo sobre a demissão de Rita Serrano

Nota oficial

Nomeação de novo presidente da Caixa Econômica Federal

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta quarta-feira (24/10), com a presidenta da Caixa Econômica Federal, Rita Serrano, e agradeceu seu trabalho e dedicação no exercício do cargo.

Serrano cumpriu na sua gestão uma missão importante de recuperação da gestão e cultura interna da Caixa Econômica Federal, com a valorização do corpo de funcionários e retomada do papel do banco em diversas políticas sociais, ao mesmo tempo aumentando sua eficiência e rentabilidade, ampliando os financiamentos para habitação, infraestrutura e agronegócio.

Na gestão de Serrano foram inauguradas 74 salas de atendimento para prefeitos em todo o país, cumprindo um compromisso de campanha.

O governo federal nomeará o economista Carlos Antônio Vieira Fernandes para a presidência do banco, dando continuidade ao trabalho da Caixa Econômica Federal na oferta de crédito na nossa economia e na execução de políticas públicas em diversas áreas sociais, culturais e esportivas.

Secretaria de Imprensa (SECOM)