Arthur Lira ao lado do filho Arthur César Lira, que é um dos donos da Omnia 360, empresa de corretagem que intermedia publicidade com a Caixa (foto: reprodução)

O Diário Oficial da União (DOU) desta segunda-feira (30) confirmou a exoneração de Rita Serrano da Presidência da Caixa Econômica Federal. Para substituí-la, Lula já anunciou Carlos Vieira, indicado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Com a Caixa sob seu comando, o deputado do PP (AL) deve intensificar as negociatas políticas envolvendo o banco. 

Antes mesmo de Rita Serrano deixar a Caixa, o deputado do PP já demonstrava ter influência sobre o banco. Lira assumiu a Presidência da Câmara em 2021, ano que coincide com a criação da empresa Omnia 360, que opera na corretagem de publicidade, isto é, faz a intermediação entre contratos de agência de marketing com empresas, especialmente as governamentais. 

Figuram como sócios da Omnia, cujo capital inicial foi de R$ 100 mil, Arthur César de Lira Filho, primogênito de Lira na relação com a ex-mulher de Lira Jullyene Lins, e Maria Luíza Cavalcante, filha de Luciano Cavalcante, amigo de longa data do presidente da Câmara. Ex-assessor de Lira, Cavalcante é alvo de investigação da Polícia Federal sobre desvios milionários no esquema dos kits de robótica vendidos ao Ministério da Educação. Completa o quadro societário da Omnia Ana Cláudia de Oliveira. 

Na semana passada, na ocasião da saída de Rita Serrano da Caixa e com o anúncio do aliado de Lira, Carlos Vieira, na Presidência da Caixa, voltou ao noticiário uma matéria publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, em 16 de junho deste ano, que aponta as intermediações da empresa do filho de Lira em contratos firmados entre agências de publicidade representadas pela Omnia e a Caixa. 

Segundo a reportagem do jornal paulista, a Omnia não tem contratos diretamente com a Caixa, mas recebe comissões que giram em torno de 15 a 20% das agências que representa. Três agências de publicidade se destacam nos contratos firmados com a Caixa: OPL Digital, RZK Digital, Gestão Publicidade. 

Ainda segundo a Folha, que obteve as informações da Caixa pela Lei de Acesso à Informação (LAI), o banco registrou 26 entradas de sócios da Omnia no banco entre 2021 e 2022, sendo quatro delas de Arthur César Lira Filho. O filho de Lira esteve na Caixa com representantes da RZK. O último registro de Arthur Filho é de abril do ano passado.

A Caixa, na ocasião da publicação da reportagem, em junho deste ano, recusou-se a informar os valores dos contratos com as três empresas que tiveram as campanhas intermediadas pela Omnia. O banco alegou se tratar de informação estratégica, passível de sigilo. 

Embora não se saiba especificamente os valores dos contratos celebrados com a Caixa, as três agências de publicidade, que também operam com o Ministério da Saúde e outras empresas públicas, coincidentemente registraram um salto no faturamento após a Omnia passar a intermediar os seus contratos, período que também coincide com a ascensão de Lira à Presidência da Câmara dos Deputados. 

Uma reportagem do portal Metrópoles aponta que a Gestão Publicidade recebeu do Governo Federal R$ 468 mil em 2020. No ano seguinte, quando a Omnia foi criada e passou a representá-la em Brasília, o valor foi multiplicado por cinco: passou para R$ 2,6 milhões. Em 2022, seguiu alto em comparação com o período anterior à aliança com a firma dos filhos de Arthur Lira e Luciano Cavalcante.

A RZK Digital, ainda segundo a apuração do Metrópoles, foi criada no mesmo ano da Omnia, 2021. Naquele mesmo ano, faturou R$ 1,7 milhão em verbas federais de propaganda. No ano seguinte, seu faturamento saltou para R$ 9,5 milhões. A OPL Digital multiplicou por dez seu faturamento, passando de R$ 1 milhão em 2020 para R$ 10 milhões em 2021 e 8,2 milhões em 2022 somente em contratos com o Governo Federal. 

Alerta
Para a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, as reportagens da Folha e do Metrópoles acendem um sinal de alerta. “Não podemos ser ingênuos de achar que as intenções de Lira com a Caixa são as melhores, que ele pretende fortalecer a instituição e mantê-lo alinhada à sua vocação de banco público e social. Durante o governo Bolsonaro, e agora sob Lula, é notório o apetite de Lira e do Centrão para se favorecerem da máquina pública. Se Lira já exercia gestão sobre a Caixa antes mesmo de ter um aliado seu no comando da instituição, imaginamos o que vai acontecer a partir de agora, que ele passa a dar as cartas na Caixa”, afirma. 

A dirigente lamentou mais uma vez a demissão de Rita Serrano. “Com dificuldade, mas aos poucos, estávamos avançando nas negociações com a Caixa. Saúde Caixa, Gestão de Pessoas, cobrança de metas eram pautas complicadas, mas que estávamos disputando com o banco. Mas sempre tivemos a certeza de que Rita Serrano queria o melhor para o banco, lutou e continuava a lutar pela Caixa 100% pública e protagonista do seu papel social no desenvolvimento do país”. 

Rita Lima destaca que a mobilização do movimento sindical, das associações representativas e dos empregados e das empregadas será ainda mais decisiva neste momento para blindar a Caixa dos interesses de Lira e do Centrão. “Atravessamos a gestão Bolsonaro e as empregadas da Caixa conseguiram denunciar os casos de assédio moral e sexual e pôr Pedro Guimarães no olho da rua. Sempre fomos de luta e vamos continuar lutando para que a Caixa não se torne balcão de negociatas políticas das rapinas de plantão”, enfatizou Rita Lima.   

(Foto capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil)