Na véspera do dia 1 de abril 1964, o general Mourão Filho já havia partido com suas tropas de Juiz de Fora (MG) em direção ao Rio de Janeiro para garantir a proteção do governador fluminense Carlos Lacerda, que estava entrincheirado no Palácio da Guanabara, temendo que as forças legalistas, puxadas pelos fuzileiros navais evitassem o golpe. Lacerda era um dos pilares civis que davam guarida ao golpe militar que estava sendo deflagrado para depor o presidente legítimo João Goulart (Jango).
No dia 31 de março, notícias sobre a intentona golpista já corriam por todo o país e chegavam no Espírito Santo. As militâncias políticas, sindicais e estudantis capixabas estavam reunidas para traçar estratégias de resistência em defesa do mandato de Jango e da democracia. Ainda no dia 31, os militantes decidiram pressionar o governador Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, para não aderir ao golpe e apoiar Jango. Como o governador estava ausente do Palácio Anchieta naquela dia, os militantes retornaram no dia 1 de abril e montaram vigília na porta do Palácio, cobrando um posicionamento do governador. A resposta veio só no dia seguinte. Por meio de uma nota dúbia, lida pelo próprio Chiquinho na frente do Anchieta, o governador não deixou claro se apoiaria ou não o golpe. Ele disse apenas que era a favor da democracia e da legalidade, mas isso os golpistas também diziam. Apesar da mensagem truncada, talvez movidos pelo otimismo, alguns militantes interpretaram a nota como uma manifestação de apoio a Jango. Os bastidores da história mostram, porém, que Chiquinho capitulou e havia decidido aderir ao movimento golpista.
Como primeira mensagem aos militantes capixabas de que o novo regime não aturaria “comunistas”, as Forças Armados emitiram uma lista com os nomes de 40 “subversivos” que deveriam ser presos imediatamente no Espírito Santo. Um dos alvos da polícia era Wantuil Siqueira, dirigente do Sindicato dos Bancários e funcionário concursado do Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, atual Banestes. “Eu simplesmente não entendi nada. A polícia me abordou no banco. A agência funcionava na Costa Pereira. Perguntei por que estava sendo preso. Os policiais responderam que eu era comunista, me botaram no camburão sem mais explicações e me levaram para a delegacia que ficava na Graciano Neves. Fiquei pouco mais de uma semana preso. Durante esse período, eles me interrogavam diariamente. Queriam saber qual era o meu envolvimento com os comunistas. Eu respondia que não tinha filiação partidária com nenhum partido político, mas eles não acreditavam”, recorda. Wantuil ainda seria preso mais duas vezes. Em uma delas, ficou detido no 3 Batalhão do Exército, em Vila Velha. As acusações eram as mesmas: envolvimento com os comunistas. Depois que era solto, Wantuil conta que voltava a trabalhar no banco e a desempenhar as atividades sindicais.
Hoje, aos 93 anos, o bancário aposentado do Banestes reflete sobre aquele período e suspeita que tenha sido preso por causa da sua militância sindical.
“Dediquei boa parte da minha vida à defesa dos trabalhadores. Acho que o regime militar me via como ameaça por estar sempre ao lado da classe trabalhadora. Nossa função era organizar a luta dos trabalhadores. Fazíamos piquete, greve e manifestações em defesa dos direitos dos trabalhadores. Tínhamos muito força para conscientizá-los”, avalia.
Militância na veia
No ano em que completou 18 anos, Wantuil se alistou no Exército, em Vitória, mas foi enviado para servir no Rio de Janeiro, onde serviu em Realengo. Após cumprir o serviço militar obrigatório, Wantuil voltou para Vitória e prestou concurso no Banco de Crédito Agrícola. “Trabalhava inicialmente com a carteira agrícola, carro chefe do banco naquela época. Mas depois passei por outros departamentos. Antes de me aposentar, trabalhava com a carteira de habitação”, recorda.
Wantuil conta que assim que entrou no banco, por volta de 1950, aos 19 anos, se associou ao Sindicato dos Bancários e iniciou sua militância sindical. “Eu percebi que a luta dos trabalhadores se organizava no meio sindical”. O bancário aposentado do Banestes conta que ele e alguns colegas tinham uma visão mais ampla da atuação sindical. “Tínhamos a preocupação de integrar a classe trabalhadora, independentemente do ramo de atividade. Foi dentro dessa proposta que fundamos o Conselho Sindical dos Trabalhadores do Espírito Santo”. Wantuil diz que o movimento sindical capixaba foi um dos pioneiros no país a organizar trabalhadores de várias categorias em uma espécie de central sindical, como se conhece hoje.
Na sua trajetória de militância sindical, Wantuil diz que sempre se preocupou muito com a situação dos trabalhadores que se aposentavam, num período em que a Previdência era bastante precária. O ex-sindicalista diz que foi delegado do IAPB – Instituto de Aposentadoria dos Bancários. Ele destaca que o IAPB oferecia um serviço médico de qualidade, além de oferecer linhas de crédito especiais aos bancários para o financiamento de imóveis, entre outros benefícios.
A fase boa do IAPB acabou em 1966, o governo militar fundiu os diversos institutos de aposentadorias de trabalhadores para criar o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Wantuil, na condição de delegado, muito ativo no IAPB, diz que a queda na qualidade dos serviços foi visível com a mudança imposta pelo governo militar. Ele recorda que os bancários tinham muita força no IAPB e conseguiam organizar suas pautas e obter conquistas para os trabalhadores.
Injustiçado
Há mais de três anos morando com a filha em São Paulo, Wantuil diz que foi vítima de uma grande injustiça cometida pela ditadura militar. O bancário aposentado afirma que não chegou a ser torturado fisicamente, mas que sofria tortura psicológica nos interrogatórios. “Insistiam que eu era comunista e exigiam o tempo todo que eu assinasse um tal documento, que eu me recusava a assinar”. Ele não se recorda se o teor desse documento o associava à resistência ao regime.
Vítimas da ditadura
Durante os 21 anos da ditadura civil-militar (1964 – 1985), A Comissão Nacional da Verdade aponta que ao menos 191 pessoas foram assassinadas e outras 243 seguem desaparecidas, elevando o número de mortos para 434. Segundo a organização internacional Human Rights Watch, outras 20 mil pessoas teriam sido torturadas no Brasil.
Wantuil está entre as vítimas que sobreviveram à ditadura. Ele diz que a Justiça lhe propôs uma indenização de R$ 100 mil reais. “Não aceitei. Estou com 93 anos. Há décadas eu espero essa reparação. Não vou aceitar esse valor. Fiquei indignado com a proposta”, desabafa.
Sobre os anos de chumbo, o bancário aposentado do Banestes avalia que a ditadura foi um grande erro. Ele diz que os militares tentaram impor a tese de que havia uma ameaça comunista, “mas não era nada disso. A história nos ensina que os problemas do país têm de ser solucionados sempre pela via da democracia”, afirma Wantuil.
Repercussão
A coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários, Rita Lima, se solidarizou com a história de Wantuil e destacou a importância da militância sindical como movimento de resistência ao golpe e aos 21 anos da ditadura civil-militar.
“A história mostra que o Sindicato dos Bancários esteve sempre ao lado da democracia, das liberdades, dos direitos humanos, ao mesmo tempo que sempre repudiou as atrocidades e todo tipo de violações cometidas durante os anos de chumbo. Nessa efeméride dos 60 anos da ditadura, não podemos jamais virar essa página infeliz da nossa história e simplesmente seguir em frente. Não temos como seguir em frente sem revisar esse período macabro”, enfatiza a dirigente.
Ela lembra que durante os quatro anos de Bolsonaro e no 8 de janeiro de 2023, um novo golpe se desenhou e por muito pouco não se concretizou. “Faltou um triz para Bolsonaro impor uma autocracia e pôr fim às nossas liberdades e enterrar a democracia neste país. Temos que repudiar com veemência hoje e sempre a ditadura e responsabilizar e punir todos que ousem ameaçar a democracia. Wantuil, felizmente, sobreviveu à ditadura e pôde nos contar a sua gloriosa história de luta sindical. Mas sabemos que outras centenas de companheiros e companheiras foram assassinados pelo regime. A todas essas pessoas que não estão mais entre nós, em nome do Sindicato dos Bancários, deixamos nosso pesar aos familiares e amigos dessas vítimas. Ditadura nunca mais!”, finaliza Rita Lima.
Foto capa: Arquivo Nacional

