A página mais infeliz da nossa história, a ditadura civil-militar que se estendeu por 21 anos no Brasil (1964 – 1985), completou 60 anos no dia 1º de abril. Para marcar a data, o advogado e ativista Francisco (Xico) Celso Calmon idealizou e coordenou a publicação “60 anos do Golpe – Gerações em Luta”. O livro reúne 60 artigos de autores que sobreviveram aos anos de chumbo. No dia 12 abril, sexta-feira, às 19horas, o Sindibancários/ES faz o lançamento do livro no Centro Sindical dos Bancários junto com um debate com a participação de Xico Celso e mais mais dois convidados: Jorge Almeida (professor da UFBA) e Ariel Cherxes (mestre em História Social pela Ufes). O evento é gratuito e aberto ao público em geral.
O Centro Sindical dos Bancários e das Bancárias fica localizado na Rua Ithobal Rodrigues dos Campos 125 – Ilha de Santa Maria – Vitória/ES).
Vítimas da ditadura
Entre os autores dos artigos, estão personagens de diversas partes do país que lutaram e resistiram à ditadura. Um desses personagens é Perly Cipriano, que estará ao lado de Xico Celso no lançamento do livro. Perly assina o artigo “O sonho não se realizou nem se esgotou”. Militante icônico da esquerda brasileira, Perly foi um dos que tinham consciência de que a democracia era inegociável e era preciso lutar por ela. Ainda muito jovem, o mineiro de Aimorés integrou as frentes de resistência no Espírito Santo. Perly, que seria mais tarde um dos fundadores do PT, foi preso pela primeira vez em 1965, depois em 1966 e 1967. Nessas três ocasiões, o estudante de odontologia passou curtos períodos no cárcere. Mas em 1970 ele seria preso novamente em Pernambuco. Condenado a 94 anos de prisão, Perly ficou 10 anos preso. Só foi libertado em dezembro de 1979, quatro meses depois de decretada a anistia.
Para Perly, a publicação é muito importante para marcar esse período sombrio da história do Brasil. Um dos militantes a cumprir uma das penas mais longevas da ditadura, ele admite que tinha a expectativa de que a redemocratização faria a revisão da história e responsabilizaria os militares pelos crimes cometidos durante dos anos de chumbo. “Mas eu renovo as minhas esperanças de que vamos ter a oportunidade de passar a limpo esse período da nossa história. Durante a ditadura, generais, coronéis e outros altos oficiais violaram os direitos humanos de companheiros e companheiras que lutaram para defender a nossa democracia. Ao violar direitos humanos, esses militares cometeram crimes contra a humanidade, e para esse tipo de crime não cabe anistia”.

Perly (da esq./dir., o último em pé) participa da greve de fome nacional dos presos políticos em apoio à luta pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita (foto: arquivo pessoal)
Ele acredita que pela primeira vez depois da ditadura está havendo avanços. “Estamos vendo generais e coronéis sendo investigados e espero que sejam julgados e presos. É a continuidade da luta. Nestas décadas mudei muito, mas não mudei de lado. Fiz da luta pelos direitos humanos uma de minhas bandeiras. Não carrego arrependimentos, nem lamentações, carrego apenas a tristeza de não ter podido fazer um pouco mais”, disse Perly, que saudou a iniciativa do Sindicato dos Bancários de promover o lançamento do livro.
O diretor do Sindicato Carlos Pereira de Araújo (Carlão) afirmou que a instituição se orgulha de poder apoiar o lançamento do livro e ajudar a divulgar essa passagem funesta e tão importante da nossa história para que ela nunca mais se repita. “Para nós é uma honra apoiar o projeto porque o Sindicato dos Bancários também foi uma importante frente de resistência à ditadura. Recentemente, registramos a trajetória do companheiro Wantuil Siqueira, funcionário aposentado do Banestes, que foi preso três vezes na ditadura por causa da sua militância sindical. Reforço o convite para que os bancários e bancárias, e a sociedade em geral, venham prestigiar Xico Celso, Perly e conhecer mais sobre os personagens dessa geração de luta. Ditadura nunca mais”.
Conferir a seguir a entrevista de Xico Celso sobre o livro ao jornal Correio Bancário
“Estamos numa democracia fragilizada, sob um fio de alta tensão”
Que memória você traz do dia do golpe?
Eu tinha 16 anos e fazia parte do movimento estudantil secundarista. Era do Grêmio do Colégio Estadual e era também secretário da União dos Estudantes Secundários do Espírito Santo.Eu estava com uma amigdalite violenta. Então, só no dia 2 eu fui procurar onde estava a resistência. Fui ali para a Praça 8, onde tinha uma banca que vendia jornais de esquerda, livros, e vi a banca destruída. Então, foi o meu primeiro impacto. Depois eu fiquei sabendo que o padre Valdir Ferreira, que era assessor do Dom João Batista e era assistente da Juventude Estudantil Católica, estava preso. Foi aí que eu fui tomando os primeiros choques de realidade do golpe.
E como aconteceu a sua prisão?
Eu fui preso em 4 de novembro de 1969. Fui sequestrado com duas companheiras, sendo que uma era minha namorada, que tinha 16 anos, e a outra era a companheira mineira que tinha vindo em fuga, junto com a Dilma Rousseff, junto com outros de Minas Gerais para o Rio. E aí começa todo um processo de pressão para você delatar. Eu peguei 59 dias de solitária logo no início. Fiquei 11 meses no cárcere, depois em liberdade condicional, quando transformaram a casa da minha mãe numa espécie de prisão domiciliar. Em resumo, é isto aí: tortura psicológica além das ameaças constantes de morte, de fuzilamento, mediam meu tamanho para ver se a cova dava, todo esse tipo de simulação, sempre ameaçando o estupro da minha namorada na minha frente, ameaçando colocar a minha mãe nua na minha frente também.
O golpe foi uma ruptura com o governo Jango. Na sua avaliação, o que estava em construção naquele momento?
Era a construção de um novo país. Havia um forte movimento sindical, tínhamos o movimento camponês, o estudantil e as chamadas reformas de base. Era um projeto de nação desenvolvimentista, soberana e com um viés de social democracia. Então você tinha a reforma educacional, a reforma agrária, a reforma fiscal, a reforma bancária, vários tipos de reforma que eram exatamente o que a gente poderia chamar um projeto de nação. Esse projeto incomodava tanto as elites políticas e econômicas conservadoras como o sistema imperialista norte-americano. Antes da ruptura com a democracia e o golpe ao governo de João Goulart, a gente vivia num país mais pobre, mas eu acho que mais feliz, muito ativo, muito produtivo, culturalmente, politicamente. Era uma geração – chamada geração 68, o ano que não acabou – rebelde no mundo todo contra os sistemas, os costumes. Era uma geração que se dedicava ao coletivo, ao sonho, à utopia, e não era cada um pensar no seu projeto individual.
O Brasil, diferentemente da Argentina, por exemplo, não puniu os criminosos da ditadura. Você acha que esse diferencial faz com que a nossa democracia ainda esteja fragilizada nos dias de hoje?
Sem dúvida. A falta da justiça de transição fez com que a democracia no trouxesse no ventre os entulhos da ditadura. Inclusive a lei de segurança nacional, que até pouco tempo atrás vigia. Se você, para sair de uma época ditatorial, para construir uma democracia, você não faz exatamente trazer a memória, a verdade, a criminalização dos agentes que cometeram as graves violações dos direitos humanos e a reparação aqueles que sofreram as violações, você está fazendo com que a impunidade faça parte da história, faça parte do DNA político do Brasil.
No livro você propõe uma reflexão sobre onde estávamos no momento do golpe e onde estamos hoje. Que lugar é esse que ocupamos agora?Nós estamos numa democracia fragilizada, sob um fio de alta tensão, com o governo cercado pelo que chamo de 3M: a mídia, os militares e o mercado, sem ter, em contrapartida, organização e mobilização populares capazes de dar um respaldo a esse governo para que ele possa ter uma certa segurança para enfrentar e encontrar qual é o flanco mais fácil para romper esse cerco. Isso a ponto de quase que explicitar que os militares formam um outro poder; de o presidente da República, que é o chefe de Estado e chefe de governo ter que falar: vocês não comemoram o golpe de 64 no dia 31, e meu governo também não vai repudiar e lembrar o golpe de 64! Isso mostra uma democracia ainda tutelada, apesar de os militares estarem humilhados porque têm envolvimento com a intentona de 8 de janeiro. Mas, evidentemente, que aí é uma questão de só quem tem todas as informações para saber que momento avançar, que momento recuar enquanto governo, não enquanto sociedade civil, tanto é que nós estamos mantendo o lançamento desse livro.

