O debate sobre as novas modalidades de contratação no setor financeiro abriu o encontro dos bancários e das bancárias dos bancos privados, realizado nesta sexta-feira (04) durante programação da Conferência Estadual da categoria do Espírito Santo. Ao longo do dia, os bancários também discutiram como os modelos de gestão dos bancos impactam o cotidiano dos trabalhadores bancários. O evento ocorre no Hotel Flamboyant, em Guarapari, e termina neste domingo (06).

Milena Alves, economista do Dieese
Para falar sobre o tema, o encontro contou com a participação da economista e técnica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Milena Alves. Durante sua explanação, a economista apontou as principais mudanças no sistema financeiro brasileiro, provocadas pelo avanço tecnológico, pela intensificação do neoliberalismo, reforma trabalhista, plataformização do trabalho, pelas políticas de austeridade, pela intensificação dos canais digitais, principalmente pós pandemia da Covid-19, entre outros fatores.
Essa profunda reestruturação pela qual passa o sistema financeiro impacta diretamente o trabalhador bancário. O aumento das demissões, o fechamento de agências e o crescente adoecimento psíquico da categoria são consequências diretas dessa mudança. Nos últimos cinco anos foram fechadas 3,2 mil agências em todo o país, sendo que 88% foram de bancos privados.
Emprego em risco
De acordo com os estudos do Dieese apresentado por Milena Alves, os bancários ainda compõem o núcleo central do emprego no ramo financeiro. No entanto, é uma categoria com queda significativa na contratação. De 2012 a 2021 houve uma queda de 13,21%, passando de 512,8 mil bancários para 442,6 mil.
A representação dos bancários no ramo financeiro também caiu drasticamente: de 59% em 2012 para 41% em 2021. No Espírito Santo, a categoria bancária que representava 59% do setor em 2013 passou a representar 48% em 2021.
Por outro lado, no mesmo período, explodiu dentro do ramo financeiro a contratação de trabalhadores em outros segmentos, como crédito cooperativo, administração de cartão de crédito, entre outras atividades.
Precarização do trabalho

Iracélio Lomes conduziu a mesa sobre a precarização do trabalho
Além da redução dos postos de trabalho bancário, outra mudança no sistema financeiro foi a precarização das contratações, advindas fortemente pós reforma trabalhista em 2017. Se por um lado, os bancários resistiram e garantiram os direitos conquistados, por outros, novos trabalhadores do ramo foram contratados com renda média mensal 37,5% menor que os bancários e com jornada de trabalho cerca de três horas a mais, em média.

Fabricio Coelho, dirigente do Sindicato
“Fizemos um importante debate sobre as transformações e as novas formas de contratação do sistema financeiro. São dados importantes sobre o avanço da precarização e a diminuição da categoria na contratação formal e o aumento da informalidade no sistema financeiro. São novas contratações que impõem desafios para as organizações dos trabalhadores. Precisamos organizar a classe e o trabalhadores precarizados. Essa é uma tarefa árdua, mas fundamental para resistir diante da retirada de direitos e avançar contra essas mudanças perversas”, enfatiza o diretor do Sindibancários/ES, Fabricio Coelho.
Outra cruel consequência dessa reestruturação é o aumento do adoecimento psíquico dos trabalhadores bancários, como destacou o dirigente do Sindicato Cláudio Merçon (Cacau). “A cobrança por metas e o assédio moral estão fortemente presentes na gestão dos bancos. Os bancários estão adoecidos, pois o ambiente de trabalho bancário se tornou altamente adoecedor. Não podemos aceitar essa realidade. É preciso organização e mobilização da categoria para lutar contra esses modelos de gestão”, enfatizou Cacau.
Investimento em tecnologia
A economista Milena Alves também falou sobre o avanço tecnológico e o impacto na categoria bancária. Atualmente, em média 11% dos profissionais dos bancos são de tecnologia da informação. De 2012 a 2021, houve um aumento de 70,4% dos trabalhadores dessa área, passando de 14,4 mil para 24,6 mil. Em 2024, R$2,98 bilhões serão investidos em infraestrutura e soluções tecnológicas.
Cerca de 53% dos bancos pretendem aumentar, em média, 28% a quantidade de profissionais em TI em 2024. Em 2022 quase oito em cada dez transações bancárias foram realizadas via canal digital.
Os bancos também avançam com as plataformas de atendimento digital. Cerca de 87% dos bancos adotaram estratégias ou práticas de inovação e 91% estabeleceram parcerias com startups em diversas áreas, como finanças, agronegócio, seguros, varejo, entre outras.

