
Bancárias e bancários do Santander aprovam minuta no Encontro Nacional dos Funcionários do Santander (Fotos: Contraf)
Nessa quinta-feira (06), mais de 100 delegadas e delegados de todo o país aprovaram a minuta de reivindicações específicas, que servirá de base para as discussões da renovação do Acordo de Trabalho Coletivo (ACT) aditivo. O documento será entregue ao Santander no dia 10 de junho. O tema saúde, que tem ocupado espaço importante nos congressos dos bancos públicos e privados, também ganhou destaque especial no Encontro Nacional dos Funcionários do Santander. O secretário de Saúde da Contraf, Mauro Salles Machado, apresentou a síntese da pesquisa “Modelos de gestão e patologias do trabalho bancário”. Segundo ele, há hoje nos bancos um clima organizacional crítico, marcado pela incerteza no futuro. “São reestruturações permanentes, demissões, fechamento de agências e terceirização, além do aumento da pressão por resultados. Somam-se a isso a gestão pelo medo, o ambiente hostil e a desregulamentação na legislação trabalhista”, resumiu.

Cacau destacou a importância da inclusão de novas cláusulas voltadas para a saúde
Para o dirigente do Sindibancários/ES e da Fetraf RJ/ES Cláudio Merçon (Cacau), o adoecimento da categoria, especialmente o mental, esteve no centro dos debates nas conferências do Espírito Santo e na interestadual. “Estamos vendo isso novamente nos congressos nacionais dos bancos públicos e privados. O assunto está na ordem do dia porque afeta diretamente as trabalhadoras e os trabalhadores dos bancos. Acho que houve um importante avanço no tema. Garantimos na minuta, por exemplo, a inclusão de uma nova cláusula para os neurodivergentes [variedade de composições neurológicas humanas. Os seres humanos são neurodiversos, pois não há duas mentes iguais umas às outras]”. Cacau também destacou a inclusão de doenças não ocupacionais (doenças degenerativas como câncer, diabetes, esclerose múltipla, osteoartrose, osteoporose, degeneração dos discos vertebrais, hipertensão arterial, Mal de Alzheimer, Mal de Parkinson, entre outras).
Na avaliação de Cacau, a minuta deste ano incluiu novas cláusulas que, se aprovadas na mesa de negociações, terão impacto positivo para as bancárias e bancários do Santander. O dirigente afirmou que foram incluídas na minuta propostas clausuradas no acordo dos bancários da Espanha como a redução da jornada de trabalho, cláusulas ambientais, para que o banco possa dar cobertura aos seus funcionários em caso de catástrofes e emergências climáticas. Foram consignadas na minuta propostas de valorização das cláusulas econômicas, que concentram as bolsas de estudo, os programas próprios e o PPRS.
Cacau sublinhou que esse conjunto de reivindicações precisa ser consolidado na mesa de negociações. “Este é o momento das bancárias e dos bancários se engajarem para criarmos, a partir de agora, uma mobilização permanente em defesa da nossa minuta.
Confira a seguir os principais pontos discutidos durante o Encontro Nacional dos Funcionários do Santander.

Vaccari faz explanação durante mesa sobre conjuntura
Análise de conjuntura
O cientista social e professor Moisés Marques e o ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo João Vaccari Neto fizeram uma ampla análise da conjuntura nacional e internacional. Para Marques, há atualmente um cenário de policrises, com pelo menos oitos crises acontecendo simultâneas (saúde, ordem social e governança, do sistema alimentar, segurança internacional, energética, ambiental, dos transportes e tecnologias da informação e econômica). “Nos próximos anos, muitas mudanças tecnológicas afetarão nosso trabalho. Além disso, conviveremos com a geopolítica de um mundo em transição. Ou seja, estamos diante de um cenário bastante complexo”, afirmou.
João Vaccari Neto criticou a postura do Congresso Nacional. “Não temos a maioria no Congresso e estamos reféns de um conjunto de deputados que está mais preocupado com a pauta dos costumes, já que não têm um projeto econômico para o País”, disse. “Precisamos avançar no debate da regulamentação do setor financeiro, pressionando para que ela ocorra de forma a respeitar os nossos direitos, conquistados com anos de organização. A luta dos trabalhadores passa por um momento difícil, mas nós precisamos continuar combatendo a precarização, e para isso precisamos mobilizar, denunciar, discutir, negociar e propor mudanças”, concluiu.
Saúde como prioridade
Após a análise de conjuntura, foi a vez do secretário de Saúde da Contraf, Mauro Salles Machado, apresentar a síntese da pesquisa “Modelos de gestão e patologias do trabalho bancário” para os delegados e delegadas do Encontro Nacional. O dirigente iniciou sua fala contextualizando as profundas mudanças por que passa a organização do trabalho bancário.
“Atualmente, vivenciamos nos bancos um clima organizacional crítico, marcado pela incerteza no futuro. São reestruturações permanentes, demissões, fechamento de agências e terceirização, além do aumento da pressão por resultados. Somam-se a isso a gestão pelo medo, o ambiente hostil e a desregulamentação na legislação trabalhista”, resumiu Mauro.
Segundo secretário de Saúde, esse conjunto de fatores se traduz em um “mecanismo adoecedor”, que se caracteriza pela busca do lucro, com aumento do ritmo de trabalho e a pressão por resultados, com metas abusivas, gerando um ciclo em que a remuneração variável está atrelada às avaliações. Tudo isso gera um aumento das violências e do assédio moral a que os bancários estão submetidos e, ao final, culmina no adoecimento.
Pesquisa
Foram apresentados os dados da pesquisa “Modelos de gestão e patologias do trabalho bancário”. A pesquisa, respondida por 5.803 trabalhadores bancários de todo o Brasil, apontou que 9% dos funcionários declararam estar em afastamento devido a licença-saúde e 15,5% dos respondentes declararam estar com atestado médico recomendando afastamento do trabalho.
Para 54,5% dos participantes, o principal motivo para buscar tratamento médico foi o trabalho e 76,5% declarou ter tido pelo menos um problema de saúde que considera relacionado ao trabalho no último ano. Quase metade dos respondentes (40,2%) disse estar em acompanhamento psiquiátrico e mais da metade (59,7%) informou estar em acompanhamento com outras especialidades. Entre os que estão em acompanhamento psiquiátrico, 91,5% estão utilizando medicações prescritas.
Os resultados apurados na pesquisa indicam presença intensa de todos os fatores e riscos psicossociais. Trata-se, portanto, de um resultado crítico que indica a alta ocorrência de situações associadas a um modelo de gestão pautado no controle e na vigilância, causando patologias da sobrecarga e da violência e múltiplos sintomas de adoecimento no nível físico, psicológico e social.
Destaques do lucro trimestral
Os delegados e delegadas do Encontro Nacional voltaram a se reunir para a apresentação da análise dos resultados do banco no primeiro trimestre de 2024 e emprego, com a economista e técnica do Dieese Vivian Machado. Ela relembrou que em 2023, a soma dos lucros dos cinco maiores bancos totalizou R$ 108,6 bilhões. Somente o Santander lucrou R$ 9,38 bilhões.
Já no primeiro trimestre de 2024, o lucro líquido dos três maiores bancos privados no Brasil somou R$ 17 bilhões. Nesse período, o Santander lucrou R$ 3,02 bilhões, uma alta de 41,2% se comparado ao último trimestre de 2023. Em consequência, a Rentabilidade sobre o Patrimônio Líquido (ROAE) do banco também subiu 3,5 p.p., atingindo uma das melhores rentabilidades que o Santander tem para o balanço global. “Ao considerar o lucro líquido global de € 2,852 bilhões, a unidade brasileira representou 19,7% do resultado do Grupo Santander”, destacou a economista.
Na sequência, Vivian abordou o crescimento da Carteira de Crédito do banco, impulsionado pelo segmento Pessoa Física e Consumo, bem como os negócios estratégicos, com destaque para os segmentos de cartões, consignados, financeira e agronegócio. A técnica do Dieese também abordou o crescimento dos investimentos em captação de clientes.
Sobre a inadimplência, a economista afirmou que ela se manteve estável, dentro da média do sistema. “As taxas de inadimplência estão caindo, mas ainda se mantêm acima do período anterior a pandemia”, destacou. Ainda segundo ela, as despesas de PDD reduziram quase pela metade. “No início de 2023, as despesas de PDD cresceram significativamente, acompanhando a alta da carteira, da inadimplência PF, do caso das Lojas Americanas e de outra empresa do atacado não detalhado pelo banco. Contudo, essas despesas estão se reduzindo a partir do primeiro trimestre de 2024”, informou.
Para finalizar, Vivian apresentou o crescimento do número de postos de trabalho no primeiro trimestre na holding Santander, em doze meses, embora o banco não tenha divulgado mais dados específicos de bancários. “O saldo, em 12 meses, é de 1.654 postos abertos, porém, no trimestre, foram fechados 401 postos de trabalho”, informou. O Brasil representa 27% do emprego global do Santander e 29,6% do número de agências. O banco também não publica mais o número de agências físicas, a informação é agregada como pontos de atendimento. No primeiro trimestre de 2024, o Santander fechou 89 pontos de atendimento e, em 12 meses, fechou 374 pontos.
“A mobilização contra o fechamento de postos de trabalho e agências é outra luta permanente”, disse Cacau. Ele também criticou a recente migração da área de crédito consignado do Santander para a empresa SX Tools, que também pertence ao grupo, sem qualquer comunicação prévia aos sindicatos.
Cacau diz que a migração para uma terceirizada do grupo é uma fraude na contratação. “Essa migração está afetando os colegas de São Paulo, mas é pedagógica para mostrar que o Santander não respeita seus funcionários”. Cacau adverte que com a transferência para a SX Tools, os trabalhadores não terão as garantias da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) bancária, que assegura direitos como PLR, VA e VR, auxílio-creche e outras conquistas. “Com a migração, as relações de trabalho são precarizadas e os gastos com pessoal caem, aumentando ainda mais as margens de lucro do Santander. Para o Santander, o lucro está acima dos trabalhadores e das trabalhadoras”, critica.

