O adoecimento mental é mais uma sequela do capitalismo contemporâneo e o Brasil vem se destacando negativamente nas estatísticas. De acordo com o Isma (International Stress Management Association), o Brasil é o segundo país no mundo com maior número de trabalhadores com Síndrome de Burnout. O Japão lidera o ranking. Dados da Previdência Social apontam que 288,9 mil trabalhadores foram afastados por doenças mentais em 2023 no país, contra 209,1 mil de 2022, um aumento de 38%.
O crescimento dos casos de doenças mentais acendeu um alerta no governo Lula, que em março deste ano sancionou a Lei 14.831, que prevê o certificado Empresa Promotora da Saúde Mental. Embora a medida represente um avanço, o governo ainda não nomeou os profissionais que irão tocar o projeto e tampouco definiu as regras que vão conceder a certificação para as empresas.
Enquanto o governo não regulamenta a certificação, os casos de adoecimento continuam escalando na maioria das categorias profissionais. Com a cobrança de metas como principal gatilho, a categoria bancária tem os maiores índices relativos de doenças mentais. A categoria responde por apenas 0,8% do estoque de empregos no país, mas registra 1,5% do total de afastamentos por doenças. “O adoecimento mental dos bancários está diretamente relacionado ao modelo de gestão opressor adotado pelos bancos. É um ambiente de pressão extrema por resultados. O bancário nunca desliga. Mesmo quando está longe do banco, continua pensando nas metas que tem de cumprir. O adoecimento é uma consequência desse modelo de gestão”, afirma o secretário de Saúde do Sindicato dos Bancários/ES Ronan Teixeira.
Conferência
O dirigente lembra que o adoecimento da categoria, não por acaso, foi tema central nas pautas deste ano no âmbito da campanha salarial da categoria. Durante a conferência estadual, o professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Thiago Drumond apresentou dados da pesquisa realizada com bancários da base capixaba. A pesquisa apontou que quase 40% dos respondentes já foram trabalhar com atestado médico; 68% fazem tratamento psicológico ou psiquiátrico; mais de 30% usam medicamentos controlados. Ansiedade em nível grave, depressão e estresse são os males mais citados.
O professor falou sobre as características do trabalho contemporâneo, que está sujeito a inovação contínua. Desse contexto derivam questões como enfrentamento rotineiro de descontinuidade, necessidades de adaptações constantes e instabilidade. “No âmbito da cultura da excelência, as exigências são cada vez mais intensas e exigem qualidade total e aprendizado contínuo”. Drumond disse que as empresas cobram os trabalhadores o tempo todo, exigindo soluções, criatividade e contribuições. “O tempo inteiro temos que estar atentos, sorrindo para darmos conta dessas mudanças”. O professor informou que já existem pesquisas hoje estudando os impactos das mudanças tecnológicas. Outro aspecto que vem a reboque desse trabalho contemporâneo é a cultura de excelência. “Você tem de responder o melhor possível. E essa cobrança é muito cruel. Você tem uma meta, bate a meta, no ano que vem essa meta aumenta”, assinalou.
Ronan ilustra a cobrança de metas como algo que não pode ser atingido, mas que é cobrado mesmo assim. “A metáfora é imaginar um atleta do salto com vara. Você sabe que o recorde mundial é 6,25m, mas o sarrafo está a 7m. Você sabe que não vai conseguir, mas vai se cobrar para saltar 7m e se culpar pelo ‘fracasso’ iminente. ‘Fracasso’ que pode ser punido com a perda do comissionamento, por exemplo. Nesse ambiente de pressão extrema, anormal seria não adoecer”, adverte Ronan.
Ambiente saudável
A consolidação de um órgão de certificação governamental sobre doença mental, em tese, pode ser um indicador importante para as empresas que estão verdadeiramente preocupadas em proporcionar um ambiente mentalmente saudável para o trabalhador. Especialistas apontam que respeito e inclusão devem ser os pontos de saída de qualquer iniciativa empresarial. Reconhecer os gatilhos de estresse e tentar eliminá-los é outro compromisso que a empresa precisa assumir. A carga de trabalho excessiva é outro elemento que pode ser gatilho do adoecimento. A empresa deve criar espaços físicos para que os empregados possam relatar a um profissional os problemas diários que afetam sua saúde.
Selo comprado
Muitas empresas, inclusive do setor bancário, estão muito distantes de desenvolver ações para mitigar o adoecimento mental dos seus empregados. Sem um órgão isento de certificação, como prevê a proposta do governo, muitas empresas compram os “selos de excelência” para se blindar de críticas. Foi o caso do Banestes, que questionou a legitimidade da pesquisa da Ufes, alegando que os dados da GPTW – Great Place to Work (melhor lugar para trabalhar, na tradução livre) mostravam uma outra realidade.
Durante a rodada de negociações com o banco na campanha salarial deste ano, uma das pautas levantadas pelos empregados do Banestes era sobre o adoecimento mental. O Sindicato se propôs a apresentar a pesquisa da Ufes, com o recorte dos empregados do Banestes, com o intuito de constituir um grupo de trabalho para analisar os dados e buscar soluções para os indicadores do estudo, que apontam, por exemplo, que 61,4% dos afastamentos no banco estadual estão relacionados ao trabalho. Transtornos como estresse, ansiedade e depressão afetam mais da metade dos empregados do Banestes.
Censura
Após essa mesa sobre saúde e condições de trabalho, sucederam-se mais cinco rodadas e a direção do banco, em nenhum momento, sinalizou em retomar a discussão sobre a pesquisa da Ufes e tampouco pediu os dados detalhados do estudo. Ao contrário, após o Sindicato veicular um vídeo dramatizando um caso real de adoecimento mental e apresentar alguns dados da pesquisa, a direção do banco, sob o comando de Amarildo Casagrande, se enfureceu e recorreu à Justiça para censurar o vídeo.
Nas alegações apresentadas à Justiça para censurar o vídeo, a direção do Banestes contrapõe a pesquisa da Ufes com a certificação Great Place To Work (GPTW), que também concedeu ao banco um selo extra: Great People Mental Health. Traduzindo a sopa de termos em inglês, a consultoria atesta que o Banestes, além de ser uma das melhores empresas para trabalhar, também zela pela saúde mental dos seus empregados.
“Não adianta a direção do Banestes ficar negando dados acadêmicos e tampouco usar pesquisa de uma consultoria para tentar jogar uma cortina de fumaça sobre a realidade. O adoecimento mental no setor bancário é irrefutável”. Para Ronan, a direção do banco precisa ter humildade para aceitar os fatos e buscar parcerias com o Sindicato e com a academia para enfrentar o problema. “O caminho escolhido pela direção do Banestes até aqui, de usar selos corporativos para desmerecer um estudo, é um retrocesso. Ao exaltar o selo GPTW e negar os fatos, a direção do Banestes quer transformar o adoecimento mental em um ativo promocional do banco”, critica o dirigente.

