A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 3 de dezembro como “Dia Internacional das Pessoas com Deficiência”. De acordo com o IBGE, 8,9% (cerca de 19,2 milhões) dos brasileiros têm algum tipo de deficiência. Na categoria bancária, os PcDs são 4%, ou seja, cerca de 17 mil pessoas no universo de 423 mil bancários, mas só 2% ocupam cargo de liderança. Há um enorme degrau também em relação aos salários. Um bancário PcD ganha, em média, 37,6% menos do que um colega não deficiente. No recorte que considera uma bancária negra PcD, o fosso salarial é ainda mais profundo em relação aos bancários não deficiente: em média, 48% inferior. Os dados são do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Felipe diz que o esporte foi fundamental para retomar sua vida
Felipe Barbosa Ramos, 41 anos, passou no concurso da Caixa Econômica de 2014. A Caixa só convocou os cerca de mil PcDs aprovados no concurso de 2014, quase cinco anos depois, por determinação da Justiça, que obrigou o banco a cumprir a cota de 5%, prevista na Lei 8.213/1991. A determinação judicial saiu em 2017. Em 2019, o então presidente da Caixa, Pedro Guimarães, tentou, mas não conseguiu driblar a Justiça e adiar as contratações.
“Quando cheguei, a Caixa teve dificuldade para nos receber, mas com o tempo o banco foi promovendo as mudanças necessárias”. Ele conta que o banco foi criando estruturas básicas que antes não haviam, como banheiros adaptados e elevadores, e ao mesmo tempo ajustando os equipamentos de trabalho.
Um acidente de automóvel aos 23 anos mudou a vida de Felipe. “Tem de ser muito resiliente, ter humildade para pedir ajuda e apoio familiar. Esse apoio da família é fundamental”. Apesar das dificuldades iniciais na Caixa, ele diz que foi recentemente promovido para assistente de varejo e que outros dois colegas PcDs que entraram com ele na Caixa também foram promovidos. Felipe diz que não sabe como é essa realidade de discrepância salarial entre bancários PcDs e sem deficiente, apontada na pesquisa do Dieese. “Pelos menos na Caixa, não notei essa diferença.
Para além das cotas
A contratação de 5% de bancários PcDs está garantida em lei, mas os bancos precisam avançar em outras frentes. “Além de cumprir a lei e respeitar a cota de 5%, os bancos deveriam ser mais sensíveis às demandas desses trabalhadores”, afirma Carlos Pereira de Araújo (Carlão), diretor do Sindicato dos Bancários/ES e membro do Comando Nacional dos Bancários. O dirigente aponta que esse segmento começa a ganhar representatividade na categoria, como mostra o levantamento do Dieese, mas pode crescer muito mais, inclusive para além das cotas. “Essas trabalhadoras e trabalhadores garantem um ambiente de diversidade para dentro e para fora do banco. Temos a oportunidade de aprender com essa convivência. Todos saem ganhando com a inclusão”, afirma.
Carlão pondera, entretanto, que os bancos ainda têm muitos desafios a cumprir para garantir um ambiente acessível e condições de trabalho mais dignas a esses empregados. “Em 21 de setembro temos o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência e hoje [03] o Dia Internacional. Essas datas são importantes para chamar a atenção sobre o tema. Na campanha salarial deste ano, o movimento sindical deu destaque a essa pauta porque sabemos que há muita luta pela frente. Os bancos estão atrasados no desenvolvimento de políticas para os PcDs e é preciso avançar muito e mais rapidamente”, aponta Carlão.
Na opinião de Felipe, os bancos dariam um importante avanço se promovessem treinamentos permanentes para os empregados em geral. “É preciso ampliar essa discussão dentro dos bancos, discutir cada um dos tipos de deficiência com os bancários para que o debate avance”, diz.
Não é só dentro do banco que Felipe vem acumulando conquistas. Ele conta que a partir do acidente o esporte passou a ter papel fundamental nesse processo de reconstrução da sua vida. Felipe joga tênis em cadeira de rodas e não só por lazer. Ele está entre os três melhores tenistas do Estado. Nos próximos dias saberá quem será o indicado a melhor tenista em cadeira de rodas. Como um autêntico botafoguense, ele tem motivos de sobra para acreditar que pode levar o título. A conferir!

