Título de capitalização, plano de previdência, seguro de vida, consórcio! No final do primeiro semestre deste ano, a pressão para vender produtos e serviços tem sido tão intensa no Banco do Brasil – obrigando funcionários a oferecer várias vezes a mesma proposta – que já há até clientes reclamando dessa insistência.
De acordo com Igor Chagas, diretor do Sindibancários/ES, a direção do Banco do Brasil tem adotado essa prática de aumentar exponencialmente a oferta dos mesmos produtos e serviços, desrespeitando e assediando, inclusive, seus clientes. “Mesmo a pessoa dizendo que não quer, o BB insiste na oferta num intervalo de tempo curtíssimo, desrespeitando a decisão soberana do cliente. No final desse primeiro semestre, isso se intensificou de maneira brutal, a ponto de clientes começarem a reclamar e pedir para [o banco] parar de oferecer produtos ou responder de forma mais ríspida, reiterando que já manifestaram que não têm interesse, ou seja, agora, além do BB assediar seus funcionários, está constrangendo seus clientes a ponto deles também se sentirem assediados”, relatou Igor.
Modelo privado
Essa pressão por aumentar as vendas de produtos e serviços está inserida num contexto em que o BB vem abandonando o seu papel social, se comprometendo cada vez mais com o mercado, visando lucros cada vez maiores e disputando as primeiras colocações no ranking do Sistema Financeiro Nacional com bancos privados, como o Itaú.
“O banco vem adotando um posicionamento cada vez mais próximo do setor privado, com metas mais agressivas, foco exagerado em rentabilidade, fechamento de agências e pressão diária por resultados financeiros. Estamos vendo um ambiente de trabalho cada vez mais tóxico, onde a cobrança por performance é constante e a saúde mental cada vez mais comprometida”, avalia a dirigente do Sindicato Maria da Glória Dias de Souza.
À medida que busca atingir o lucro esperado, o BB amplia o assédio na cobrança de metas. Essa é uma realidade conhecida pelos funcionários capixabas e que vem sendo denunciada pelo Sindicato, mas uma série de fatores tem piorado muito a situação nos últimos meses no Espírito Santo: metas muito acima do restante do país, produtos e serviços mais caros do que os oferecidos por outros bancos concorrentes, falta de funcionários e a implementação do Programa Inova Varejo.
“A falta de funcionários e as metas excessivas agravam ainda mais essa situação de os trabalhadores serem obrigados a ficar ofertando os produtos sem parar. Além disso, o BB quer competir de igual para igual com bancos privados como o Itaú, e, para isso, acaba exigindo muito mais de seus trabalhadores e cobrando preços mais altos da população, valores mais caros até que dos seus concorrentes privados”, diz Bethania Emerick, diretora do Sindibancários/ES.
Em depoimento ao Sindicato, uma funcionária do BB afirma que, nos últimos anos, os bancários estão sofrendo com as transformações na profissão, uma vez que estão sendo pressionados a atuar como vendedores de produtos. “Hoje o cliente senta na nossa mesa e vê o banco como inimigo, porque Ourocap, seguro de vida e consórcio não são oferecidos conforme a necessidade do cliente, a gente tem que empurrar esses produtos para poder bater a meta. Nós deixamos de ser consultores de bons negócios bancários que levam soluções para a vida do cliente para sermos vendedores. A realidade é essa! Na maior parte do tempo, somos operadores de telemarketing; e, se batemos meta num mês, no seguinte o banco dobra a meta, sem melhorar as condições de trabalho, sem contratar mais funcionários. A gente vai adoecendo e os clientes passam a ver o banco como problema e não solução”, desabafou.
Metas mais altas no ES
Analisando os dados da distribuição de metas do Banco do Brasil nos últimos anos, fica nítido que o Espírito Santo vem sofrendo de modo desproporcional com as metas excessivas, uma vez que a direção do banco tem exigido dos funcionários no estado muito mais do que a média do restante do país.
Entre 2021 e 2023, por exemplo, as metas de crédito pessoal consignado do BB subiram 49% no país e 72% no Espírito Santo. Já as metas de crédito pessoal não consignado aumentaram 70% no Brasil e 115% no nosso estado.

“Aqui as metas são historicamente excessivas. A cada aumento, o Espírito Santo tem uma elevação absolutamente desproporcional, com metas muito maiores que as dos demais estados. O Sindicato já cobrou formalmente da direção do banco uma explicação para isso, mas ainda não tivemos respostas. E com a chegada do Inova as coisas só pioraram, mesmo com as mudanças nas carteiras, as metas seguem subindo drasticamente”, pontuou Igor.
Um dos procedimentos com a implantação do Programa Inova no Espírito Santo foi a mudança no critério de encarteiramento dos clientes, com muitas carteiras do segmento de pessoas físicas sendo migradas entre gerentes. Igor explica que essas alterações drásticas tiveram um efeito óbvio: a queda nas vendas no último período. “Os clientes que ainda estão conhecendo os seus gerentes e estabelecendo uma relação de confiança, proximidade e relevância demoram mais para contratar produtos e serviços financeiros. A necessidade de mais tempo para reestabelecer essa relação entre cliente e gerente não foi respeitada, tampouco as metas foram revistas, pelo contrário, inexplicavelmente, as metas aumentaram ainda mais”, critica Igor.
No último ano, as metas de crédito consignado no país subiram 1%, enquanto no ES aumentaram 13%. Na modalidade de crédito não consignado, o aumento foi ainda mais exorbitante: no país subiu 10%, já no Espírito Santo 55%.

Outra mudança com a chegada do Inova que também vem prejudicando funcionários e clientes e o estabelecimento de uma boa relação entre eles é a retirada do atendimento presencial dos caixas de algumas agências. “O BB está tirando o atendimento presencial de caixas em diversas agências e sobrecarregando outras unidades que são obrigadas a absorver as demandas. Esse tipo de manobra é um desrespeito com seus funcionários e com a população. O cliente perde sua agência mais próxima, dificultando o seu atendimento presencial, e os trabalhadores sofrem com perda de comissões e aumento do adoecimento por excesso de trabalho”, ressaltou Glória.
Serviços e produtos mais caros
Segundo dados do Bacen (retirados de bcb.gov.br em 18/07/2025), o Banco do Brasil tem ficado bem atrás no ranking de melhores preços para diversos produtos e serviços financeiros como financiamento de veículos, consignados e crédito não consignado. Veja lista abaixo:
FINANCIAMENTO DE VEÍCULOS PESSOA FÍSICA
BB está na 33° posição.
Ficando atrás de Safra, BRB, Aymoré, Itaú, C6, Bradesco, Caixa, Banestes, Inter, Safra, BTG e diversos bancos de montadoras.
CONSIGNADO INSS
BB está na 28° posição.
Ficando atrás de C6, Bradesco, Mercantil, Caixa, Itaú, Daycoval, BMG, Sicredi, PicPay, Pan, Banestes, Safra, Inter e Nu.
CONSIGNADO PÚBLICO (DEMAIS CONVÊNIOS)
BB está na 28° posição.
Ficando atrás de Agibank, Itaú, Santander, BMG, Banrisul, Banco do Nordeste, PicPay, Banestes, C6, Bradesco, Caixa, BRB, Alfa, Safra, Inter, Nu, Sicred, dentre outros
CONSIGNADO PRIVADO
BB está na 25° posição.
Ficando atrás de Banrisul, Nu, Itaú, Daycoval, Santander, Alfa, Banco do Nordeste, Banestes, Bradesco, BMG, Caixa, dentre outros.
CREDITO PESSOAL NÃO CONSIGNADO
BB está na 37° posição.
Ficando atrás de Banrisul, XP, Aymoré, Votorantim, Santander, Bradesco, BTG, C6, Caixa, BRB, Crefisa, Mercantil, C6, Original, Inter, Pan, Itaú, Safra, dentre outros.
“O objetivo insustentável de ter o maior lucro entre os bancos do país, pensando apenas no acionista, gerou uma sequência de efeitos terríveis. A direção do BB aumentou absurdamente as metas, fez uma bagunça no modelo de relacionamento com os clientes e passou a trabalhar com taxas incrivelmente mais altas que praticamente todos os concorrentes. A reunião desses fatores gerou uma óbvia impossibilidade de bater as metas. Aí, em vez de corrigir o rumo, a solução encontrada foi intensificar ainda mais o assédio aos funcionários e adotar uma postura constrangedora e inconveniente junto aos clientes”, explica Igor.

