“O segundo semestre de 2025 mal começou e todo o enredo sobre a cobrança excessiva pelo cumprimento de metas no Banco do Brasil vem ganhando tons cada vez mais dramáticos”, é o que afirma o diretor do Sindibancários/ES, Igor Chagas. De acordo com o dirigente, os números do mês de julho confirmaram o que os funcionários e o sindicato vêm denunciando há meses: as metas são abusivas e inalcançáveis e a estratégia da direção do BB de seguir a mesma política dos grandes bancos privados, intensificando o assédio para todos os lados, visando apenas a ampliação de seus lucros, está adoecendo seu quadro funcional e prejudicando a população, conforme denunciamos aqui.

Os resultados do primeiro mês do segundo semestre mostram que bater meta virou uma exceção. “A impossibilidade de bater as metas propostas pelo BB, em razão da estratégia equivocada da direção do banco, está ficando cada vez mais óbvia. Finalizado o mês de julho, apenas a exceção da exceção conseguiu atingir os objetivos previstos no Conexão”, afirmou Igor.

Veja os números do desempenho do mês de julho retirados do acompanhamento do Conexão:

REDE VAREJO
Total de Superintendências do Brasil 26
Total de Superintendências que atingiu as metas 01
 
Total de agências da Superintendência ES 82
Total de agências que atingiu as metas 05

 

AGÊNCIAS ESPECIALIZADAS EM PESSOA FÍSICA
Total de agências ligadas à Superintendência PF RJ/ES 20
Total de agências que atingiu as metas 01
 
Total de Superintendências ligadas à SUPER PF3 04
Total de Superintendências que atingiu as metas 00

 

Aumento de metas

Mesmo com os sucessivos aumentos de metas nos últimos meses e nenhuma explicação para o fato do Espírito Santo ter metas muito mais altas que o restante do país, o BB impôs mais um aumento na virada de junho para julho. O orçamento do crédito não consignado da Superintendência do ES subiu 49% e a meta do crédito consignado da SUPER ES subiu 59%.

“O cenário atual é um combo absurdo! O BB ignora seu papel de banco público, oferecendo taxas incrivelmente mais caras que quase todos os seus concorrentes privados e ignora também o cenário econômico do país, com Selic alta, que tende a reduzir a atividade produtiva e a procura por crédito, exigindo de seus funcionários metas que são simplesmente impossíveis de serem atingidas”, criticou Igor.

Linhas bloqueadas

Além dessa combinação nefasta de taxas mais caras, Selic alta e metas inalcançáveis, outro fator que contribuiu para esse desempenho do mês de julho na Rede Varejo do BB, foi o bloqueio de determinadas linhas de crédito, que mesmo estando inacessíveis para venda, foram mantidas no orçamento previsto das agências e carteiras.

De acordo com Igor, a linha de crédito consignado do trabalhador sofreu diversas mudanças nas regras de acompanhamento durante todo o mês e só esteve em pleno funcionamento a partir do dia 24. Já o consignado do INSS ficou bloqueado para novas contratações, sendo liberado também na última semana.

“Como ambas as linhas representam percentual significativo no total do item Desembolso Consignado, chegando a cerca de 30% em algumas carteiras e agências, a impossibilidade de oferecê-las durante quase todo o mês comprometeu ainda mais a capacidade de atingimento dos objetivos traçados pelo BB. No caso do consignado do INSS, por exemplo, o procedimento de desbloqueio precisa ser feito pelo próprio pensionista e é burocrático e complexo para quem não domina a tecnologia digital, ou seja, essa linha foi praticamente inviabilizada nesse mês”, explicou Igor.

Inadimplência

Segundo relatos dos funcionários e funcionárias, a direção do BB também reduziu ainda mais a tolerância em sua meta de inadimplência e dificultou as possibilidades de renegociação.

Nas linhas de pessoa física do Espírito Santo, uma pequena variação na inadimplência (1,77% para 1,84%) representou um desenquadramento desproporcional no desempenho esperado x meta traçada para o mês de julho. Já nas linhas de pessoa jurídica, mesmo com a inadimplência reduzindo (4,86% para 4,20%) o resultado passou de “atingido com sobras” para “desenquadrado por larga margem”.

“Os funcionários e funcionárias relataram que as linhas de renegociação foram sensivelmente alteradas a partir do mês de julho, com condições negociais muito mais complexas, com exigências adicionais em termos de garantia e taxas de juros altíssimas, chegando a quase 6% ao mês em alguns casos. O sentimento é de que a renegociação virou caso de exceção, o que reduz drasticamente as possibilidades de regularização das dívidas”, pontuou Igor.

Para o dirigente, assim como nas metas de desembolso de crédito, essa meta de inadimplência, com diferença tão drástica de um mês para o outro, demonstra mais uma vez o descolamento da realidade em que se coloca a direção do BB em relação ao que espera de seus funcionários. “O sentimento geral é de que o BB culpa os funcionários não somente quando não conseguem vender seus produtos e serviços muito mais caros que a concorrência, mas também quando não conseguem receber as dívidas atrasadas dos clientes”, criticou.

Assédio e adoecimento

Nesse contexto de assédio institucional, intensificou-se também o assédio moral cometido pela equipe gestora e a política de silenciamento, aumentando o número de denúncias recebidas pelo sindicato nesse início de segundo semestre. Entre as reclamações estão as exigências irreais de ofertas e contatos via telemarketing, até a responsabilização direta pelas metas não atingidas, vendas não realizadas e dívidas não quitadas, passando pelo controle e vigilância excessiva sobre a rotina dos trabalhadores com cobranças de como, quando, com que frequência e qual o conteúdo eles usam nas interações com os clientes, até perseguição a funcionários que se pronunciam nas reuniões, fazendo perguntas, questionamentos e propondo reflexões.

“Os funcionários relatam que estão se sentindo pressionados e que gestores aumentaram suas práticas abusivas e intimidadoras. Há casos em que o gerente ouve uma reclamação ou questionamento sobre metas abusivas e falta de condições de trabalho e, em seguida, chama aquele que reclamou para um “feedback” individual, em um tom que faz com que os funcionários se sintam intimidados e desencorajados a novos questionamentos. Há casos, inclusive, que esse desencorajamento é verbalizado, com o gerente proibindo certos temas de serem abordados em reuniões”, exemplificou Igor.

Algumas denúncias ressaltam que há gestores retaliando e perseguindo com avaliações de desempenho ruins aqueles funcionários considerados questionadores demais, prejudicando as carreiras e ameaçando as rendas dessas famílias, sem critérios nítidos.

Na avaliação do dirigente, o quadro gestor do BB, que vem adotando uma postura de coach junto a sua equipe, se utilizando de falácias sobre pensamento positivo a qualquer custo, estão confundindo a busca por melhores condições de trabalho com desinteresse dos trabalhadores. “O BB perde uma excelente oportunidade de aprendizagem organizacional ao retaliar e ignorar o que os funcionários da linha de frente têm a dizer sobre a eficácia ou não de suas estratégias. Essa positividade tóxica que pune e silencia só contribui para o aumento do adoecimento”, avaliou.

Deboche

Apesar do BB promover, de forma ainda mais intensa, o assédio institucional e moral, sobretudo na Rede Varejo, ironicamente, o banco também oferece para os seus funcionários um curso chamado “Assédio: Conhecer, prevenir e combater”, através da sua Universidade Corporativa. Este curso tem como objetivo a identificação das características, consequências e formas de prevenção e combate ao assédio moral, sexual e discriminação.

O curso conceitua assédio institucional como a “utilização de práticas desumanas, muitas vezes disfarçadas de políticas de produtividade, criando uma política de controle excessivo, com o objetivo de aumentar a produtividade e reduzir custos”, ou seja, o conceito utilizado no curso do BB descreve exatamente o que é praticado internamente no banco.

“Essa contradição foi encarada por alguns funcionários como um verdadeiro deboche. O mesmo BB que pratica cada vez mais o assédio institucional, também ensina como identificar e combater esse assédio. Parece que o curso está relatando o dia a dia de uma agência da Rede Varejo. Fica parecendo que, ou a direção do BB não faz a menor ideia do que acontece nas suas agências, ou finge não saber, o que é pior. Os funcionários, esgotados e mentalmente adoecidos, querem saber se os gestores, superintendentes e executivos fizeram esse curso. Parece que não”, criticou Igor.