O lucro ajustado de 3,8 bilhões do Banco do Brasil no segundo trimestre de 2025 representa uma queda de 60% em relação ao mesmo período do ano passado e de acordo com o diretor do Sindibancários/ES, Igor Chagas, representou também um “chá revelação” para a direção do banco. “A direção do BB está tendo um verdadeiro chá revelação com os lucros desse ano e está tendo que lidar com o fato de que sim, o BB é um banco público e como tal tem outros compromissos que precisam ser priorizados pra além da lucratividade alta e remuneração de seus acionistas. O resultado dessa contradição entre o papel do banco e o papel que a direção atual quer assumir para o mercado é essa frustação com os resultados”, avaliou Igor.
Segundo a direção do Banco do Brasil, dois fatores contribuíram para a queda no lucro. O aumento da inadimplência, principalmente do setor do agronegócio, e a nova resolução do Banco Central que passou a vigorar em janeiro, cujas mudanças nas regras contábeis passou a obrigar os bancos a reservarem também os valores que eles esperam não receber de volta, e não apenas aqueles valores que já não receberam.
“Além do seu papel de banco público, está ficando escancarada a realidade que o BB tem outro custo para operar, tem toda uma complexidade maior na sua operação, bem diferente dos seus concorrentes privados. O BB é outro tipo de banco! Está nítido que foi uma fantasia da atual direção querer disputar de igual pra igual com outras instituições que não tem a mesma sazonalidade, mesmo custo, mesma complexidade, que não estão sujeitas ao que aconteceu com o agro, por exemplo, e aí deu no que deu, muita frustação pro mercado e sensação equivocada de fracasso pros funcionários”, ressaltou Igor.
Com o lucro abaixo do que o mercado esperava, abaixo inclusive do que a direção do BB vem prometendo, o banco ficou à mercê das críticas e análises pessimistas dos analistas do mercado financeiro, cuja única preocupação se resume a números: evolução da ação do BB (BBAS3), payout do exercício, relação preço-lucro, valor do papel, valor dos dividendos e juros sobre o capital próprio no ano etc. E para atender as expectativas do mercado, o banco tem abandonado cada vez mais seu papel social e introduzido no seu discurso e na prática da gestão a racionalidade empresarial análoga a dos bancos privados.
Em uma análise recente sobre as mudanças na Missão e Estratégia Corporativa do Banco do Brasil nos últimos anos, Eduardo Araújo do Sindicato dos Bancários de Brasília, mostra como isso tem ficado cada vez mais nítido. “A ideia desse modelo de gestão que privilegia a racionalidade empresarial é a de que o principal propósito da empresa é criar e maximizar os valores para os acionistas e essa é a lógica que deve orientar todas as práticas e decisões da instituição. Analisando a Missão e Estratégia vemos as mudanças ocorridos nos últimos anos nos compromissos institucionais do BB, que estão sendo anunciados para o mercado e buscados a ferro e fogo via Acordo de Trabalho, definindo efetivamente onde, com quem, como e a qual custo – para a sociedade e para seus trabalhadores – o BB vai produzir seus resultados, abandonando cada vez mais seu compromisso de banco público”, analisou Eduardo.
Embora o lucro de instituições como o Banco do Brasil seja um indicador importante de seu desempenho financeiro, a análise não pode se restringir a essa métrica. A avaliação do sucesso de um banco, especialmente um banco público que tem um dever social, deve levar em conta não apenas os lucros financeiros, mas também a saúde e as condições de trabalho de seus trabalhadores, bem como sua contribuição nas políticas públicas de desenvolvimento social.
“Diante desses resultados, o sentimento geral entre os funcionários é de muita apreensão e medo. Apreensão com o que vai acontecer no dia a dia, o impacto disso na rotina de trabalho em relação à cobrança de metas e medo de que o assédio, que já está insustentável, se amplie, se intensifique ainda mais. Além disso, também há o desespero de uma PLR rebaixada, já que o BB fez promessas impossíveis pro mercado e atrelou o pagamento da PLR integral ao atingimento das metas prometidas, ou seja, mesmo com o lucro tão alto, os funcionários ainda receberão um percentual menor como forma de punição por não terem batido a meta de uma promessa fantasiosa e irresponsável da direção do banco. Culpar os funcionários é injusto e prejudica a renda de diversas famílias, considerando que há muito a PLR passou a compor a massa salarial devido a baixa remuneração. Esperamos que a direção do BB retome seu papel de banco público, sua responsabilidade de indutor do desenvolvimento e pare de fazer as promessas que vem fazendo para o mercado”, frisou Igor.

