Economista minimiza tarifaço de Trump, aprova isenção do IR, mas sugere reforma tributária mais radical

08/10/2025 13:25

Professor emérito (aposentado) do Departamento de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade do Espírito Santo, Paulo Nakatani dedicou 50 anos à docência, 30 deles na Ufes. Nesta entrevista, Nakatani fala sobre os impactos do tarifaço de Trump na economia brasileira. Na análise interna, avalia como a isenção do IR pode […]

Professor emérito (aposentado) do Departamento de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade do Espírito Santo, Paulo Nakatani dedicou 50 anos à docência, 30 deles na Ufes. Nesta entrevista, Nakatani fala sobre os impactos do tarifaço de Trump na economia brasileira. Na análise interna, avalia como a isenção do IR pode mitigar a desigualdade no Brasil. “Para uma efetiva redução das desigualdades de renda seria necessário não só alterações no sistema tributário, mas também uma redistribuição dos estoques de riqueza”.

O tarifaço imposto por Trump causou pânico generalizado nos setores produtivos mais afetados. Como o sr. avalia este o impacto do tarifaço na economia nacional e seus desdobramentos?

Em termos macroeconômicos, a taxa de câmbio teve uma tendência de queda, a taxa de desemprego caiu para o nível mais baixo, a taxa de inflação medida pelo IPCA continua em queda. A perda de participação no mercado americano pode ser e foi, em parte, compensada pelo aumento de vendas, principalmente para a China e outros países asiáticos. Serão poucos os produtos que sofrerão efetivamente o peso do tarifaço, mas o governo já instituiu o plano “Brasil Soberano” com recursos na ordem de R$ 30 bilhões para apoiar as empresas que sofrem a tarifa de 50% e mais R$ 10 bilhões para empresas com tarifas de menos de 50%. Assim o “pânico generalizado” deve ser bem relativizado.

A motivação das tarifas não se justifica por um suposto desequilíbrio comercial em desfavor dos EUA. As medidas foram tomadas para pressionar o governo brasileiro a conceder anistia a Bolsonaro. Qual avaliação o sr. faz sobre o fracasso da intentona bolsonarista de tarifar o Brasil e qual o impacto no processo eleitoral de 2026?

Os principais analistas e comentaristas, com exceção de uma parte dos bolsonaristas mais renitentes, estão de acordo de que as tentativas do Eduardo Bolsonaro para obter um perdão para Jair Bolsonaro, pela tentativa de golpe de Estado, não irá obter nenhum resultado. Pois consideram que a desejada anistia tem maiores chances de não ser aprovada pelo Congresso Nacional. Esses movimentos adiantaram, igualmente, as negociações e preparações para a próxima eleição presidencial, com a lideranças dos congressistas do chamado “centrão” e parte das elites empresariais procurando um nome alternativo, como o do governador de São Paulo [Tarcísio de Freitas (Republicanos)], que possa herdar os votos da grande massa de eleitores bolsonaristas. Essas tentativas, além de outras condições como as manifestações contra a PEC da bandidagem e a aprovação da lei que altera o IR criaram um ambiente mais positivo para o governo Lula. As pesquisas de opinião indicam que Lula será um candidato imbatível na próxima eleição. Entretanto, em termos políticos, o prazo de um ano é longo e pode trazer inúmeras mudanças nas condições políticas. Isso sem considerar a volatilidade da opinião pública, que pode mudar de posição até no mesmo dia.

A Câmara dos Deputados aprovou a isenção de Imposto de Renda para pessoas com renda mensal até R$ 5 mil e desconto gradual para quem ganha até R$ 7.350 mensais. Na sua avaliação, a medida é capaz de mitigar o fosso da desigualdade no Brasil?

Sim, essa mudança na tributação do IRPF realmente contribui para mitigar a desigualdade, entretanto não constitui uma mudança efetiva para uma política tributária mais igualitária. Isso porque uma parte das classes médias assalariadas, com rendimento mensal acima dos R$ 7.350,00, continuará com a mesma alíquota de 27,5% enquanto os mais ricos vão contribuir com uma taxa de apenas 10%.

Segundo o Observatório das Metrópoles (PUC-RGS), os 10% mais ricos do país ganham, em média, mais de 15,5 vezes a renda dos 40% mais pobres nas metrópoles. Além da isenção do IR, quais outras medidas poderiam ser tomadas para reduzir a desigualdade no país?

Uma reforma tributária mais radical, primeiro com a mudança de um sistema progressivo para um mais regressivo, no qual a tributação sobre a renda é maior do que a tributação sobre o consumo. Em segundo lugar, haveria que tributar também as propriedades, principalmente das áreas rurais onde os grandes proprietários de terra praticamente não pagam o Imposto Territorial Rural. Esse imposto representa menos de 0,2% da Receita Total arrecadada pelo governo. Enfim, para uma efetiva redução das desigualdades de renda seria necessário não só alterações no sistema tributário, mas também uma redistribuição dos estoques de riqueza, pois a concentração da propriedade de meios de produção constitui um dos principais determinantes da desigualdade de renda.

Como resposta ao tarifaço, o governo Lula buscou o diálogo com os EUA. Recentemente, durante a conferência da ONU, em Nova York, Trump acenou para Lula e abriu a possibilidade de negociação. Do ponto de vista político e econômico, qual a expectativa da retomada das negociações para o Brasil?

O Brasil apresenta algumas particularidades que o diferencia da maioria dos demais países que estão sofrendo o tarifaço. A primeira, é a posição importante que o Brasil ocupa dentre os cinco primeiros países que constituíram os BRICS. Há mais de uma década os EUA iniciaram uma guerra comercial contra a China que, há uns dez anos, assumiu a primeira posição com o maior PIB do mundo, medido em dólares em paridade de poder de compra, e é o maior parceiro comercial do Brasil. A segunda, é a tentativa de golpe de Estado planejada e realizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, família e asseclas, que culminou com a invasão das sedes dos três Poderes por uma turba que depredou e vandalizou as instalações desses poderes. A terceira é a tentativa do deputado Eduardo Bolsonaro (PL), que foi para os EUA fazer lobby com os assessores de Trump, da extrema direita dos EUA, após abandonar seu mandato, junto com o neto [Paulo Figueiredo] do último presidente da ditadura militar [João Batista Figueiredo]. O aceno de Trump para Lula é o resultado de negociações feitas “por fora” desses mecanismos do poder, mas também demonstra algum interesse ou necessidade dos EUA. Ao que tudo indica, é muito difícil ter alguma expectativa sobre o encontro dos dois presidentes, principalmente porque Trump, como dizem, é imprevisível. Decide alguma coisa em um dia e desfaz no dia seguinte e, assim, esse encontro pode não resultar em nenhuma modificação seja do tarifaço, seja das medidas impostas com a lei Magnitsky contra os ministros do STF e outros membros do alto escalão do governo. O que pode gerar mudanças no tarifaço imposto ao Brasil, e em muitos outros países, é o fracasso das medidas supostamente para uma reindustrialização dos EUA. Mas Trump já está obtendo um sucesso parcial em outro domínio, principalmente com a desvalorização do dólar nos mercados internacionais. O resultado disso é a desvalorização dos ativos denominados em dólar, principalmente a dívida em títulos dos EUA, que chegou a cerca de US$ 30 trilhões. A maior parte das reservas internacionais é constituída por esses títulos e sua desvalorização resulta em um ganho para os EUA e uma enorme perda dos países com elevadas reservas em títulos dos EUA.

O tarifaço de Trump acabou acelerando a política externa brasileira que aposta no multilateralismo. Na sua opinião, a busca por outros mercados pode consolidar de vez o Brics e alçar o Brasil como protagonista deste processo do Sul Global?

A mudança de um mundo unipolar para multipolar está ocorrendo há muitos anos e o sistema imperialista dos EUA já está em decadência, sofrendo os impactos dessas mudanças e determinando novas relações de poder na geopolítica internacional. Os Brics foram constituídos formalmente em 2009 e era composto originalmente por cinco países: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na reunião de cúpula realizada em Kazan, em 2024, foram admitidos quatro novos países como membros plenos: Irã, Egito, Emirados Árabes Unidos e Etiópia. Além desses países, foram incorporados como parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão. Isso sem contar outros numerosos países que pretendem ou já solicitaram seu ingresso. Os BRICS e seus parceiros representam mais da metade da população e cerca de 40% do PIB mundial. A China como a maior economia do mundo já é a primeira em corrente de comércio (exportações + importações) com mais de 150 países, cerca de 80% dos países membros da ONU. A China sozinha pode praticamente resolver os problemas de mercado de quase todos os produtos brasileiros que foram sancionados com a tarifa de 50%.

Por volta dos anos 2010, o historiador Eric Hobsbawm previa com muita convicção que a desigualdade social perpetrada pelo neoliberalismo pavimentaria o caminho para um novo reacionarismo da extrema direita no século XXI. O sr concorda com essa reflexão de Hobsbawm?

Em 2010 o mundo ainda sofria os impactos da crise do subprime iniciada nos EUA que se disseminou pelo mundo todo. Essa crise foi comparada com a grande depressão iniciada em 1929 que precedeu a Segunda Grande Guerra e a ascensão do nazismo e do fascismo. Assim, é possível fazer uma certa analogia entre esses dois períodos históricos. Mas o capitalismo sofreu grandes transformações com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia por um lado e, por outro, o desenrolar da luta de classes em escala mundial produziu sucessivas derrotas da esquerda revolucionária. Isso foi conduzindo a uma  perda dos referenciais políticos e ideológicos para a construção de um novo mundo. Não tendo mais esse referencial revolucionário, uma parte das classes trabalhadoras se voltou para o extremo oposto apoiando as propostas políticas e ideológicas fascistas em muitos países ocidentais. No Brasil e na América Latina os movimentos revolucionários foram derrotados pelas ditaduras militares que tiveram o apoio dos EUA nos golpes de Estado e na destruição, inclusive física, dos partidos e dos militantes da esquerda. Com isso, podemos observar, inclusive, um retrocesso no desenvolvimento do processo civilizatório e um retorno relativo da barbárie com a disseminação da violência de ações e movimentos por indivíduos cada vez mais ignorantes, que distorcem os fatos reais e criam um mundo ilusório que justifica seus atos.