Para defender manutenção da 6X1, Folha de S. Paulo “cria” mito do trabalhador brasileiro preguiçoso

24/02/2026 10:09

Reportagem publicada pelo jornal paulista nesse domingo (22) repercute pesquisa que compara dados de 160 países e coloca o Brasil na 36ª posição na média de horas trabalhadas

À medida que a pressão popular pelo fim da escala 6X1 cresce, aliados das elites empresariais do país também começam a se movimentar mais intensamente para tentar impedir que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que defende o fim da escala de seis dias semanais de trabalho, de autoria da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), avance no Congresso Nacional. A cartada mais recente a favor do lobby dos empresários partiu da Folha de S.Paulo. Reportagem publicada nesse domingo (22) estampava na manchete: “Brasileiro trabalha menos que a média mundial; veja rankings”, convidava a reportagem. “O jornal paulista praticamente chamou o trabalhador brasileiro de preguiçoso. Não disse diretamente isso, mas é essa a mensagem da matéria”, critica a dirigente do Sindicato dos Bancários/ES Rita Lima. 

Assim como a dirigente capixaba, a reportagem da Folha foi alvo de críticas de setores do campo da esquerda e de progressistas, que interpretaram a reportagem como uma resposta oportunista do jornal à classe trabalhadora, que reivindica a redução da jornada de trabalho para poder dedicar mais tempo à família, ao lazer e a outras demandas pessoais. 

O vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo, idealizador da mobilização pelo fim da 6X1 e fundador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), foi um dos que criticaram a reportagem. “A Folha está chamando a classe trabalhadora que sustenta este país no lombo, de preguiçosa”. O vereador desabafou: “O povo não aguenta mais trabalhar seis dias consecutivos para folgar apenas um e sustenta esta burguesia da Folha de S. Paulo, esta burguesia do Brasil que vive muito bem, obrigado, à custa da exploração do povo brasileiro”. 

O jornalista Daniel Camargo da Carta Capital cravou no título do seu artigo: “A ‘Folha de S.Paulo’ acha que você trabalha pouco”. Repercutindo a reportagem, Camargo escreve: “No primeiro parágrafo do texto, o jornal afirma que o trabalhador brasileiro não ‘pode ser considerado particularmente esforçado’. Mais que apresentar um dado, a formulação introduz um juízo moral no centro de uma discussão que deveria ser sobre produtividade, estrutura econômica e distribuição dos custos da transição”.

Jeferson Miola, do Brasil 247, foi direto ao ponto na chamada do seu artigo: “Folha assumiu a direção da reação patronal-escravocrata contra o fim da jornada 6X1”. O articulista afirmou que é evidente o objetivo da matéria de inventar um simulacro de “base científica” para defender a manutenção da jornada 6×1. Miola destaca um trecho do  levantamento do economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, a partir de um novo banco de dados global de horas trabalhadas organizado pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA). Essa passagem de Duque diz que “o brasileiro trabalha menos do que seria esperado”. Para Duque, o que provavelmente “explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer”, afirma a reportagem da Folha.

Continua Miola: ‘Ainda que pareça piada, a reportagem cita sem fazer nenhuma ressalva que “Duque descobriu que os trabalhadores brasileiros escolheram trabalhar menos antes de ficarem ricos. No Brasil, segundo o levantamento, trabalha-se 1 hora e 12 minutos a menos por semana do que seria esperado dado o seu nível de produtividade e o seu perfil demográfico”’.

Para Rita Lima, a pesquisa de Duque está lastreada em uma base de dados distante da realidade do trabalhador brasileiro. A pesquisa diz que os trabalhadores no mundo destinaram, em média, 42,7 horas semanais a atividades remuneradas entre 2022 e 2023 contra 40,1 horas por semana do trabalhador brasileiro, considerando-se para o cálculo empregos formais e informais. “Ora, primeiramente é preciso tratar esses dados com muita ponderação. A soma das horas trabalhadas de empregados formais e informais já é motivo de controvérsia. A reforma trabalhista criou, entre outras aberrações, o contrato de trabalho intermitente. Sabemos que há trabalhadores que são chamados somente quando convém ao empregador. Esse tipo de contrato precarizado empurra as médias de horas semanais para baixo. Esse é só um exemplo, mas há diversas análises que põem em xeque o tratamento editorial que a Folha deu aos dados da pesquisa para reforçar a tese do jornal de que o fim da 6X1 é inviável para o país”, aponta Rita. 

A dirigente do Sindibancários lembra que a imprensa corporativa historicamente se mobiliza contra a classe trabalhadora brasileira e em favor das elites empresariais, da qual faz parte. Sabemos que os grandes grupos de comunicação brasileiros, afirma Rita, estão nas mãos de poucas famílias. “É a chamada imprensa hereditária. Não por acaso, a imprensa se posicionou contra a abolição dos escravos, em 1888. Na época, o lobby dos fazendeiros alertava, por meio dos jornais, que a abolição levaria o país ao caos, que a agricultura seria arruinada com a ‘desorganização do trabalho’”. 

Rita acrescenta que na luta da classe trabalhadora pela conquista do 13º salário, a covardia da imprensa não foi diferente. “Quem não se lembra daquela capa histórica do jornal O Globo, de 26 de abril de 1962 (imagem acima). A manchete principal advertia: ‘Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário’. Na ocasião da reforma trabalhista, a imprensa hereditária assumiu novamente a causa dos empresários para retirar direitos dos trabalhadores. Os jornais insistiam na tese de que a reforma trabalhista geraria mais de seis milhões de empregos, além de ser necessária para o país dar um salto na modernização e produtividade na economia, passando a ser mais competitivo no mercado mundial”, recorda a dirigente. 

“Apesar do lobby da imprensa para barrar o fim da 6X1, a classe trabalhadora, as centrais e o movimento sindical estão fortemente mobilizados em torno desta pauta. A redução da jornada de trabalho conseguiu furar a bolha ideológica e unir a classe classe trabalhadora. Essa união nos dá poder de mobilização e pressão para enfrentar o lobby das elites e vencê-lo no Congresso. Chega de exploração. Há vida além do trabalho e nós não iremos abrir mão desta conquista”.