De acordo com dados do Novo Caged do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o setor bancário fechou 2025 com saldo negativo de 8.910 postos de trabalho. O número segue na contramão do país, que encerrou o ano com saldo positivo de 1.279.498 postos de trabalho formais. Desde 2023, a economia brasileira registrou a ampliação de mais de 4,4 milhões de empregos formais. A taxa média de 5,6% de desemprego em 2025 praticamente levou o país ao chamado pleno emprego.

A realidade, porém, é inversa no setor bancário. De acordo com a Pesquisa do Emprego Bancário do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), considerando apenas atividades econômicas com estoque superior a 10 mil trabalhadores e excluindo a categoria bancária, foram identificadas 459 atividades econômicas. Desse conjunto, 357 atividades registraram abertura de vagas, totalizando 1,4 milhão de postos de trabalho, enquanto 102 atividades apresentaram redução do emprego, com eliminação de cerca de 1 milhão de vagas.

Nesse contexto, segundo o estudo do Dieese, os bancos múltiplos, com carteira comercial, que inclui os grandes bancos e a Caixa Econômica, destacaram-se como a segunda atividade econômica com maior saldo negativo de emprego entre todas as atividades analisadas, ficando atrás apenas da fabricação de açúcar em bruto, que eliminou 11,1 mil postos de trabalho no período.

A analista do Dieese Cátia Uehara afirma que esse processo de encolhimento da categoria bancária não é recente, mas tem se agravado na última década. Ela aponta que de 2013 a 2025 foram eliminados quase 100 mil postos de trabalho no setor. Nesse período de 13 anos, somente em 2021 e 2022 houve saldo positivo (tabela abaixo).

A analista do Dieese aponta que a queda do emprego bancário é resultado do processo de reestruturação que os bancos vêm empreendendo, com inovações tecnológicas e o fechamento de agências bancárias. “O fechamento de agências e a redução de postos de trabalho bancário prejudica, principalmente, os trabalhadores e os segmentos mais vulneráveis da população, como os idosos, que são os que mais necessitam do atendimento humanizado e presencial nas agências”, aponta Uehara.

O coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), destaca que só houve saldo positivo do emprego bancário nos anos 2021 e 2022 devido ao acordo do Comando Nacional dos Bancários com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) para assegurar a suspensão das demissões durante a pandemia, que teve início em março de 2020.

Apesar do acordo firmado com a Fenaban, o Bradesco e Santander prosseguiram com as demissões. O movimento sindical estima que os dois bancos privados tenham fechado cerca de 10 mil postos de trabalho no país durante a pandemia. O não cumprimento do acordo, acentua Carlão, revelou o nível de desumanização do Bradesco e do Santander. À época, muitos bancários recorreram à Justiça para tentar reverter as demissões, mas o Tribunal Superior do Trabalho (TST) entendeu que o compromisso firmado com os bancos não estava escorado em acordo coletivo e tampouco na legislação.

Dos 8.910 postos de trabalho fechados em 2025, os bancos que operam no Espírito Santo fecharam 235. Em comparação a outros estados com populações superiores, o número se torna significativo. Pernambuco, que tem duas vezes e meia a população capixaba, fechou 196 postos; Pará (8,6 milhões de habitantes) eliminou 176; Paraíba e Amazonas, que estão na mesma faixa populacional do Espírito Santo, encerraram respectivamente 91 e 95 postos de trabalho.

Eixo de luta em 2026
O coordenador-geral, que também integra o Comando Nacional dos Bancários, ressalta que as demissões no setor bancário estão entre os temas centrais da campanha salarial deste ano. “As demissões dispararam nos últimos anos. Por isso a pauta da defesa do emprego segue na ordem do dia. Teremos um eixo sobre a defesa do emprego frente às novas tecnologias”. Segundo o dirigente, o encolhimento do emprego bancário vem se intensificando em função do incremento das inovações tecnológicas. “Só em 2025 os bancos investiram cerca de R$ 50 bilhões em tecnologia. Para os bancos, a redução do emprego bancário e o fechamento de agências estão dentro desse projeto de cortar custos com as inovações. São os bancários que estão pagando essa conta com os seus empregos”, critica Carlão.

Quase 20 milhões de brasileiros moram em municípios sem agência bancária

Esse processo de reestruturação tecnológica que escalou a partir da pandemia, além de cortar postos de trabalho, tem resultado no fechamento de agências bancárias em todo o país. Reportagem recente da Folha de S.Paulo apontou que o número de agências bancárias caiu 37% em 10 anos no Brasil. Em meio ao avanço da tecnologia que digitalizou as transações e à decisão dos bancos de reduzir custos, sobraram hoje no país pouco mais de 14 mil agências. De acordo com Dieese, a partir da base de dados do Banco Central, 2.649 municípios não dispõem de nenhuma agência bancária. Esse número equivale a 48% do total de municípios (5.569) , ante 36% de 10 anos atrás.

Esse encolhimento da rede física deixa quase 20 milhões de brasileiros (9% da população) sem acesso a uma agência bancária. “Essa reestruturação agressiva dos bancos prejudica justamente a parcela mais vulnerável da população, que passou a ficar sem atendimento bancário tradicional”, afirma Carlão. Há dez anos, antes da última onda de reestruturação tecnológica dos bancos, o percentual de brasileiros sem acesso a uma agência física era de 3,4% da população. Esse índice triplicou em uma década.

Realidade no ES não é diferente

O processo de fechamento de postos de trabalho e agências não poupa nenhum estado. No Espírito Santo há uma média de uma agência para cada 13 mil habitantes (dados do BC de fevereiro). O Banestes ainda lidera com 84 agências, seguido do BB (80) e da Caixa (69). O Banestes, no entanto, que pauta seu marketing na capilaridade do banco, não está presente em 10 municípios capixabas: Águia Branca, Alto Rio Novo, Divino São Lourenço, Governador Lindenberg, Ibitirama, Laranja da Terra, Mucurici, Ponto Belo, São Domingos e Vila Pavão. Há dez anos, o Banestes tinha 132 agências e tinha agências nos 78 municípios capixabas. Uma redução de mais de 36% (veja quadro comparativo dos bancos).

Carlão alerta que o fechamento de agências não é um processo restrito aos bancos privados. “Historicamente, os bancos públicos sempre foram socialmente mais vocacionados em garantir a bancarização aos segmentos mais vulneráveis. Causa-nos grande indignação ver o Banestes, Banco do Brasil e a Caixa fechando agências para acompanhar o modelo de reestruturação dos bancos privados”.

Há dez anos, a população do Espírito Santo contava com 590 agências bancárias (somente os grandes bancos). Esse número caiu praticamente pela metade, hoje são apenas 301. Nesse período, Bradesco e Itaú foram os dois bancos que mais fecharam agências. O Bradesco chegou a ter 60 agências e o Itaú 42, hoje eles têm, respectivamente, 23 e 18 unidades, redução de 61% e 57%.

Desde 2024, a Caixa vem encerrando o funcionamento de agências e ampliando o número das que são transformadas em agências de negócios. Em 2025 foram fechadas 10 agências da Caixa no Espírito Santo. Analisando os dados, fica evidente a estratégia dos bancos públicos e privados. As agências físicas estão concentradas em municípios mais ricos. Além dos municípios da Grande Vitória, que juntos concentram 114 agências, cidades como Aracruz, Colatina, Cachoeiro de Itapemirim, Linhares, Guarapari e São Mateus possuem 49 agências. Somadas, respondem por 163 agências, ou seja, mais da metade do total de unidades (301). “Aqui se aplica a lógica do follow de money (siga o dinheiro). Os bancos só querem estar onde tem dinheiro. Compromisso social para atender os segmentos mais vulneráveis da população, nem pensar”, afirma Carlão.