A Conferência Estadual dos Bancários e Bancárias 2026 teve início na manhã desta sexta-feira (24) com uma mesa de debates sobre saúde mental da categoria. O doutor e mestre em Psicologia Social, André Guerra, conduziu a palestra “A função antissocial dos bancos e o adoecimento psíquico dos trabalhadores”, que foi dividida em duas partes.

Na primeira, Guerra abordou sobre como há uma estruturação político-econômica do adoecimento dos trabalhadores, que contribui para a construção de um ambiente organizacional adoecedor. Já na segunda, ele destacou como essa mesma estrutura, que constitui os riscos psicossociais na rotina dos trabalhadores, torna desafiador compreender a natureza do adoecimento, identificar esses riscos e pensar em formas de intervenção. Os diretores Ronan Teixeira, secretário da pasta de Saúde e Condições de Trabalho;  e Bethania Emerick, secretária da pasta de Mulheres; mediaram a mesa.

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André Guerra alertou para a importância de se colocar a política de saúde dos trabalhadores e trabalhadoras como norte da luta sindical. “É sim possível colocar a política de saúde sindical como central na disputa e na luta de classe contemporânea. Porque no fundo, o que se explora quando se explora um trabalhador é a sua vida. O que se consome de um trabalhador é o seu tempo de vida e sua saúde”, provocou no início de sua mesa.

Dados que assustam

O doutor e mestre em psicologia apresentou dados recentes da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae) sobre saúde mental dos bancários e bancárias da Caixa. Os resultados são estarrecedores. De acordo com a pesquisa intitulada “Saúde física e mental dos empregados da Caixa”, 32%, ou seja, um em cada três bancários do banco público faz uso de medicamentos psiquiátricos.

André Guerra, mestre e doutor em Psicologia Social. (Foto: Sérgio Cardoso)

“O consumo de medicamentos psiquiátricos é hoje um instrumento de trabalho da categoria bancária. Veja, um em cada três bancários da Caixa precisa de medicamento para conseguir realizar o seu trabalho. Esse resultado nós já encontramos em várias pesquisas nacionais de outros bancos e isso não nos surpreende. O que nos surpreende é a Caixa hoje está tão semelhante aos bancos privados”, disse Guerra.

Ainda segundo a pesquisa da Federação, dentre os bancários de até 39 anos, pelo menos 41% têm algum diagnóstico psiquiátricos; 50% dos gerentes já se afastaram por adoecimento psíquico; 41% dos trabalhadores consideram risco de descomissionamento uma ameaça constante; 28% não veem sentido em seu trabalho e 55% se sentem pressionados a vender produtos que não consideram úteis ou benéficos aos clientes.

Realidade

Vanessa Vilarinho, bancária da Caixa de Cachoeiro de Itapemirim, avaliou o tema da mesa como urgente para ser debatido com a categoria. Para ela, os dados apresentados refletem, infelizmente, a realidade dentro das agências: “Esse é um tema muito atual e cada vez mais necessário diante do cenário que nós, bancários, vivemos. Também é um tema sensível, porque muitas vezes não conseguimos identificar e associar as angústias do dia a dia com a saúde mental dentro de um ambiente de trabalho tóxico. Os dados apresentados pelo professor não me surpreenderam, porque refletem exatamente o que vivemos no cotidiano: bancários ansiosos, angustiados, nervosos. E eu sei que isso está diretamente relacionado às cobranças por metas e à lógica que define o “bom funcionário” como aquele que é um bom vendedor”, disse.

Palestra “A função antissocial dos bancos e o adoecimento psíquico dos trabalhadores” com André Guerra. (Fotos: Sérgio Cardoso)

Somente em 2025, os afastamentos por saúde mental atingiram o percentual de 58% dos bancários da Caixa, ultrapassando os afastamentos por saúde física, que foi de 53%. Participaram da pesquisa da Fenae 3.820 empregados e empregadas do banco público de todas as regiões do país.

Denunciar e não se curvar

O palestrante André Guerra explanou no fim de sua mesa algumas alternativas de enfrentamento ao adoecimento mental dos bancários e bancárias. Para ele, é necessário jogar luz ao que de fato acontece, para que os usuários e clientes dos bancos compreendam o que são as metas abusivas que tanto adoecem os bancários. “É preciso expor as engrenagens do sistema financeiro. Os trabalhadores em geral que são esfolados pelo sistema não sabem o que acontece. Os bancários sabem e é preciso revelar. A abusividade das metas é contra a sociedade brasileira. A sociedade brasileira é abusada pelas metas do sistema financeiro e o papel do movimento sindical é deixar claro que a luta do bancário é a luta do Brasil”, destacou.

Guerra reforçou ainda a urgência de uma política de saúde radical que tenha como prioridade a prevenção: “precisamos reconhecer que estamos em um mar de adoecidos. E o que fazer? Devemos manejar essa situação com medicação, psicoterapias. Porém esse processo de recuperação deve ser o último recurso, embora a gente comece com ele porque já estamos atrasados, ele deve ser o último recurso. O começo é a prevenção e a prevenção se faz no local de trabalho, com uma atuação ostensiva: denuncie, não aceite, não tolere, não se curve. Esse é o primeiro passo, o de estar nas agências e conscientizar ostensivamente”.