Os primeiros meses do ano sacudiram o sistema financeiro brasileiro. Após a liquidação extrajudicial do Banco Master, as instituições associadas ao Banco Central começaram a cobrir o rombo deixado por Daniel Vorcaro. Entrou em ação o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a “vaquinha” dos bancos para não causar pânico no sistema financeiro e prevenir crises bancárias sistêmicas, ou seja, o FGC é um socorro para proteger os próprios bancos. Essa turbulência, que gerou um rombo de mais de R$ 50 bilhões para ser rateado entre os bancos, não passou de uma marolinha imperceptível para o maior banco privado da América Latina. O Itaú registrou lucro líquido gerencial de R$ 12,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 10,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Importante lembrar que 2025 foi um ano de lucro recorde para Itaú: R$ 46,8 bilhões, ou seja, o resultado acima ao do ano passado é prenúncio de um novo recorde histórico para 2026.
De acordo com o relatório financeiro do Itaú, o desempenho foi impulsionado principalmente pelo aumento de 4,5% da margem financeira com clientes, resultado do maior volume de crédito e da ampliação da participação de produtos mais rentáveis, com destaque para crédito imobiliário, consignado privado e linhas voltadas a pequenas e médias empresas.
Crédito em crescimento
A Selic em 14,5% e a inflação estimada para os próximos 12 meses de 5,17% apontam para uma taxa real de juros 9,33%. O índice mantém o Brasil na vice-liderança das mais altas taxas de juros do mundo, atrás apenas da Rússia. “Mesmo com essa taxa imoral de juros, a carteira total de crédito do Itaú cresceu 7,2% em 12 meses. Isso significa que os clientes continuam fazendo empréstimos, mesmo com as taxas de juros elevadas, e a grande maioria consegue pagar a dívida. Prova disso é que o Itaú conseguiu manter a taxa de inadimplência acima de 90 dias estável em 1,9%”, aponta o diretor do Sindicato dos Bancários/ES e membro da Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Itaú, Marcelo Dalarmelina.
Despesas de pessoal
No primeiro trimestre do ano, o Itaú registrou receita de R$ 12,5 bilhões somente com prestação de serviços e tarifas bancárias, crescimento de 4,5% em relação ao primeiro trimestre de 2025. “Todas as despesas de pessoal, que ficaram em R$ 8,6 bilhões, foram cobertas apenas com as receitas de tarifas e ainda sobraram quase R$ 4 bilhões no caixa do Itaú”, afirma Marcelo.
O dirigente acrescenta que os números positivos, no entanto, não são considerados para se instituir uma política de valorização dos funcionários e funcionárias. “Ao contrário, o Itaú vem intensificando sua política de cortes de gastos para ampliar as margens de lucro. O processo de fechamento de postos de trabalho e agências segue a todo o vapor”, critica.
Ao final de março de 2026, o banco possuía 81.659 empregados no Brasil, após o fechamento de 4.620 postos de trabalho nos últimos 12 meses. Somente no primeiro trimestre o Itaú eliminou 1.034 vagas de trabalho. No mesmo período, foram fechadas 360 agências físicas no país.
Adoecimento da categoria
O modelo de negócio que visa exclusivamente o lucro tem produzido um contingente crescente de funcionários adoecidos. “A meta entra na cabeça do trabalhador e não sai mais. Ele vai para casa no final do expediente, mas continua com a meta na cabeça. Nos finais de semana é a mesma coisa. O trabalhador não desliga nunca porque a pressão por resultados é cada vez mais intensa e desumana. O resultado dessa política de lucro a qualquer custo é o adoecimento epidêmico dos funcionários do Itaú e da categoria bancária em geral”, assinala Marcelo, que acrescenta: “Esse modelo de negócio adoecedor, infelizmente, é adotado hoje por todos os bancos, públicos e privados. Isso não pode continuar, precisa ser urgentemente contido. É inaceitável que os bancos continuem adoecendo seus trabalhadores e esse processo seja normalizado. Temos que estar mobilizados na campanha salarial deste ano em defesa de um emprego bancário digno para todos e todas. Exigimos melhores condições de trabalho e valorização dos bancários”, enfatizou o dirigente.

