
“O desconforto é o lugar dentro do qual as mulheres vivem. Nascer no corpo de mulher é nascer no desconforto e a gente entende isso desde muito cedo”, afirmou Milly Lacombe, na abertura da mesa “O feminismo e a luta pelo fim da violência contra as mulheres”, que encerrou com reflexões profundas e urgentes, os debates da Conferência Estadual das Bancárias e dos Bancários no sábado (25).
De acordo com Bethania Emerick, Secretária de Mulheres do Sindicato dos Bancários/ES, tanto o Coletivo de Mulheres do sindicato, quanto essa mesa são frutos justamente desse lugar de desconforto e representam um marco na luta das mulheres bancárias. “Essa mesa representa um avanço na nossa luta. Porque embora os debates sobre o machismo e o combate à violência contra a mulher sejam sempre presentes nas discussões trazidas pelo Sindicato, este ano é a primeira vez que conseguimos trazer o tema como destaque em uma mesa na Conferência Estadual. Essa mesa foi pensada e organizada pelo Coletivo de Mulheres do sindicato, mas não apenas para as mulheres, porque entendemos que falar sobre gênero, violência, feminismo é tarefa coletiva, portanto devemos fazer esse debate juntas, juntos e juntes”, ressaltou Bethania.
Ao iniciar sua fala, Milly Lacombe fez um convite aos homens presentes. “Eu quero convidar vocês, homens que estão aqui agora, a entrar nessa área de desconforto. Vai ser um tanto desconfortável ouvir o que eu vou falar. Mas, quem não está no desconforto, não está entendendo muito o que está acontecendo no mundo. E é urgente entender”, enfatizou.
Para Milly o machismo mata mulheres e homens todos os dias de diferentes formas. “No feminicídio a mulher é assassinada por alguém em quem ela confiava. A mulher é assassinada dentro de casa por alguém que ela conhecia. Essa é a particularidade e o horror do feminicídio. Os dados mostram que a própria casa é o lugar mais perigoso pra uma mulher estar no mundo. Não é a esquina escura tarde da noite, é a casa e esse dado é devastador”, enfatiza.
Já os homens, avalia Lacombe, são mortos simbolicamente pelo machismo na medida em que é arrancada dos meninos a capacidade de se mostrar vulnerável, de sentir e construir vínculos, característica essencial à vida humana em sociedade. “A gente fala muito de quanto essa construção machista limita, silencia, oprime, diminui meninas e mulheres. Mas a gente não fala do que ela faz com meninos. Porque assim, meninos não crescem sabendo o que é ser homem. Eles crescem sabendo o que não é ser mulher. ‘Não faça isso que é coisa de mulherzinha’. Então, é uma construção que se dá em oposição ao que é ser mulher. E muito cedo na vida de um menino, é arrancada dele a capacidade de se mostrar vulnerável. E isso é de uma violência enorme. Quando esse lugar da vulnerabilidade é arrancado dos meninos, você arranca a capacidade dos homens estabelecerem vínculos profundos. E na hora que você arranca isso, você arranca o essencial da vida humana”, explicou.
Portanto, de acordo com a escritora, cabe às mulheres transformar toda a raiva causada pela opressão cotidiana em ação coletiva. “A gente sente muita raiva! Mulher sente muita raiva, desde que a gente é pequena. Desde que a gente vai trabalhar na cozinha com nossa mãe enquanto nossos irmãos estão correndo e brincando lá fora. A gente sente raiva quando nosso corpo é abusado com 10 anos. A gente sente raiva porque a gente trabalha igual o cara que está do nosso lado e ele ganha mais. A gente sente raiva porque a gente teve um filho com o cara e ele acha que ser pai é pegar de 15 em 15 dias e colocar umas fotos na rede social. As mulheres estão andando por aí com muita raiva. E o que o feminismo faz com muita potência é justamente organizar essa raiva para ações coletivas de transformação”, ressaltou.
E aos homens, segundo Milly, cabe compreender primeiro que as mulheres não precisam de ajuda na luta contra o machismo e as violências, elas precisam de homens que entendam que o patriarcado prejudica e violenta tanto mulheres, quanto homens e que, portanto, essa é uma luta coletiva em comum. “A gente precisa de homens que entendam como o machismo destrói, e os destrói também, todos os dias. A gente não precisa de ajuda. Não é ajuda que a gente quer, inclusive porque a gente chegou aqui meio que sozinhas nessa luta. A gente precisa de homens que entendam que entrar nessa luta é por vocês. É para lutar contra essa ideia de masculinidade que mata vocês todos os dias também. É por uma ideia de vínculo, de poder levantar a mão e dizer ‘eu não estou dando conta, eu preciso de ajuda’ e uma ajuda que não seja buscada em entorpecentes”. E citando bell hooks, Milly concluiu que as mulheres precisam dos homens nessa luta por eles mesmos, já que “o primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é a violência contra as mulheres. O patriarcado exige de todos os homens que pratiquem atos de automutilação psíquica, que matem suas partes emocionais”, pontuou.
A mesa foi encerrada com chave de ouro, após um debate com grande participação das bancárias e bancários. Milly Lacombe foi aplaudida por todos de pé ao encerrar sua fala ressaltando que “o feminismo não é sobre colocar mulher acima de homens. O feminismo não é uma guerra. Feminismo é sobre colocar todos nós, incluindo a natureza, em igualdade de condições, em convívio e em vínculo. Portanto, é uma luta de todo mundo, pra todo mundo e por todo mundo”, afirmou.

