“O fascismo não voltou porque nunca foi embora”, diz Safatle

29/04/2026 15:17

Vladimir Safatle alertou sobre a ameaça interna do fascismo. Na mesa, o filósofo contou com as companhias do cientista político Pedro da Costa Júnior, que falou sobre a conjuntura internacional, e da deputada Camila Valadão, que analisou o contexto estadual

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por marinodev | abr 29, 2026 | Blog | 0 comentários

O coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), ao lado da dirigente Renata Resende, mediou uma das mesas mais aguardadas da Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias na manhã deste sábado (25). O cientista político Pedro da Costa Júnior, o filósofo Vladimir Safatle e a deputada estadual Camila Valadão (PSOL-ES) fizeram, respectivamente, as análises das conjunturas internacional, nacional e estadual.

“O fascismo não voltou porque nunca foi embora. Ele é um elemento interno das nossas sociedades”, advertiu Safatle. O professor da Universidade de São Paulo (USP) pontuou que o fascismo não é uma ameaça externa ou um retorno histórico, mas algo sempre presente nas estruturas sociais liberais. Ele acrescentou que o fascismo ganha tração nos momentos de crises. O professor definiu o fascismo como uma forma de violência que visa a reconstruir os laços sociais a partir da generalização da dessensibilização e indiferença como afeto social central.

Vladimir Safatle durante palestra na Conferência Estadual 2026. (Fotos: Sérgio Cardoso)

O filósofo entende que o mundo vive atualmente um sistema de crises conexas: ecológica, política, econômica, social, psíquica, epistêmica e demográfica. “São crises estacionárias, que não vão regredir ou desaparecer. Num cenário de crises simultâneas e permanentes, as guerras surgem como um modo singular de estabilização social, pois permitem a unificação de estruturas de poder do Estado e mobilizam os indivíduos. O fascismo emerge como resposta racional e realista às crises”. Ao perceberem que estão aprisionadas às crises, continuou o professor, as pessoas passam a acreditar na existência de forças políticas capazes de alterar os modos de reprodução material da sociedade. “Se as crises são ingovernáveis, então resta salvar uma parte e deixar o resto para trás. Não há mais sociedade para todos. Ganha força a lógica da partilha excludente e da regeneração violenta dos laços sociais”, afirmou.

Para Safatle, a violência fascista não vem necessariamente do Estado contra a sociedade, mas “da sociedade contra si mesma”, por meio da dessensibilização, da indiferença generalizada e da normalização do sofrimento alheio.

Liberalismo de mãos dadas com o fascismo

Safatle sustenta que o liberalismo não é o oposto do fascismo, mas está historicamente ligado a ele. O colonialismo, com sua violência normalizada e indiferença ao genocídio, constitui a base sobre a qual o fascismo se constitui e se incrustra na estruturas sociais. A ideia de liberdade individual é ilusória, sublinha o filósofo, a liberdade é atributo do corpo social, não do indivíduo isolado.

Segundo Safatle, o neoliberalismo aprofundou essa crise psíquica. Iniciado com violência, o fascismo transformou as pessoas em “empreendedores de si mesmos”, gerando uma guerra de todos contra todos. Ele destaca que houve um aumento do uso de antidepressivos, que a depressão e ansiedade são sintomas diretos dessa destruição social.

Crise da ordem mundial e ascensão da China

O palestrante Pedro da Costa Júnior, que acabou de lançar o livro “EUA X China: A Luta pelo Poder Global”, convidou os bancários e as bancárias para dar um mergulho na história chinesa pós-revolução. Ele recuperou uma passagem memorável ao narrar em detalhes o encontro entre o líder revolucionário chinês Mao Tsé-Tung, o presidente Richard Nixon e o secretário de Estado Henry Kissinger. Costa Júnior contou que Nixon e Kissinger deixaram a China surpreendidos porque tinham uma imagem completamente equivocada do país asiático. “É uma civilização disfarçada de Estado, de país”, dirá Kissinger, que começa a entender que os Estados Unidos estavam lidando com uma civilização diferente.

O cientista político assinalou que a ordem internacional construída após a Segunda Guerra (ONU, OTAN etc.) está colapsada. A Europa reconhece, segundo o professor, que não pode mais sustentar uma ordem que já não existe. Ele acrescentou que o declínio dos EUA e da Europa é estrutural, não conjuntural. O centro econômico migrou do Atlântico para o Pacífico, com a China consolidada como “fábrica do mundo”, líder em tecnologia e processamento de terras raras.

Para Costa Júnior, a China age com visão de “longuíssimo prazo” e sinaliza o fim do “século das humilhações”. Nesse tabuleiro geopolítico, prossegue o professor, o Brasil ganha centralidade por sua posição estratégica e enormes reservas de terras raras e minerais críticos. “O Brasil torna-se um país central na disputa pelo poder global por sua posição estratégica e recursos naturais, especialmente terras raras”.

Conjuntura estadual ameaça Banestes

A deputada Camila Valadão fez um alerta: ela afirmou que a sucessão estadual ao governo do Estado, segundo as pesquisas eleitorais, está polarizada entre o governador Ricardo Ferraço (MDB) e o ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos), enquanto o senador Magno Malta (PL) corre por fora na disputa. A deputada destacou que os três comungam do mesmo projeto político, ou seja, defendem os interesses das elites empresariais capixabas. “Qualquer um dos três que aqui figurarem, representa para nós, trabalhadores e trabalhadoras, ataque a direitos e desmonte das empresas públicas”. Camila destacou que esse projeto é uma ameaça direta ao Banestes público e estadual.

A deputada afirmou que o modelo primário-exportador, a dependência de grandes empresas e o histórico de crimes ambientais agravam a situação no Espírito Santo. Nesse cenário político adverso para o Brasil e Espírito Santo, Camila salientou que há risco de aprofundamento do neoliberalismo, privatização de recursos naturais (incluindo terras raras) e ataque a direitos trabalhistas e ao banco público Banestes.

Ao final da mesa sobre conjuntura, Carlão fez uma balanço do debate. “Como expuseram nossos convidados, as conjunturas local, nacional e internacional são desafiadoras e exigirão uma mobilização ampla e tenaz da classe trabalhadora. Mais uma vez, temos pela frente uma eleição em que teremos que disputar voto a voto com a extrema direita. A eleição de 2022 foi decisiva e nos sentimos aliviados quando vencemos o bolsonarismo. Mas a eleição deste ano passa a ser o desafio da vez. Novamente vamos para uma disputa acirrada e indefinida com a certeza que temos um inimigo a ser derrotado: o fascismo. Como alertou o professor Safatle, o fascismo não é uma metáfora, mas uma realidade. Nós, da esquerda, temos o compromisso de enfrentar e derrotar novamente o bolsonarismo para reconstruir um projeto socialista corajoso e transformador”, afirmou Carlão. “À luta!”


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